35ª Mostra Internacional de Cinema

Morre em São Paulo Leon Cakoff, criador da Mostra Internacional de Cinema


Morreu no início da tarde desta sexta-feira (14), em São Paulo, o crítico de cinema e jornalista Leon Cakoff, criador da Mostra Internacional de Cinema. Ele estava internado no Hospital São José. Ele tinha 63 anos, e desde o último dezembro lutava contra um câncer.
 
O velório será realizado no MIS (Museu da Imagem e do Som, av. Europa, 158, SP, tel. 11-2117-4777) a partir das 17h. O corpo será cremado no sábado (15), às 12h, no Memorial Parque Paulista, em Embu das Artes.
 
Nascido em Alepo, na Síria, Leon Chadarevian veio para o Brasil aos 8 anos de idade e mudou seu sobrenome após ter um artigo censurado pelo jornal onde trabalhava. Começou escrevendo para o Diário da Noite e o Diário de São Paulo, dos Diários Associados. Depois também foi articulista da Folha de S. Paulo e colaborador do Valor Econômico.
 
Cakoff deixa sua mulher Renata de Almeida, com quem teve Tiago e Jonas; e também Laura e Pedro, filhos de seu primeiro casamento, com Vera Lucia Caldas.
 
Além de criar e dirigir a Mostra, Cakoff também foi cineasta e produtor. Como diretor, junto com Renata, fez Volte Sempre Abbas, sobre a visita do diretor iraniano a São Paulo. Também assinou a produção do coletivo Bem-Vindo a São Paulo e de O Estranho caso de Angélica, do seu amigo o diretor português Manuel de Oliveira.  Ao lado de Renata, ele produzia Mundo invisível, que contará com episódios assinados por Wim Wenders, Atom Egoyan e outros.
 
A 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo começa na próxima quinta-feira.
 
A organização da Mostra divulgou a seguinte nota biográfica:

Um dos maiores nomes da resistência cultural no Brasil durante a ditadura, Leon Cakoff, fundador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, morreu hoje, sexta-feira dia 14 outubro, às 13 horas, por conta de complicações decorrentes de um melanoma – câncer que atinge o tecido epitelial. Ele estava internado há duas semanas no Hospital São José, em São Paulo. O corpo será velado no Museu da Imagem e do Som - MIS de São Paulo, (Av. Europa, 158 - Jardim Europa) a partir das 17 horas de hoje até as 12 horas de sábado (15). O corpo seguirá para o Memorial Parque Paulista (R. Dr. Jorge Balduzzi, Nº 520,Jd. Das Oliveiras - Embu Das Artes), onde será cremado.

Leon Cakoff nasceu Leon Chadarevian em Alepo, na Síria, em 25 de junho de 1948. Veio para o Brasil com a família aos oito anos de idade e formou-se pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Por problemas com o regime militar, adotou o pseudônimo Cakoff, que nunca mais abandonou.

Leon foi casado durante 22 anos com Renata de Almeida, atual diretora da Mostra. Ela dirige a Mostra a seu lado desde a 13ª edição do evento, em 1989. Deixa dois filhos com ela, Jonas e Thiago, além de dois  filhos anteriores do primeiro casamento, Pedro e Laura.

Ele começou a carreira em 1969 como jornalista e depois crítico de cinema nos Diário Associados. A partir de 1974, dirigiu o Departamento de Cinema do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e iniciou a programação de mostras e ciclos no museu.

Em 1977, para comemorar os 30 anos do Masp, Leon criou a 1ª Mostra Internacional de Cinema, com 16 longas e 7 curtas brasileiros e internacionais. Logo no primeiro ano, foi criada uma das maiores marcas do festival, o prêmio com o voto do público, que na primeira edição foi para Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia, de Hector Babenco. Um artigo do Jornal do Brasil registra que “a Mostra é o único lugar onde se pode votar no país”.

Desde a primeira edição, Leon travou uma luta ferrenha contra a censura imposta pelo regime militar, trazendo filmes até por meio de malas diplomáticas de embaixadas e consulados. Foi assim que a Mostra exibiu filmes inéditos vindos da China, Cuba, União Soviética, França e dos mais distantes países.

