Entrevistas

Eduardo Coutinho assume a diferença como trunfo de seu cinema-verdade

Por Neusa Barbosa

Publicado em 10/12/04 às 19h36

Por Neusa Barbosa

Conhecido por sua sensibilidade para captar depoimentos diante da câmera que fazem com que ele pareça uma espécie de confidente ideal a quem quase qualquer pessoa abre seu coração, o documentarista Eduardo Coutinho, o mais respeitado neste gênero no país, mudou de rotina e endereço para filmar Peões. Este seu trabalho foi feito no ABC paulista, longe do Rio de Janeiro, de onde ele não tinha se afastado até agora para filmar obras premiadas como Santo Forte, Babilônia 2000 e Edifício Master. Coutinho entrou na rotina de ex-metalúrgicos, anônimos e não-detentores de cargos sindicais, que participaram das greves de 1979 e 1980, lideradas por Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-sindicalista que se tornou presidente da República. A campanha de Lula, aliás, é o objeto de outro documentário, Entreatos, de João Moreira Salles, que foi filmado simultaneamente.

Como sempre, Coutinho prefere a companhia dos homens comuns, das histórias miúdas onde se esconde a essência da humanidade. Nesta entrevista, o cineasta comenta seu estilo de filmar, sua aposta na pesquisa prévia dos personagens sem fechar a porta ao acaso nas filmagens e seu conceito da necessidade de um "olhar de fora" para compreender os muitos microcosmos do mundo.

Cineweb - Como é o seu processo de pesquisa, de escolha dos personagens?

Coutinho - Nunca sou eu quem fala com eles nessa fase, são meus pesquisadores. Eles vão a um prédio, uma favela, procurar as pessoas sobre quem têm informações, filmam essas pessoas e depois fazem um relatório. Daí, eu vejo esse material. Normalmente, só vou conhecer a pessoa na hora da filmagem. Então, elas não me conhecem e contam mil histórias que já contaram na pesquisa e outras pela primeira vez. Então ninguém me diz: "como eu já lhe disse...". Sem a câmera, eu prefiro que não me contem nada. Isso em geral.

Cineweb- Você tem outra estratégia para filmar?

Coutinho - Alguns filmes eu faço sem pesquisa nenhuma.

Cineweb - No caso de Peões, muitos personagens entraram no filme sem pesquisa anterior?

Coutinho - O caso de Peões é, como eu digo, impuro. Teve uma pesquisa de três semanas, primeiro procurando informantes que indicassem pessoas que foram vistas em fotografias ou foram mencionadas em conversas dos sindicalistas - que não me interessavam em si, mas eles conheciam muita gente. Fizeram 50, 60 entrevistas e eu ia vendo. Então, há o caso de personagens que entraram no filme porque estavam na pesquisa e eu escolhi. E sempre há surpresas. Tem uns que são melhores ou piores que na pesquisa, mas sempre elas acontecem.

Cineweb - Houve alguma outra coisa excepcional nesta filmagem?

Coutinho - Pela primeira vez, eu fiquei fora do Rio, fiquei em São Bernardo do Campo três semanas porque eu tinha autorização do sindicato, eu tinha que ficar lá acompanhando. Então eu ia ao sindicato, me apresentavam uma pessoa. Ela começava a me contar a vida dela e me bastava. Que é o caso da Luiza.

Cineweb - O que te levou a incluir a Luiza?

Coutinho - No caso, ela tinha uma relação pessoal com o Lula (dirige há muitos anos a lanchonete do sindicato). Teve outros também que a gente conheceu através de informantes. E outros que o Djalma Bom mencionou, como o Miguel do Cavaquinho.

Cineweb - Nesse caso, o nome já te interessou...

Coutinho - Sim e não deu tempo de pesquisa. A escolha era entre ele e um outro que tinha uma agência de automóveis. Eu preferi o Miguel. A gente foi lá, sem saber a cara dele, marcamos a entrevista por telefone, foi assim, realmente virgem. E houve o último personagem do filme, Geraldo, que é extraordinário.

Cineweb - Como vocês o encontraram, por acaso?

Coutinho - Ele foi um cara que a gente filmou muito num bairro chamado Jardim Central. São Bernardo é uma cidade em que 70 ou 80% das pessoas foram ou são metalúrgicos, apesar da crise. E nesse Jardim Central só tem metalúrgicos. Muitos dos mais velhos participaram das greves. Eu filmei, saí pelas ruas, filmei o boteco, as casas do bairro, entrevistei pessoas. E esse cara estava um dia num grupo, no boteco, no primeiro turno da eleição presidencial. Entrevistei umas 20 pessoas, elas foram falando. Ele estava no grupo e por acaso contou aquele trechinho que está no filme e fala da prisão do Lula. E não foi nada de extraordinário. Ele tem uma cara muito forte. Aí juntam-se as coisas, cara, voz, carisma. E eu me digo: "Acho que esse cara vale a pena". Então eu fiquei com esse cara na cabeça. O primeiro turno foi 6 de outubro, não foi isso? E esse cara, como ele diz no filme, é peão de empreitada no Paraná, mas vinha a São Bernardo para votar. No primeiro turno ele estava lá, eu filmei. Aí ficamos esperando esse cara voltar para o segundo turno para encerrar o filme. Fomos lá à noite e realmente foi a última entrevista. Inclusive ele fala meu nome, porque ele me conhecia, não foi através de um pesquisador. E eu não sabia o que ele ia dizer. E de repente foi uma conversa extraordinária porque ele me deu a definição de peão. Por isso é que a pesquisa, por melhor que seja, às vezes ela é essencial mas ela não te dá tudo ... o que aconteceu na filmagem não pode acontecer na pesquisa, é impossível.

