Entrevistas

Brasil e Alemanha mesclam suas visões num filme experimental sobre água

Por Alysson Oliveira

Publicado em 27/07/22 às 10h14

      Da esquerda para direita: Philipp Hartmann e Danilo Carvalho, nas filmagens de Virar Mar (Crédito: Divulgação)

A boa comunicação em português impressionante do cineasta alemão Philipp Hartmann tem explicação. “Morei no Brasil duas vezes. Em Fortaleza, entre no final da década de 1990, e no Rio, entre 2000 e 2002”, conta em entrevista por chamada de vídeo ao Cineweb. Suas temporadas no país não lhe permitiram apenas a fluência no idioma. Além disso, Hartmann realizou aqui sua pesquisa para seu mestrado, em Ciências Latino-Americanas, e seu doutorado, sobre economia hídrica no Brasil e na cidade alemã de Colônia. Esse, alias, é o assunto de seu longa experimental Virar Mar, que codirigiu com o cearense Danilo Carvalho, especialista em desenho de som.
 
Hartmann explica que o longa, realmente, partiu de sua tese de doutorado: “São 500 páginas que serviram de base para o filme”. Transitando entre o documentário e a ficção, Virar Mar é um ensaio sobre duas regiões: uma no sertão do nordeste brasileiro e outra nos pântanos de Dithmarschen, no norte da Alemanha. Os recursos hídricos e sua utilização são o que une os dois lugares na narrativa.
 
“Como artista, foi maravilhoso poder fugir do lado concreto da tese e abstrair, poder pensar em algo mais lúdico”, comenta o diretor. O filme experimenta com encenações, recriações e cenas documentais com moradores e moradoras dos lugares. No Brasil, uma região marcada pela seca, enquanto na Alemanha diques são construídos para conter os alagamentos, mas a prática está se tornando inviável.
 
“Fico impressionado como os moradores de cada região se organizam para poder lidar com as adversidades. Mesmo sendo problemas opostos, países tão distintos, ainda há a ideia de comunidade, de fazer algo juntos.”
 
Os diretores se conheceram no final dos anos de 1990, quando Carvalho tocava num bar em Fortaleza com sua banda de jazz, e Hartmann fazia intercâmbio na cidade. Ficaram amigos, e só depois, por acaso, cada um foi trabalhar com cinema, mas nunca perderam o contato.
 
O projeto de Virar Mar começou em 2013, quando os dois viajaram por contra própria pelo sertão brasileiro. “Eu tinha muita vontade de fazer essa viagem. Queria conhecer as pessoas, filmar por contra própria. Filmando para entender o processo”, conta Carvalho, que atualmente mora na cidade de Paranaíba, no Piauí.
 
Uma das principais preocupações da dupla era evitar “os clichês do sertão” e, nesse sentido, os olhares dos dois foram complementares. Carvalho evitava que se caísse na romantização estrangeira, enquanto Hartmann permitia trazer um frescor para além do que se costuma pensar sobre a região no próprio Brasil. “Eu tinha receio de cair na armadilha de achar tudo muito lindo e exótico”, confessa Hartmann.
 
Ao todo, ao longo de 5 anos, a dupla fez quatro viagens pelo Brasil e três pela Alemanha, o que, segundo eles, gerou uma imensa quantidade de material, que foi montado pelo próprio Hartmann em seu país, em parceria com o dramaturgo Herbert Schwarze. “Foi um processo longo, mais de um ano, com idas e vindas. Eu mandava o material pronto para o Danilo, discutíamos e fazíamos mudanças.”
 
“Quando filmamos, o Brasil era outro”, explica Carvalho, sobre o início do projeto em 2013. “Muita coisa mudou – geralmente para pior. Um pouco ainda ficou como aparece no filme. O que nos interessava eram mesmo as pessoas. Falar  da água foi um caminho para chegar até eles. A linha narrativa do filme é como um lençol freático.”
 
Já Hartmann aponta a convivência em comunidade e a união em busca de estratégias em prol de todos como um gesto de resistência política. “Isso ficou ainda mais forte depois da eleição do Bolsonaro.”
 
A versão definitiva ficou pronta pouco antes da pandemia, em 2019, e a mixagem foi feita no Piauí, reforçando a dupla nacionalidade de Virar Mar, e assinada por Lucas Coelho. Ainda assim, Hartmann reforça que ele e o brasileiro nunca viram o filme juntos desde que o longa teve sua primeira sessão, em outubro de 2020, no Festival de Hamburgo, que aconteceu em edição virtual.
 
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Alysson Oliveira

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