35ª Mostra Internacional de Cinema

“Fiz um filme sobre um mito provocador”, diz Walter Carvalho sobre "Raul"

Neusa Barbosa

Oito anos após Cazuza – O Tempo não Para (2004), o diretor Walter Carvalho volta ao universo do rock nacional para investigar outro mito – agora, Raul Seixas (1945-1989), o personagem por trás do documentário Raul – O Início, o Fim e o Meio.
 
Diretor de fotografia experiente e premiado, com mais de 70 filmes nas costas, além de seis incursões na direção, o próprio Carvalho assim define Raul...: “Este foi talvez o trabalho que me consumiu mais tempo e dedicação”, explicou em entrevista concedida ao Cineweb durante a Mostra Internacional, no ano passado. O mais desgastante de todo o processo, segundo ele, foi a montagem, a cargo de Pablo Ribeiro, que levou um ano e meio. “Tínhamos mais de 400 horas de material. Foram 90 entrevistas. Éramos eu e meu montador, na solidão, oito horas por dia. É um trabalho quase insano de equação, de achar enlaces, conexões, desenlaces, conjunções, disparates que estão dentro daquele universo de um bloco chamado Raul e tirar tudo que não é Raul do bloco”.
 
Apesar de sua larga experiência, Carvalho faz uma confissão surpreendente, quando perguntado como enfrentou todo este material: “Sempre penso que não vou dar conta. Aí, centrei através das músicas para tentar entender a trajetória do Raul por meio delas. Aos poucos, isso foi se diluindo dentro do próprio mito”.
 
Segundo o diretor, o filme se passa em dois planos: o privado, cronológico, e o público, não cronológico. “Depois, os dois se encontraram”, conta. “Fiz um filme sobre um mito, libertário, irreverente, provocador. Quem vai saber se dei conta dele ou não é o público”.
 
Pagamento aos herdeiros
O material de arquivo, que inclui entrevistas e apresentações do cantor e compositor baiano, ocupa entre 30 a 40% do total de Raul..., proveniente de várias origens: emissoras de TV, familiares, produtores. Há inclusive material inédito, como uma gravação num estúdio, filmada por Marcos Mazola.
 
Outro ano foi consumido na filmagem das entrevistas, que acarretou inclusive algumas viagens internacionais, aos EUA, para entrevistar o cunhado e as três filhas de Raul, e à Suíça, onde mora o escritor Paulo Coelho, parceiro do roqueiro em composições como “Há Dez Mil Anos Atrás” e “Sociedade Alternativa”.
 
Familiares e as várias ex-companheiras de Raul não constituíram nenhum empecilho ao documentário, segundo o diretor: “Todos, sem exceção, foram atenciosos, tanto para dar seus depoimentos quanto para abrir seus arquivos. Evidentemente, tivemos de pagar todos os direitos aos herdeiros”.
 
Carvalho estima que quase 25% do orçamento do filme – cerca de R$ 2,4 milhões – foi gasto no pagamento desses direitos de imagens e fonogramas, não só aos herdeiros quanto às gravadoras. O diretor salienta que nem todos esses pagamentos, porém, referem-se às composições de Raul Seixas. “Também tivemos que pagar imagens de Elvis Presley, da Jovem Guarda e de alguns filmes que usamos”.
 
Entre esses filmes, Carvalho usou cenas de Sem Destino, de Dennis Hopper, de 1969. A razão: “Para mim, é um divisor de águas. É a ruptura com a contracultura nos anos 70 no viés dos beatniks. Isso se mistura com o Elvis e se espalha para o mundo. É nesse momento que o Raul começa a emergir como artista, ele é fruto de tudo isso”.
 
Ponte entre gerações
O diretor conta que chegou a conhecer Raul “mas não o frequentava”. Muito tempo depois, seus dois filhos, de 34 e 24 anos,reintroduziram suas músicas no cotidiano de Walter. “Os dois, em fases diferentes, o ouviam em casa. O Raul tinha essa característica mesmo, de atingir várias gerações”.
 
Quando lhe perguntam se, depois de realizar o filme, mudou sua visão de Raul, ele responde: “Posso ser sincero ? Quando olho o filme, vendo, como vi no Rio, numa sessão interrompida por aplausos quatro vezes, a sensação é como se ele estivesse conversando comigo, como se ele fosse meu amigo e estivesse ali. Eu tinha a impressão de que ele estava falando para mim”.

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