Entrevistas

“É impossível descrever nosso presente sem olhar para as redes sociais”, diz Laurent Cantet

Por Alysson Oliveira

Publicado em 10/05/22 às 09h30

      Rabah Nait Oufella, em cena de @Arthur Rambo – Ódio Nas Redes
 
 
@Arthur Rambo – Ódio Nas Redes, novo filme do francês Laurent Cantet (Entre os muros da escola), acessa o presente com urgência, por meio de um personagem controverso. O filme é inspirado numa figura real, Mehdi Meklat, um jovem que cresceu nos subúrbios de Paris e se tornou uma estrela do jornalismo, admirado pela esquerda e por jovens de todo país – especialmente filhos de imigrantes e outras minorias. Quando o rapaz estava no topo do sucesso, seus antigos tweets com conteúdo racista, misógino e homofóbico vieram à tona. Sua vida mudou, encontrou hostilidade e seu contrato para um livro foi cancelado.
 
Cantet conta que acompanhava Meklat com interesse, em seus programa de rádio e em textos na internet, e ficou surpreso quando aconteceu o escândalo dos comentários preconceituosos, escritos sob pseudônimo. “Eu me perguntava como isso tudo podia estar dentro da mesma cabeça? Eu não conseguia ligar uma imagem à outra. Começou a me interessar, então, o espaço que as redes sociais tomaram em nossas vidas, e é impossível descrever o presente sem pensar nelas”, diz em entrevista por chamada de vídeo ao Cineweb.
 
O cineasta, que ganhou uma Palma de Ouro, em 2008, com Entre os muros da escola, em seu cinema interessa-se por questões sociais – seja sobre a juventude da periferia, numa escola com poucos recursos, no filme premiado, ou nas implicações emocionais do desemprego em seu A Agenda. Em @Arthur Rambo – Ódio Nas Redes, Cantet constrói a queda de seu personagem, aqui chamado de Karim D., no tom de um thriller, acompanhando 48 horas de sua vida, a partir do momento que seus antigos posts se tornam públicos e ele é ligado ao pseudônimo Arthur Rambo.
 
O diretor explica que, especialmente ao realizar o filme, percebeu existir um peso enorme das palavras, e que tudo o que se diz no Twitter, por exemplo, não é esquecido. “Há uma responsabilidade no que se diz ou escreve na internet. As coisas ficam para sempre, são resgatadas mesmo que nem você se lembre delas. É preciso ser consciente do que se publica.”
 
Para interpretar Karim D., Cantet trouxe Rabah Nait Oufella, que conhecera mais de uma década atrás, quando o jovem estreou no cinema em seu Entre os muros da escola. O ator, que atuou em filmes como Raw e Nocturama, encara um personagem complexo e pouco simpático mesmo antes de que seu passado seja descoberto. “Eu acredito que ele encontrou o equilíbrio entre as duas coisas. Karim D. não é uma figura agradável, mas também não é um monstro, muito menos uma vítima.”
 
      Laurent Cantet, diretor de @Arthur Rambo – Ódio Nas Redes (Crédito: Divulgação)
 
Karim D. é uma personagem ambígua – “como o Arthur Rimbaud, a quem se refere o título”, destaca Cantet – que não deixa claro se é, ao fundo, o homem civilizado alçado à fama ou o jovem rebelde, desbocado e preconceituoso dos antigos comentários no Twitter. “Foi um dilema muito grande quanto ao tipo de distanciamento que devíamos tomar do personagem. Primeiramente, não o julgamos ou damos explicações. Ele é um enigma o tempo todo, até porque ele mesmo é uma pessoa confusa. Mesmo que o filme tenha alguma empatia por ele, não o exoneramos de sua culpa.”
 
Cantet, que assina o roteiro com Fanny Burdino e Samuel Doux, explica que contar a história das primeiras 48 horas do escândalo é uma maneira de trazer um certo frescor à narrativa, bem como de afastar o filme de se tornar uma cinebiografia de Meklat. “Queríamos uma certa liberdade em relação à história real. Além disso, ao nos concentramos num período curto, que acompanha a queda do personagem, também pudemos transmitir algo da urgência e da velocidade das redes sociais, a rapidez de como as coisas mudam.”
 
Em seu longa mais conhecido, e que também revelou Oufella, Entre os muros da escola, Cantet usou um dispositivo único, combinando documentário e encenação, e isso marcou sua carreira e sua maneira de filmar. “Cada filme traz em si sua própria maneira de ser rodado, um é diferente do outro, mas, ainda assim, a gente acumula experiências. Trago comigo elementos que ajudaram a fazer aquele longa ser tão bem sucedido. Nunca mais poderia fazer um filme como aquele e, de qualquer forma, sempre estarei sob sua influência.”
 
Clique aqui para ler mais sobre o filme















Alysson Oliveira

Outras notícias