"Febre do rato", de Claudio Assis", é o grande vencedor de Paulínia

“A linguagem do cinema é universal”, diz ator de “Corações Sujos”

Alysson Oliveira

“A linguagem do cinema é universal”, diz ator de “Corações Sujos”
Com um elenco internacional, Corações Sujos, produção brasileira dirigida por Vicente Amorim (Um homem bom), abriu o 4º Paulínia Festival de Paulínia. Adaptado do livro homônimo do jornalista Fernando Morais (“Olga”, “Chatô, O Rei do Brasil”), o longa traz Tsuyoshi Ihara (Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood) no papel central, como um japonês que mora no Brasil, nos anos 1940, e que não acredita que o Japão tenha perdido a II Guerra Mundial. No elenco também estão Eduardo Moscovis, André Frateschi e Kimiko Yo (do oscarizado A Partida).
“Eu não conhecia a história dos derrotistas [que foram chamados de Corações Sujos por admitir a derrota do Japão]. Isso não é ensinado nas escolas japonesas; portanto foi uma grande surpresa quando recebi o roteiro do filme e comecei a fazer pesquisas”, disse Ihara que veio do Japão especialmente para a abertura do Festival, e participou de uma coletiva no começo da tarde desta sexta-feira. “Sou neto de coreanos e entendo como pode haver preconceito contra imigrantes”.
Amorim, diretor do longa, explica que o processo de escolha de elenco foi longo e complexo, especialmente porque a maioria dos atores do filme são japoneses e não falam português. Mas, no set, durante as filmagens, não houve problemas. “Tivemos o roteiro adaptado por uma escritora japonesa, que já havia feito o mesmo trabalho em Cartas de Iwo Jima. Ensaiamos durante um mês antes de começar a filmar. Todos estavam tão entrosados que nem percebíamos a diferença das línguas”, explica o diretor. Ihara concorda e conta que ele e seus colegas deram várias sugestões a Amorim. “Ele acolhia a todas com um sorriso. Percebi que muitas vezes não precisamos falar a mesma língua para fazer cinema. A linguagem do cinema é universal”.
Comparar Amorim com Eastwood não é difícil para Ihara: “Vicente é sorridente e Clint é o próprio Dirty Harry”, brinca o japonês se referindo a um dos personagens mais famosos do ator e diretor norte americano. Quanto ao Brasil, ele explica que não teve dificuldades em se adaptar. “Adoro feijão e não tive problema em encontrar esse prato no país. Fazíamos arroz branco no set. Mas gostei mesmo foi dos restaurantes italianos. Senti que todos voltamos para o Japão mais energizados”, brinca.
As filmagens de Corações Sujos foram realizadas no Pólo Cinematográfico de Paulínia há cerca de dois anos, com a reconstituição de seis ruas de cidades do interior paulista onde aconteceram disputas entre derrotistas e vitoristas, representados pela organização conhecida como Shindo Reinmei. “Não seria possível usar cenários reais da época, porque as construções do período que ainda estão de pé estão cercadas por modernidade”, explica Amorim. 
O nome Shindo Renmei, aliás, não é citado uma única vez no filme, e o roteirista David França Mendes explica que essa foi uma opção que fez junto com o diretor para não distanciar o público do drama pessoal de seus personagens. “Não é um filme sobre a Shindo Renmei. Ficar falando dela, remeteria à ideia de uma sociedade secreta, de um gênero de cinema que não nos interessava”, explica França Mendes.
 
De Chatô aos Corações Sujos
Fernando Morais, autor do livro, também está em Paulínia, e adiantou que já vendeu os direitos de adaptação de sua próxima obra, “Os últimos soldados da Guerra Fria”, que deve ser lançado no próximo mês. “Sempre tive experiências muito felizes com adaptações. Gosto muito dos dois filmes”, disse em entrevista ao Cineweb, referindo-se a Olga e Corações Sujos, que deve chegar aos cinemas no final de outubro.
Quanto à terceira adaptação de um livro de Morais, “Chatô, O Rei do Brasil”, que Guilherme Fontes está fazendo há alguns anos, Morais se mostra otimista, e acredita que o filme fique pronto um dia. “Falo sempre com ele [Fontes] e até renovamos os diretos duas vezes. Eu acho antiético tirar os direitos dele agora que falta tão pouco para terminar o filme. E eu acredito que ele não se apropriou de dinheiro público para produzir. A melhor prova é que ele está muito mais pobre agora do que quando começou a adaptação há praticamente duas décadas”.
“Chatô”, aliás, foi motivo de duas piadas ontem na abertura do Festival, durante a apresentação dos comediantes Marcius Melhem e Leandro Hassum. “É melhor a gente ser rápido aqui [na cerimônia], se não só vamos conseguir abrir o Festival quando ‘Chatô’ estiver pronto”, disse um deles no palco. Morais conta que se divertiu com a piada.
Atualmente, além de lançar “Os soldados da Guerra Fria”, Morais planeja escrever um argumento para cinema sobre o que ficou conhecido como Operação Peter Pan, quando a CIA e a Igreja Católica tiraram de Cuba 14 mil crianças e as levaram para os Estados Unidos, na década de 1960. “É uma história impressionante, e muitas dessas crianças, hoje adultos da minha idade, nunca voltaram a Cuba, nunca reviram seus pais. Se tornaram americanos de verdade”. Para dirigir o filme, Morais quer o próprio Amorim, seu parceiro em Corações Sujos.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança