35ª Mostra Internacional de Cinema

35a. Mostra de SP abre hoje para convidados, com homenagem a Leon Cakoff

Alysson Oliveira

A Mostra Internacional de Cinema de 2011 será um tanto estranha. E isso não tem nada a ver com a menor quantidade de filmes – se bem que os cerca de 250 títulos ainda são um bom número para agradar aos gostos mais variados. O estranhamento tem a ver com esta ser a primeira edição do evento em que seu criador e diretor, Leon Cakoff, não estará presente. Ele que ao longo dessas mais de três décadas acompanhou de perto todas as mostras, cuidando de tudo pessoalmente, morreu na última sexta (14).
 
Qualquer pessoa que tenha frequentado uma edição que seja, certamente, esbarrou nele em algum debate, em alguma sessão ou mesmo na central de ingressos da Mostra, no Conjunto Nacional. A empolgação de Cakoff fará falta neste evento que foi tocado por sua mulher Renata de Almeida – com quem dividia a direção do festival desde 1989 – e da sua equipe que, como ela mesma disse na coletiva de apresentação da programação, neste ano foi mais empenhada e necessária do que nunca.
 
Renata e sua equipe conseguiram trazer para a Mostra alguns dos filmes mais badalados e premiados dos grandes festivais internacionais deste ano. De Cannes vêm os dois ganhadores do Grande Prêmio do Júri: “O garoto da bicicleta”, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, e “Era uma vez em Anatólia”, de Nuri Bilge Ceylan, além de “Habemus Papam”, de Nanni Moretti, e “Pater”, de Alain Cavalier, entre outros. De Berlim, vêm filmes como “O Futuro”, de Miranda July (do cult “Eu, você e todos nós”), e “Mundo Misterioso”, de Rodrigo Moreno (o mesmo diretor do elogiado “O Guardião”). E de Veneza, o ganhador do Leão de Ouro, “Fausto”, do russo Aleksander Sokurov, que deverá encerrar a Mostra em 3 de novembro.
 
A Mostra inicia-se nesta quinta (20), com uma sessão exclusiva para convidados, no Auditório Ibirapuera, do filme “O garoto da bicicleta”, onde deve acontecer igualmente uma homenagem a Cakoff. Na sexta começa a programação normal, em 22 salas.
 
Apostas e riscos
Como todo ano, o evento é uma chance de descoberta de filmes pequenos que dificilmente chegariam ao Brasil por outro meio. É possível, por exemplo, montar uma programação apenas por filmes com títulos curiosos, como o espanhol “A alma das moscas”, os brasileiros “A alma roqueira de Noel Rosa” e “Girimunho”, os italianos “La boca del lupo” e “Mozzarella Stories” e o norte-americano “A verdadeira história da marijuana”.
 
Quem não quer arriscar, porém, o tiro certo está nas retrospectivas que, neste ano, além das obras do turco radicado nos EUA Elia Kazan, o georgiano Sergei Paradjanov e o russo Aleksei German, traz uma série de clássicos modernos, como “O leopardo”, de Luchino Visconti, “A laranja mecânica”, de Stanley Kubrick, “Taxi Driver”, de Martin Scorsese, “Despair”, de Rainer Werner Fassbinder, e “Cabra marcado para morrer”, de Eduardo Coutinho.
 
Boa parte da obra de Kazan está na programação da 35ª Mostra. É a oportunidade rara de ver na tela do cinema filmes como “Clamor do Sexo”, “Sindicato de Ladrões”, “Uma rua chamada pecado” e “Terra de um sonho distante”. Além dos filmes do cineasta, morto em 2003, faz parte do evento “Uma carta para Elia”, uma verdadeira declaração de amor de Martin Scorsese à obra do diretor que virou maldito ao denunciar membros do Partido Comunista durante a perseguição macartista, na década de 1950. A viúva do diretor, a escritora Frances Kazan, virá para o festival.
 
Além dos filmes emblemáticos do diretor georgiano Sergei Paradjanov (1924-1990), como “A cor da romã” e “A lenda da fortaleza de Suran”, a Mostra trará uma exposição de colagens e desenhos do cineasta que ficará em cartaz no MIS – Museu da Imagem e do Som. Já o russo Aleksei German ganha uma retrospectiva com seis longas produzidos entre as décadas de 1970 e 1990 – muitos deles premiados em festivais internacionais e censurados pelo regime stalinista. Na seleção estão “Meu amigo Ivan Lapshin”, e “Vinte dias sem guerra”.
 
Brasileiros e eventos especiais
 
Também figuram na programação alguns dos filmes brasileiros mais aguardados do ano – alguns premiados em festivais e que em breve chegam ao circuito nacional. “Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios”, dirigido por Beto Brant e Renato Ciasca, rendeu a Camila Pitanga, na última terça, o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio. Enquanto o documentário “As canções”, de Eduardo Coutinho, conquistou o prêmio de melhor filme na sua categoria no mesmo evento.
“O palhaço”, que rendeu a Selton Mello prêmio de direção no Festival de Paulínia, em julho passado, terá uma pré-estreia durante a Mostra. Misto de documentário e ficção, “O céu sobre os ombros”, do mineiro Sérgio Borges, vencedor do principal prêmio do Festival de Brasília de 2010, também está na programação. 
 
Livro de Scorsese
Além dos filmes, como todo ano, a Mostra conta com eventos especiais. Alguns deles já fazem parte do calendário do festival, como o “Filmes da minha vida”, um bate-papo com personalidades do mundo da cultura que comentam seus filmes preferidos. Neste ano participam cineastas como Jorge Furtado, Laís Bodanzky, Eduardo Coutinho, Selton Mello e Beto Brant.
 
Junto com a editora Cosac Naify, a Mostra lançará o livro de entrevistas “Conversas com Scorsese”, escrito pelo crítico norte-americano Richard Schickel, que vira a São Paulo no final da Mostra. A obra é uma longa conversa com o diretor, que comenta não apenas filme a filme de sua carreira, mas fala também de sua infância, adolescência e de seu lado cinéfilo.
 
Vários diretores, brasileiros e estrangeiros, participam de debates após as sessões de seus filmes. Para acompanhar a programação desses eventos, basta acessar o site oficial da Mostra, que também traz sinopses de todos os filmes: www.mostra.org

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança