"Exilados do vulcão" vence Festival de Brasília

Homenagem a Carlos Reichenbach e sessão extra marcam competição em Brasília

Nayara Reynaud

Homenagem a Carlos Reichenbach e sessão extra marcam competição em Brasília
O terceiro dia da Mostra Competitiva do Festival de Brasília começou pontualmente às 19h, nesta sexta (20). Isso porque o dia seria cheio: depois das sessões de documentário e de animação e ficção, o filme de Rosemberg Cariry, Os Pobres Diabos, foi reexibido ontem, após o cancelamento da última quarta (18), causado por falhas técnicas no som do Cine Brasília. No entanto, com o avanço do horário – a exibição foi iniciada por volta das 23h45 – o público nem de longe parecia aquele de dois dias atrás.
 
O número de espectadores também diminuiu sensivelmente em relação à sessão anterior, que trazia Avanti Popolo, primeiro longa de Michael Wahrmann, um uruguaio-israelense que vive em São Paulo desde 2004. Além disso, a produção atraiu a atenção de todos por trazer o último trabalho como ator de Carlos Reichenbach (foto), morto em 14 de junho de 2012. O cineasta deu vida a um senhor cujo filho, André (André Gatti), passa a morar novamente com ele e tenta reavivar a memória do pai, por meio das filmagens em Super-8 feitas pelo seu irmão desaparecido havia 30 anos, durante a ditadura Militar.
 
A temática da repressão política serve de pano de fundo para uma história sobre o tempo e seu efeito na vida das pessoas e no cinema. O último caso pode ser observado tanto na cena final quanto nas inserções de vídeos em Super-8mm durante todo o longa. A metalinguagem permeia a obra e se torna explícita na conversa de André com um homem que conserta projetores de Super-8 e é fundador de um movimento cinematográfico de um cineasta só, ele mesmo.
 
Avanti Popolo traz planos bem longos e a presença constante da câmera parada, em oposição à sequência inicial que acompanha o trajeto de um carro por um bairro, em cima do capô do automóvel. A mesma opção pela câmera estável foi feita em Os Pobres Diabos, cuja fotografia não utiliza movimentação nenhuma e abusa dos planos abertos, marcando ainda mais o isolamento dessa trupe do Gran Circo Teatro Americano, que perambula pelo sertão em busca de um público mínimo. O departamento ficou à cargo de Petrus Cariry, filho do diretor Rosemberg Cariry, que o ajudou na decupagem, enquanto a filha do cearense, Bárbara, cuidou da produção executiva.
 
Segundo o cineasta, esse foi um filme feito em família, porque além da linhagem Cariry, ele trouxe Sílvia Buarque para trabalhar junto com seu marido, Chico Diaz, um membro antigo dos elencos do diretor. Ela interpreta Creusa, uma artista adúltera que apenas quer ter a vida e o sucesso que sempre sonhara.
 
Com um elenco variado, tanto em formação quanto em relação ao estado de origem, Rosemberg constrói uma história carregada de regionalismo – especialmente com a influência da literatura de cordel na narrativa –, mas que debate um tema universal: o valor da arte e de quem a faz. No filme, o circo não tem mais leão porque o animal morreu de fome, situação enfrentada por todos do grupo – em contraste com a alegoria da Santa Ceia, referenciada no início da produção, e precisam evocar a figura de artistas estrangeiros para chamarem atenção.
 
A temática circense remete a outro filme recente, O Palhaço, de Selton Mello. Mas se o filme de 2011 carregava uma melancolia esperançosa, o longa de Cariry traz uma alegria cética sobre o futuro da arte popular.
 
Relação entre o homem e a natureza
Os minutos iniciais de Hereros Angola, documentário de Sérgio Guerra, apresentam apenas o áudio de alguns depoimentos e imagens da paisagem do sudoeste de Angola. Quando um dos entrevistados fala que eles chegaram antes dos brancos, a natureza encantadora dá lugar ao retrato desse povo que a “dominou”, os hereros. A partir daí, o longa desvenda a cultura desse grupo étnico originário dos bantos e que se dispersou em diversas tribos, algumas com características distintas.
 
Porém, um traço cultural que une esses nativos africanos é a importância da figura do boi em diversos momentos de suas vidas. O animal não serve só de alimento, mas também se transforma em bem valioso deixado de herança, em oferenda de sacrifícios e rituais – seja de iniciação, em que é comum também matar carneiros, ou de morte – e como adorno de túmulos, já que seus chifres enfeitam as covas. A caça desses bois é mostrada explicitamente no filme, que também não tem pudor ao apresentar rituais de iniciação e passagem, como a circuncisão e a retirada dos dentes da frente de crianças.
 
O choque do público com essas práticas se repetiu, mas com risadas, quando foi contada como se estabelecem as relações matrimoniais e amorosas entre os hereros. O documentário também levanta a preocupação com a entrada das bebidas alcóolicas nas tribos, causando vícios e dívidas entre os nativos, e uma consequente perda das tradições desse povo, cuja história e costumes são transmitidos oralmente.
 
O curta-metragem Carga Viva, da mineira Débora de Oliveira, também trata da relação do homem com a natureza, retratando o cotidiano de uma família que cria burros e os leva a um parque de Belo Horizonte para servirem de animais de passeio para moradores e turistas. Sem intervenção direta, com poucos diálogos e um problema na cor do filme devido a outra falha técnica no Cine Brasília, o documentário não conseguiu conquistar a plateia.
 
Outros curtas
Entre a mostra de ficção, foi exibido o curta pernambucano Au Revoir, de Milena Times, sobre uma jovem brasileira que vive em Paris, distante da mãe que parece ficar cada vez mais doente. Nesse ínterim, Ana se aproxima de sua vizinha, uma senhora que precisará muito de sua ajuda.
 
Entretanto, o curta goiano Faroeste – Um Autêntico Western, ganhador do Júri Popular carioca da edição deste ano do Anima Mundi como melhor animação brasileira, cativou mais o público com a história de um urubu introduzido em um ambiente de violência desde a infância que, mais tarde, se torna o líder de uma gangue sanguinária. Apesar de não trazer inovações técnica, o filme de Wesley Rodrigues ganha por reavivar um gênero como o faroeste, dentro do contexto brasileiro e da animação.

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