A partir de 1984, Leon desligou-se do Masp e carregou consigo o evento. A 8ª Mostrafoi marcada por alguns dos maiores embates contra a censura. É o ano da histórica sessão de O Estado das Coisas, de Wim Wenders, no Cine Metrópole, ao fim da qual ele subiu ao palco para anunciar a ordem federal de fechamento do cinema e interrupção do festival. O fato repercutiu em diversos jornais no exterior. Leon conseguiu retomar as projeções quatro dias depois.

Grandes cineastas

Ao longo dos 35 anos de Mostra, Leon introduziu no Brasil o cinema de grandes autores que de outra forma não teriam chegado ao público nacional. Todos esses diretores tornaram-se também seus amigos pessoais. É o caso do português Manoel de Oliveira, o cineasta mais velho do mundo em atividade, hoje com 102 anos, de quem a Mostra apresentou regularmente os filmes a partir de Amor de Perdição (1979, na 3ª Mostra); o iraniano Abbas Kiarostami, diretor de Gosto de Cereja e Cópia Fiel; e o israelense Amos Gitai, diretor de Kadosh e Alila. Todos vieram inúmeras vezes a São Paulo como convidados ou membros do Júri internacional da Mostra.

Outros grandes diretores que passaram pela Mostra foram o americano QuentinTarantino com seu primeiro filme, Cães de Aluguel (1992, 16ª Mostra); o espanhol Pedro Almodóvar, que abriu a 19ª Mostra em 1995 com A Flor do Meu Segredo; o americano Dennis Hopper, que veio a São Paulo em1984 apresentar O Último Filme; o alemão Wim Wenders, que veio a SãoPaulo na 32ª e na 34ª Mostra; o diretor de fotografia mexicano Gabriel Figueroa, que trabalhou com John Huston e Luís Buñuel, convidado da 19ª Mostra em 1995; o iraniano Jafar Panahi, hoje mantido em prisão domiciliar pelo governo do Irã; o sérvio Emir Kusturica e o finlandês Aki Kaurismaki, entre tantos outros.

Produtor,diretor e escritor

Leon Cakoff também foi o produtor de importantes projetos que reuniram grandes diretores. Em 2004, ele organizou e lançou na 28ª Mostra o filme Bem-Vindo a São Paulo, reunião de curtas sobre a cidade dirigidos por 12 cineastas, entre eles Caetano Veloso, Phillip Noyce, Maria de Medeiros, Daniela Thomas, Amos Gitai eTsai Ming-Liang. Foi também o produtor de O Mundo Invisível, filme inédito que reúne curtas de Manoel de Oliveira, Wim Wenders e Atom Egoyan, que terá exibição na 35ªMostra.

Leon dirigiu ainda os curtas Volte Sempre Abbas (1999) e Natureza Morta (2004), ambos em parceria com Renata de Almeida, e Esperando Abbas (2004).

Ele escreveu os livros Gabriel Figueroa – O Mestre do Olhar ,grande entrevista com o mexicano; Ainda Temos Tempo, com crônicas de viagem ligadas a cinema; Cinema Sem Fim, com a história dos 30 anos da Mostra; e Manoel de Oliveira, uma grande entrevista sua com o cineasta português.

Distribuidor e exibidor

Além de programador e produtor, Leon também atuou nas outras pontas do mercado cinematográfico. Em 2000, junto com Adhemar Oliveira, Patrícia Durães e Renata de Almeida, formou a distribuidora Mais Filmes, especializada em filmes de autor. Nos últimos anos, mantinha, com Renata de Almeida, a Filmes da Mostra, que lança filmes em cinema (como Tio Boonmee..., vencedor da Palma de Ouro em Cannes) e coleções em DVD, em parceria com a Livraria Cultura.

Com Adhemar, ele era sócio desde 2001do Unibanco Arteplex, primeiro cinema do Brasil a usar o conceito de multiplex para incluir filmes de arte da programação.


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