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Cine PE - “A arte não tem cor ou sexo. É livre”, diz Roberta Rodrigues, de “Vamos fazer um brinde”

Alysson Oliveira

Cine PE - “A arte não tem cor ou sexo. É livre”, diz Roberta Rodrigues, de “Vamos fazer um brinde”
Recife - Conhecido curtametragista, Cavi Borges apresentou na noite de ontem, no CinePE, o longa Vamos fazer um brinde (foto), que dirigiu com Sabrina Rosa, que também assina o roteiro. O filme, rodado num esquema de guerrilha, tem uma sensibilidade aguçada e a percepção certeira sobre o universo feminino. Um grupo de amigas se reúne para passarem juntas a noite de réveillon. Discussões do passado e presente, questões pendentes e diferenças vêm à tona. Até pode não ter nada de novo de muita coisa que já se viu, mas o filme surpreende e conquista,acima de tudo, por sua honestidade.
A questão mais pertinente não está explícita na tela, está nas entrelinhas. Foi o que levantou discussão na coletiva na manhã desta quarta-feira. As quatro amigas, um amigo e a mãe de uma delas, que estão presentes também, são todos afrodescendentes, mas o filme não faz disso sua razão de ser, nem de dar lições. Eles são gente vivendo seus dramas, é isso que importa. “A arte não tem cor ou sexo. É livre”, disse Roberta Rodrigues, que faz uma atriz no longa. “Eu não aceito preconceito no Brasil. O filme é sobre pessoas”, completou.
“No filme, quebramos a minoria negra bem-sucedida da qual não se fala”, explica Sabrina. “O ator não pode ter rótulos. Nessa história, essas pessoas podiam estar em qualquer lugar, ser quaisquer pessoas”, disse a diretora, que também faz uma participação no longa. Juliana Alves, que há pouco estava na novela Ti ti ti, disse que, como artistas, trabalham para mudar o mundo. “Queríamos que um dia não precisássemos levantar essa questão [dos personagens serem afrobrasileiros]. Meu desejo é que daqui a alguns anos não tenhamos esse questionamento, que vejam essas meninas independente da cor de suas peles”.
Vamos fazer um brinde começou como uma peça de teatro, e enquanto esperava encontrar um patrocinador injetar dinheiro, pois já fora aprovada para captação. Sabrina conta que o namorado, Borges, teve a ideia de transformar o texto em filme. Mas isso também não foi fácil. Eles fizeram o longa com R$ 30 mil, incluindo também a finalização. “Foi uma rodagem em esquema de guerrilha”, conta o codiretor. “Filmamos em 6 dias, 3 num apartamento, 3 na praia, tivemos poucas locações e muitos ensaios. As atrizes não receberam nada e entraram como sócias. Terão pagamento apenas se o filme der dinheiro”.
Artista famigerado,cineasta vampira
O documentário JMB, O famigerado, de Luci Alcantara, é praticamente um disco voador na produção nacional contemporânea – e isso é um elogio. O filme pode ser inteligível para muitos, cansativo para outros – mas uma coisa é certa, a diretora é irredutível. Como disse no debate, ela fez seu filme como queria, é isso que importa.
Bastante conhecido no Recife, Jomar Muniz de Britto é um pensador, agitador cultural,diretor de alguns dos mais influentes curtas em 8mm, entre outras coisas. A questão é que Luci tenta, em pouco mais de 100 minutos, captar a essência desse sujeito-objeto, como o próprio se define. Mas é uma tarefa árdua, então, ela encontra uma saída,como ele mesmo diz, de o vampirizar.
Luci se torna uma figura quase tão importante quanto Jomar nesse documentário, sem nunca aparecer na frente da câmera.”O filme é uma disputa de poder entre as duas figuras, repleta de provocações dos dois lados. É uma briga para ver quem aparece mais”,explica. Formada em arte cênicas,mas especializada, posteriormente, em documentários, a diretora define seu longa como "jomardiano".
Na coletiva, a documentarista lançou uma provocação ao público quando questionada sobre a duração excessiva do longa: “Tenho certeza de que 90% da platéia gostou do filme. Não vou mexer na duração, nos depoimentos. As pessoas veem filmes hollywoodianos de quase três horas e ninguém reclama.”
Concorde-se, ou não, com Luci, é inegável que ela é uma figura atraente e bastante consistente em seu propósito. A cineasta está em seu melhor quando é irredutível e bate o pé para não mudar o filme que, como deixou bem claro, é seu. “Quem quiser sair no meio, saia, e diga que o meu filme é ruim. Eu sei que ele [Jomar] gostou do filme, mas também, se não gostasse, eu não ia morrer por causa disso”.
Nos curtas, o destaque foi o documentário curitibano Ovos de dinossauro na sala de estar, de Rafael Urban, que teve uma boa recepção, um trabalho formalmente rigoroso e muito bem-dirigido, que dialoga com o francês Jeanne Dielman, de Chantal Akerman. Aqui, quem domina a cena é Ragnhild Borgomanero – uma senhora dona da maior coleção particular de fósseis da América Latina. Revisitando a trajetória dessa mulher, o curta conta uma história de amor, entre ela e seu marido, o cônsul italiano Guido Borgomanero. Eles se conheceram no dia da morte do presidente de John Kennedy, em 1963. Agora, viúva, Rag, como é conhecida, domina programas como photoshop e digitaliza o acervo de seu marido.

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