Entrevistas

Para cineasta ucraniana, a criação é o antidoto para o conflito

Por Alysson Oliveira

Publicado em 03/05/22 às 08h52

      Maryna Er Gorbach, diretora de "Klondkike - A Guerra na Ucrânia) (Foto: Rafal Nowak/Divulgação)
 
Poucos dias antes de a Ucrânia ser invadida pela Rússia, em 24 de fevereiro passado, a cineasta ucraniana Maryna Er Gorbach recebia o Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Berlim, por seu filme Klondike – A Guerra na Ucrânia. Antes disso, em janeiro, o longa já havia recebido o prêmio de direção para filmes internacionais no Festival de Sundance.
 
Via Zoom, de Istambul, onde mora, Maryna conta ao Cineweb que não conseguiu comemorar nenhum dos dois prêmios. “A situação já estava tensa, não havia espaço para festejar, embora estivesse, obviamente, muito feliz com a recepção.”
 
O filme se passa em Donbas, em 2014, durante uma outra guerra, entre separatistas pró-russos e nacionalistas ucranianos, quando um avião civil da Malaysia Airlines foi abatido por um míssil.Além disso, um disparo de um mortal mal calculado derruba parte da casa de Tolik (Sergey Shadrin) e Irka (Oksana Cherkashyna), que está grávida. A cineasta, conta que lembra muito bem desse dia, 17 de julho, pois também é o seu aniversário. “Eu ficava procurando declarações internacionais de repúdio à derrubada, tentava achar governantes que condenassem o que aconteceu. Mas não tinha nada. Foi quando percebi que se ninguém liga para a morte de 298 europeus nessas condições, quem vai se importar com o povo de Donbas, que não tem voz? Essa foi uma das minhas motivações para fazer o filme.”
 
Segundo ela, os ucranianos sempre foram “um tipo estranho na Europa. Nunca tivemos voz, e a invasão do país parece não importar ao mundo.” Porém, para ela, no século XXI não é mais possível tratar uma invasão, uma guerra, como algo apenas local. “O conflito tem reverberação global. Não adianta fingir que é algo que acontece lá longe de nós e pouco importa. Uma guerra, atualmente, afeta o mundo todo. Assim como a paz também é global”.
 
Ao final de Klondike – A Guerra na Ucrânia, aparece um letreiro dedicando o filme “às mulheres”, e a cineasta opina que elas são mais fortes do que a guerra. Para ela, a força da personagem Irka é maior do que a destruição. “A criação da vida é o que vai acabar com a guerra. Nesse sentido, hoje, é muito importante fazer arte. A criação não nos deixa mudos.”
 
A diretora comenta que, apesar da situação tensa no momento e da ansiedade em relação ao seu país, ela não deixa de criar, e está trabalhando em dois projetos – um deles sobre o presente. “É preciso levar a mensagem para o mundo. A vida é muito rápida. Eu levaria uns 5 ou 7 anos para pensar no filme, para trabalhar nele, mas não tenho esse tempo, tudo é muito urgente agora.”
 
Ela acredita que “o ódio é gigantesco”, por isso, é preciso levar uma mensagem positiva para as novas gerações que crescem em meio à violência e ao medo. “A minha geração e as gerações que vieram antes de mim já são formadas, mas é preciso mostrar aos jovens, que são espíritos em formação”. Entre seus projetos, está um filme inspirado na criatividade das crianças.
 
Morando em Istambul há alguns anos, a diretora conta que consegue ter contato com parentes e amigos na Ucrânia. Inclusive alguns membros da equipe do longa entraram para o exército, como é o caso do diretor de fotografia do filme, Svyatoslav Bulakovskiy. “Acho importante levar o filme para o mundo, espalhar a mensagem contra essa guerra, ou qualquer outra, pois o conflito afeta a todos nós”.
 
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Alysson Oliveira

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