Entrevistas

Depois de 15 anos de espera, “Amigos de Risco” chega aos cinemas

Por Alysson Oliveira

Publicado em 01/06/22 às 08h36

      Daniel Bandeira, diretor de Amigos de Risco, no set de seu novo filme, Propriedade (Crédito: Divulgação)

Em 2007, o longa pernambucano Amigos de Risco, escrito, dirigido e montado por Daniel Bandeira, estreou no Festival de Brasília, onde teve uma boa acolhida. No ano seguinte, pouco antes da data prevista para entrar no circuito comercial, ocorreu o inesperado: a única cópia do longa em 35 mm foi extraviada pela companhia aérea, ao ser enviada para São Paulo, onde seria exibida na Mostra Internacional de Cinema. Nesses anos, Bandeira, que tinha apenas uma versão que chama de rascunho (agora depositada na Cinemateca Pernambucana), travou uma batalha judicial para que a empresa que perdeu o filme bancasse a nova cópia. O filme está em cartaz no Recife, e nessa quarta (01) estreia em São Paulo e Rio de Janeiro.
 
Nessa entrevista, Bandeira conta sobre as origens do seu primeiro longa, a disputa que sucedeu ao infortúnio de 2008, e, como a obra se mantém atual, apesar dos anos que separam a estreia no Festival até hoje.
 
Como começou o projeto do filme?
Amigos de Risco começou como um projeto de curta-metragem e, em 2005, conseguimos financiamento da Chesf para filmá-lo. Mas éramos iniciantes dando os primeiros passos no cinema profissional por meio do vídeo digital: conhecíamos as sessões especiais dos festivais, mas queríamos chegar às salas de cinema. Daí veio a ideia de expandir a história do filme e transformá-lo em longa-metragem. Os recursos complementares não vieram, mas decidimos filmar assim mesmo. Expandi o roteiro, juntamos o conhecimento que tínhamos adquirido em nossas ilhas de edição caseiras e sets de filmagens onde éramos estagiários ou assistentes - e partimos para o desafio.
 
E quais foram os desafios você enfrentou no processo da produção?
Muitos! A falta de recursos nos obrigava a buscar soluções práticas, rápidas, baratas o tempo inteiro; tínhamos que lidar com a mesma sensação de insegurança vivida pelos personagens; tecnicamente precisamos entender na hora como nossa câmera se comportava às condições naturais de luz das ruas, pois não podíamos contar com refletores profissionais... Cada esquina, uma surpresa. A forma que encontramos de lidar com elas foi com muito diálogo entre a equipe, o máximo de planejamento possível e a aceitação das intempéries da cidade como um elemento constante da identidade do filme. A trama é fictícia, mas a cidade que aparece no filme é real - e muito próxima de outras periferias brasileiras à noite.
 
Como foi escalar o Irandhir Santos, que nem era conhecido na época, e hoje é um dos maiores atores em atividade no país?
Irandhir me foi indicado por Leo Falcão, cineasta pernambucano que já o tinha escalado em seu curta-metragem A Vida é Curta. “Dá uma olhada nesse cara”, me falou impressionado, com a fita de seu teste na mão. Desde nossos primeiros ensaios, o Irandhir daquela época já era muito parecido com o Irandhir de hoje. Na compreensão dos seus personagens, no comprometimento com o trabalho, na lealdade com quem o cerca. Aprendi muitas coisas com ele.  A mais urgente foi a importância da coesão entre os membros do elenco, dentro e fora do papel. Ele, Rodrigo Riszla, Paulo Dias e Jr. Black desenvolveram essa coesão interna que transbordava segurança para a equipe. mesmo diante das condições mais adversas de filmagem. Irandhir é um ator espetacular, sem dúvida. Profissional até o osso. Mas é essa característica generosa e agregadora dele que o torna realmente querido aonde quer que vá.
 
      Paulo Dias e Irandhir Santos, em cena de Amigos de Risco (Crédito: Divulgação)

 
O que aconteceu que impossibilitou o lançamento do filme em todo esse tempo?
Estávamos cumprindo um ano no circuito de festivais quando fomos exibir na Mostra Internacional de São Paulo, em 2008. Despachei a cópia 35mm que usávamos na época, mas os rolos foram extraviados. Era um volume de 18Kg. Eu não tinha o suficiente para custear uma segunda cópia na época, então entramos na justiça com a companhia aérea pelo ressarcimento.
Chegamos a um acordo em 2014. Como o formato 35mm já havia caído em desuso, usamos os recursos do acordo para recuperar a edição original do filme e fazer uma masterização digital. Mesmo após uma exibição especial no Recife, em 2015, não tinha a menor ideia de como levar o filme ao circuito comercial - ou se ele ainda seria relevante após tanto tempo. Foi graças ao esforço de Kika Latache e Livia de Melo, que encamparam um projeto de distribuição do filme e agora de Mariana Jacob, da Inquieta Cine, que o filme conseguiu chegar aonde sempre queríamos que estivesse - e com todo o vigor de quem está quase entrando na maioridade.
 
Mesmo sendo lançado, originalmente, em 2007, o filme ainda é bastante atual. Como você vê a relação dele com o Brasil de hoje?
A tecnologia mudou muito a forma como as pessoas vivem a cidade. Uber, Pix, 4G, Waze... Essas são só algumas das coisas que situam Amigos de Risco no passado - embora próximo. Mas algumas coisas não mudam: a relação de hostilidade entre habitantes (sobretudo da periferia) e a cidade; a iminência da violência; o preconceito de classes. Alguns aspectos até se intensificaram, como o sentimento de “nós contra o mundo” que sustenta grupos de amigos ou a defesa de um certo empreendedorismo alheio ao bem-estar coletivo. Mas sinto que foram as discussões de gênero que jogaram a luz mais potente sobre Amigos de Risco, sobretudo quanto à forma como os códigos de uma masculinidade tosca colocam nossas relações em perigo. Para não dizer nosso país inteiro.
 
Você está trabalhando em algum novo projeto? O que você andou fazendo nesses anos que separaram a estreia do filme em Brasília até hoje?
De lá para cá dirigi um curta em 2009, Tchau e Benção, mas me mantive mais na colaboração com projetos de bons amigos. Codirigi os curtas Sob a Pele (2011), com Pedro Sotero, e Soledad (2015), com Joana Gatis e Flávia Vilela. Entre longas, montei Brasil S/A (2014), de Marcelo Pedroso, e O Nó do Diabo (2017), do Coletivo Vermelho Profundo, da Paraíba. Propriedade, meu segundo longa, produzido pela mesma Vilarejo Filmes que resgatou Amigos de Risco, está quase finalizado. Espero dar notícias sobre ele muito em breve.
 
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Alysson Oliveira

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