A consagração de "Nomadland"


Oscar 2021 acontece domingo (25) em três sedes e sob novo protocolo

Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
Chega a ser paradoxal que num ano em que boa parte do mundo ficou fechada em casa, o filme favorito ao Oscar seja sobre uma mulher que está constantemente na estrada. Por outro lado, Nomadland é um retrato preciso de um momento de crise, não causada por uma pandemia mas, entre outras coisas, pelo extremos do neoliberalismo colocado em prática pelo governo de extrema-direita de Donald Trump nos Estados Unidos.
 
Escrito e dirigido por Chloé Zhao, uma chinesa radicada nos EUA, o longa parte de um livro-reportagem de Jessica Bruder, e traz como protagonista Fern (Frances McDormand, indicada como atriz e produtora do filme), uma mulher que, viajando em seu trailer pelo oeste dos EUA, vive de pequenos trabalhos – quando os consegue. Ganhador dos prêmios máximos em Veneza, Globo de Ouro e Bafta, o longa é um retrato preciso de como uma dura recessão econômica afeta a vida das pessoas menos favorecidas. A diretora, ao receber quatro indicações, se torna a primeira asiática a ser indicada na categoria e estabelece o recorde do maior número de indicações para uma mulher no mesmo ano – filme (como produtora), direção, roteiro e montagem.
 
Mulheres e asiáticos
 
Este é um ano no qual as mulheres quebraram recordes no Oscar. Ao todo, foram 70 profissionais indicadas 76 vezes. Um dos destaques é a estreante Emerald Fennell, responsável pelo roteiro e direção de Bela Vingança, longa que concorre em três categorias – filme, direção e atriz, para Carey Mulligan, a favorita, aliás. O destaque do filme é por suas qualidades cinematográficas, mas não escapa à atenção que, pouco depois da ascensão de movimentos feministas, como o Me Too, ele trate exatamente da política de gênero, de uma maneira bastante criativa e sagaz.
 
Mantendo a ideia de um ano atípico, o Oscar de 2021 trouxe às categorias de destaque minorias que até então eram ignoradas ou recebiam indicações mais esparsas. Como é o caso de atores e atrizes de origem asiática. Tanto Steven Yeun (ator) quanto Yuh-Jung Youn (atriz coadjuvante) estão merecidamente concorrendo por seus trabalhos em Minari – Em Busca da Felicidade. O elenco de Judas e o Messias Negro também se destacou nas indicações. Pelo filme, concorrem Daniel Kaluuya (ganhador do Globo de Ouro) e LaKeith Stanfield, ambos como atores coadjuvantes – o que gerou certa polêmica, pois, segundo os critérios da Academia, então, o filme não tem um protagonista.
 
Atores
 
Se na categoria de Atriz o prêmio de Mullligan é praticamente certo – embora McDormand ainda seja uma concorrente forte, o que pode lhe render seu terceiro Oscar –, para Ator o favorito é Chadwick Boseman, que foi indicado postumamente por seu trabalho em A voz suprema do blues, no qual interpreta um músico. De qualquer forma, Anthony Hopkins também é um forte concorrente, por seu brilhante trabalho em Meu Pai, como um homem cuja mente está sendo consumida pelo Alzheimer. Esta pode vir a ser a segunda estatueta do inglês, premiado por O silêncio dos inocentes. Além disso, o filme também pode dar à inglesa Olivia Colman seu segundo Oscar, agora como coadjuvante. Dois anos atrás, ela ganhou como principal por A Favorita. Mas, na categoria, a coreana Yuh-Jung Youn (Minari) também é um nome de peso, conquistando o Bafta, o prêmio do Sindicato dos Atores da América e inúmeros outros troféus por sua atuação como uma avó pouco convencional.  
 
Nomadland pode levar ainda, ao menos, o prêmio de roteiro adaptado, embora Meu Pai (adaptado pelo veterano Christopher Hampton, co-escrito pelo diretor do longa e autor da peça original, o francês Florian Zeller) seja também um forte candidato. Na categoria roteiro original, Fennell é a forte favorita por Bela Vingança.
 
Mank, o filme com mais indicações neste ano, em 10 categorias, tem mais chances apenas em fotografia, em preto-e-branco, assinada por Erik Messerschmidt. O longa concorre a melhor filme, direção (David Fincher), ator (Gary Oldman), atriz coadjuvante (Amanda Seyfried) – mas não é favorito em nenhuma delas.
 
Time estrangeiro
 
Entre os longas internacionais, a vitória do dinamarquês Druk – Mais uma rodada parece certa, até porque o longa também foi indicado na categoria melhor diretor, Thomas Vinterberg. Já entre os documentários, o favorito é Crip Camp: Revolução pela inclusão, dirigido por James Lebrecht e Nicole Newnham, e que tem produção executiva do casal Michelle e Barack Obama. A categoria, no entanto, esse ano inclui também dois fortes candidatos estrangeiros, o romeno Coletiv, de Alexander Nanau (indicado também na categoria Filme Internacional e grande vencedor do Festival É Tudo Verdade de 2020), e o chileno Agente Duplo, de Maite Alberdi, igualmente exibido no festival brasileiro.
 
Mudanças de protocolo
 
Depois de premiar, pela primeira vez, um estrangeiro na categoria principal no ano passado, o sul-coreano Parasita, a cerimônia do Oscar 2021, na noite de domingo (25), é aguardada com curiosidade, por todos os efeitos produzidos pela pandemia, adiando o lançamento de possíveis concorrentes e incluindo candidatos que estrearam, em sua maioria, diretamente no streaming, pela primeira vez em sua história. Atipicamente também, a cerimônia será dividida entre três sedes, a Union Station, estação histórica de Los Angeles, que receberá um máximo de 170 convidados, que não serão obrigados a portar máscaras mas terão que submeter-se a pelo menos três testes de Covid nos dias anteriores e também terão sua temperatura medida na chegada; as outras duas sedes serão em Londres e Paris, para contemplar eventuais premiados que não possam deslocar-se até Los Angeles.  

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