60º Festival de Berlim

Fora de competição, Scorsese eletriza Berlinale

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

Fora de competição, Scorsese eletriza Berlinale
"Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Corre a sombra"
T.S. Elliot, em The Hollow Men
 
Apesar de não estar concorrendo ao Urso de Ouro, o mais novo filme de Martin Scorsese, Shutter Island, é uma das sensações desta edição da Berlinale, a começar pela presença de Leonardo DiCaprio, sempre um alvo potencial da imprensa internacional, mas principalmente pelos méritos de Scorsese nesta adaptação muito bem-sucedida do romance homônimo de Dennis Lehane (autor de outro thriller que deu origem ao filme Sobre Meninos e Lobos, dirigido por Clint Eastwood).
 
O filme se passa em 1954. O primeiro plano mostra dois agentes da U.S.Marshal, Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo, presente em outro filme fora da competição principal, The kids are all right) a bordo de uma embarcação que está prestes a ancorar junto a uma das ilhas ao longo da região portuária de Boston. A missão dos dois agentes é investigar o misterioso desaparecimento de uma paciente do Hospital Ashecliffe. Verdadeira fortaleza, esta instituição destina-se a tratar de criminosos com problemas psiquiátricos. Este estado de confinamento, que remete a outro filme de Scorsese, Cabo do medo (concorrente ao Urso de Berlim em 1992), é o fio condutor não apenas da ação do filme, mas também do desenrolar dos estados de alma de cada personagem.
 
Pouco a pouco, Teddy começa a se confrontar com os flashbacks traumáticos do tempo em que era um soldado a serviço dos Estados Unidos na liberação dos campos de concentração na Europa, bem como com as lembranças de sua mulher e da sua morte. O huis clos no qual o telespectador também se encontra inserido é uma estrutura onde permanentemente se questiona de que lado está a razão, já que os parâmetros da normalidade oscilam todo o tempo neste ambiente um tanto quanto inóspito, comandado pelo Dr. Cawley (Ben Kingsley, impressionante no papel deste psiquiatra que, apesar de soturno, não deixa de despertar empatia).
 
A natureza também mostra-se determinante na definição de rumos dos personagens, como o furacão que acentua a confrontação com as fronteiras psíquicas daqueles que se encontram na ilha. O desenrolar da trama permite até que se faça um paralelo entre o personagem de DiCaprio com o vivido pelo ator Ralph Fiennes no filme Spider, de David Cronenberg.
O que não deixa dúvidas é a maestria de Scorsese em conduzir o espectador nestes corredores onde, apesar de não saber-se de fato qual será o desfecho, há a certeza de que o melhor a fazer é não buscar respostas imediatas.

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