"Dois Tempos" vence a edição brasileira do É Tudo Verdade

“O documentário está em fase de mutação e dialoga com as outras artes”

Alysson Oliveira

 “O documentário está em fase de mutação e dialoga com as outras artes”
por Alysson Oliveira
 
Para o jornalista Amir Labaki, diretor do festival de documentários É Tudo Verdade, o gênero está em transformação e, assim, mais receptivo às outras artes. “Isso nunca foi uma novidade. O documentário é mais permeável e dialoga facilmente com áreas como literatura, música, artes plásticas.” Essa interação pode ser conferida a partir da próxima quinta-feira (31), quando a 16ª edição do evento começa em São Paulo, com o longa Black Power Mixtape, de Göran Hugo Olsson, sobre o Movimento Negro nos EUA, na década de 1970. No Rio, o Festival começa no dia seguinte (1/4), com o curta Imagens do playground e o longa ... Mas o cinema é minha amante, ambos do sueco Stig Björkman, sobre a vida e obra do cineasta Ingmar Bergman.
 
Labaki destaca também que nos últimos dez anos, o documentário mudou, e que parte disso é reflexo dos atentados de 11 de setembro de 2001 contra as Torre Gêmeas em Nova York. “Antes daquela data, vivíamos uma fase de filmes mais intimistas. Depois, a política voltou com força total ao gênero. Recentemente, passamos a ver uma intersecção entre as duas vertentes: a forma como a política impacta as vidas individuais, o cotidiano”.
 
Para estabelecer esse diálogo, o diretor do festival lembra que o documentário também se vale de outras ferramentas, além de entrevistas. “Um dos filmes mais criativos desta edição é o alemão A onda verde, que fala sobre as eleições presidenciais no Irã em 2009 e usa animação e postagens de internet como material”.
 
Essa modernização do gênero documental, por assim dizer, pode ser tanto causa, quanto consequência de sua popularização – especialmente no Brasil. “Os realizadores que fazem sucesso são aqueles que dialogam com o público. O número de documentários que chega ao circuito comercial sempre será menor do que o de ficção, mas não quer dizer que a produção não aumente a cada ano”. Especialmente por conta da facilidade de se fazer um documentário – em tese, basta uma câmera digital e um assunto. “Mas é preciso tomar cuidado para não se banalizar”.
 
No Festival de 2011 há de tudo – menos filmes banais. A gama de temas, personagens e propostas da seleção competitiva e das mostras especiais reflete os caminhos da produção contemporânea, bem como resgata obras do passado, algumas raras e esquecidas, como um curta de Humberto Mauro sobre Castro Alves que faz parte da Retrospectiva Brasileira, integrada por 15 títulos em torno de poetas e escritores nacionais.
 
A retrospectiva da cineasta russa Marina Goldovskaya, com nove títulos, é a maior já dedicada a ela no mundo. Além de exibir o filme mais recente da diretora – o inédito O gosto amargo da liberdade, sobre a ativista e jornalista Anna Politkovskaya –, o festival trará a cineasta ao Brasil para participar de debates com o público. “Essa é a terceira vinda dela, que participou da 1ª edição do Festival, e também já foi jurada. Ela filmou como ninguém a derrocada do regime soviético e a transição com Boris Yeltsin e Vladmir Putin”. Fora isso, Labaki também ressalta que a obra de Marina reflete as mudanças técnicas do cinema: “Ela começou a filmar nos anos de 1970 com câmeras enormes, pesadas e agora também usa as digitais, mais leves”.
 
Para o pôster da 16ª edição do Festival, Labaki escolheu uma fotografia assinada pelo cineasta Jorge Bodanzky, mais conhecido por filmes como Iracema – Uma Transa Amazônica e No meio do rio entre as árvores, exibido no É Tudo Verdade do ano passado. “Sempre quis levar ao público a produção fotográfica dele, que é pouco conhecida. O Bodanzky se aproximou das artes pela fotografia”. A imagem foi feita em Brasília, em meados dos anos de 1960, quando ele ainda era estudante da UnB, e mostra a rodoviária da cidade – quando era bem mais tranquila do que atualmente.
 
Já no sentido de discutir a produção documental, com realizadores, estudantes e o público, o festival propõe uma série de debates e conferências. Entre 7 e 9 de abril, acontecerá na Cinemateca Brasileira (SP), a 11ª Conferência Internacional do Documentário, que tem como tema a utilização da entrevista nesse gênero de cinema.
 
Com toda a programação gratuita, o festival leva às duas cidades o mais recente da produção documental, além de retrospectivas e debates. As mostras acontecem em 12 salas espalhadas entre São Paulo e Rio, até o dia 10 de abril. Para mais informações, sobre os filmes, debates e programações, acesse o site oficial do evento.

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