Cineweb - Por que ele deu a definição de peão que você procurava?

Coutinho - Primeiro, porque ele me deu a definição de peão. Eu estava há 50 dias ali, mesmo sem câmera, e ninguém me dava essa definição. Claro que é uma definição discutível, existem várias versões, não é oficial. Mas ele dá uma versão magnífica quando diz que não quer que os filhos sejam peões. Eu não pergunto nada, ele diz. E aí ele deixa 30 segundos de silêncio, que numa pesquisa você não deixa ficar. Pesquisa é um diálogo cordial, você tem que seduzir. Na filmagem, não. A situação é mais tensa, mais solene. Quando acontece uma situação assim, eu posso me dar ao luxo de sofrer com ele. É muito difícil saber o que vai acontecer depois de um silêncio desses. Se eu dissesse uma palavra, ele saía. Fiquei quieto.

Cineweb - Aí ele te faz uma pergunta...

Coutinho - E muda todo o filme. Ele me pergunta se eu já fui peão. Um golpe de gênio. Isso se chama filmar o instante, o instante imprevisível. Foi maravilhoso, porque a gente sofreu, eu agüentei mais um pouco, foi duro pra burro. Essas coisas não há pesquisa que tire. E você também erra toda hora. Você às vezes agüenta o silêncio.Há momentos em que você pergunta errado e não devia perguntar. Há momentos em que você devia perguntar e não pergunta. E há momentos em que você tem que se calar. Você está sempre à beira do erro, na corda bamba.

Cineweb - Você já tinha decidido que o filme iria se chamar Peões, antes de encontrar esse personagem?

Coutinho - Tinha, tinha. Peões, a palavra me interessava. No começo, a idéia era mais deixar Peões do ABC. Eu nunca faço títulos genéricos, né? É Edifício Master, Babilônia 2000 - mas achei que ali cabia ficar mais geral, mais abstrato. E como ia chamar Peões, eu conversava com as pessoas, também através dos pesquisadores, sobre esse nome. É curioso que a palavra aparecia num contexto e havia uns que não gostavam.

Cineweb - Achavam pejorativo?

Coutinho - É. As pessoas não têm muita noção disso, o que é ser um operário especializado, o que é ser um ferramenteiro. É realmente uma elite e eles têm consciência disso. Geralmente, eles se referiam a si mesmos como "os metalúrgicos". Não como os operários, a classe operária.

Cineweb - Eles têm orgulho disso.

Coutinho - Têm orgulho porque naquela época eram a elite do operariado e fizeram a greve. A greve quem fez não foram os trabalhadores em geral, foram os metalúrgicos do ABC. Os heróis foram os metalúrgicos. Às vezes, eu discutia o título com eles. Às vezes, eles achavam que fazia sentido. Mas à primeira vista vários não gostavam.

Cineweb - Pelo fato de você ser de fora, não ser operário, nem do ABC, isto te criou alguma barreira?Coutinho - Pelo fato de você não ser o outro, ser diferente, é que é possível falar certas coisas. Sabe aquele negócio de americano que é terrível, diz que filme de lésbica é lésbica quem faz, filme de negro é negro quem faz? O que é importante é que os negros, que as minorias façam filmes e não só sobre si mesmos. O mais interessante é que os negros façam filmes sobre os brancos, os operários também. Mas se criou um troço que é o mesmo do mesmo. E esse olhar de fora é essencial. Eu marco sempre pelo oposto. Não sou favelado, não moro no Edifício Master - que é o mais próximo de mim, eu morei seis meses lá. Mas foi só uma passagem, não morava num conjugado em Copacabana há 20, 30 anos. Também tem uma diferença. Sempre mantenho essa coisa, do olhar de fora. E eu acho que justamente por revelar que é de fora é que pode virar de dentro também. Fazendo da diferença de gêneros, de classe, um trunfo, não fingir que não ela não existe. E no filme na verdade há uma construção mútua.

Cineweb - Como assim?

Coutinho - Há discursos que só nascem porque eu estou lá filmando. Todo documentário é extraordinário por causa disso.

Cineweb - Qual o teu desejo com a exibição desse filme?

Coutinho - Que as pessoas que estão nele achassem que eu as tratei bem. Que as pessoas que eu tive que cortar na edição, entendessem, o que é difícil, mas enfim...E que eventualmente as pessoas de hoje, do sindicato e outras, gostassem do filme e entendessem, se é verdade, que o filme pode chegar a um público não convencido aquém e além de política, que é o que interessa. Porque eu não faço cinema para convencer os já convencidos. Eles não precisam desse filme.

Cineweb 19-11-04
















Neusa Barbosa

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