Entrevistas

Em “Pajeú”, o esquecimento de um riacho como um sintoma de uma nação

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Publicado em 30/03/22 às 16h00

      Fátima Muniz, em cena em Pajeú

Pajeú é um filme peculiar: combina documentário e ficção para resgatar a história de um riacho de Fortaleza que não existe mais e dá nome ao longa. Sua protagonista é uma jovem atormentada por um pesadelo constante: um monstro emergindo das águas do Pajeú. Nessa entrevista, o diretor do filme, Pedro Diógenes (na imagem abaixo), fala sobre a combinação de diversas linguagens cinematográficas para resgatar a história de sua cidade e como, simbolicamente, esse esquecimento pode ser sintomático de todo o país.
 
Como foi o começo do processo do filme ? Sempre teve essa ideia de combinar o documental com a ficção?
Não. A ideia inicial era um documentário mais tradicional. O projeto foi todo escrito como um documentário. Mas, com o decorrer do processo, senti necessidade de o filme ter um lado mais humano, mais sentimental, mais vivo. Surgiu uma vontade de mostrar como o desaparecimento de um riacho também interfere nas pessoas e no cotidiano, não só apenas no sentido prático, como também mostrar essa interferência no sentido existencial e emocional. 
O filme tem o desejo de mostrar que a relação com o meio ambiente interfere diretamente nas nossas vidas e que o desaparecimento de um riacho também significa o desaparecimento de pessoas. Assim nasce a vontade de realizar um documentário que falasse do riacho Pajeú conduzido por uma personagem que pudesse se relacionar com outros personagens, imersos no corpo urbano, em meio aos seres que habitam os espaços, promovendo conversas e trocas, mostrando múltiplos olhares sobre o riacho, sem perder a potência humana dos encontros.
Mas esse desejo de misturar documentário e ficção já estava presente nos meus filmes. Alguns dos meus trabalhos contam com personagens ficcionais que conduzem o documentário, proporcionando uma integração da ficção dentro do documental. São exemplos o curta Vistamar (2009) e média Retrato de Uma Paisagem (2012).
 
Você, particularmente, sempre conheceu a história do riacho Pajeú? Ou foi algo que descobriu com uma certa idade? Como foi resgatar essa história do desaparecimento para o filme?
Quando criança, ouvi falar algumas vezes no riacho Pajeú, seja na escola nas aulas de história (Fortaleza foi fundada nas margens do Pajeú), seja em conversas com pessoas mais velhas. Mas o riacho não existia. Na minha cabeça ficava uma coisa fantasmagórica: um riacho que desapareceu. Então para mim o riacho Pajeú sempre me remeteu a algo onírico. Outro momento em que eu ouvia falar do Pajeú era quando caía uma forte chuva na cidade, determinado local da cidade alagava e todos diziam que era o Pajeú que transbordava. Mas sempre o que mais me chamou atenção foi o fato do riacho ter desaparecido. E só fui descobrir mais sobre isso a partir do filme e das pesquisas que fizemos.
 
O filme toca muito na questão da memória, uma memória mais do que pessoal – até política, em certo sentido – e o Brasil costuma ser classificado como “um país sem memória”. Você concorda com isso?
A cidade de Fortaleza sempre foi cenário, personagem e inspiração para a maior parte dos meus filmes. Isso acontece porque Fortaleza desperta em mim sentimentos fortes e contraditórios. Uma cidade que me encanta e me decepciona ao mesmo tempo. E muitas dessas inquietações vem da relação que Fortaleza tem com a memória, ou com a falta de memória. Fortaleza é uma cidade que cresce e desaparece ao mesmo tempo e o riacho Pajeú é um símbolo disso. O riacho desapareceu, perdeu a força na briga incessante contra a poluição e a especulação imobiliária. Então, resgatar a história do Pajeú é uma forma de tentar fazer com que ele não morra de vez, não seja totalmente esquecido. O ponto de partida do filme foi a seguinte inquietação: se foi apagado da cidade o riacho, responsável pelo nascimento e povoamento de Fortaleza, que outras histórias, pessoas e possíveis cidades também foram e são soterrados e esquecidos a cada dia no nosso país?
 
 
Como você acha que o filme lida com o Brasil de hoje? O que ele tem a dizer sobre esse país de 2022?
O desaparecimento e o esquecimento de um riacho são símbolos de um país que foi construído por cima de muita destruição e desprezo. Nesse momento em que vivemos o pior governo da nossa história, tudo isso fica muito mais explicito pois é incentivado e até comemorado pelos nossos governantes, como por exemplo: a destruição da Amazónia, a liberação de agrotóxicos, o garimpo ilegal, o desrespeito com as terras indígenas, a violência contra o povo pobre e o estrago na cultura e na educação. Como os rios e os riachos desse país, vidas e sonhos também são soterrados e esquecidos em nome dos lucros dos bilionários.
 
Como foi seu trabalho com a Fátima Muniz na criação da protagonista, Maristela? Ela tem um papel muito ativo no filme, que vai além de interpretar, ela interage com as pessoas na rua – em certo sentido, ela é uma espécie de porta-voz sua e do filme, não? Como foi essa colaboração entre vocês?
A personagem da Maristela nasceu de uma parceria criativa com a atriz Fátima Muniz, que traz muito da sua personalidade, da sua experiência e das suas emoções para o filme. Todas as cenas contam com a participação criativa dela! Ela é quem conduz o filme. Um dos desafios do trabalho era ter uma personagem que transitasse entre a ficção e o documentário, mantendo a tensão. As cenas ficcionais foram conversadas e ensaiadas contando com a participação do ator Yuri Yamamoto, porém as cenas documentais foram improvisadas no momento da realização. Alguns dos personagens que ela encontra durante seu percurso foram escolhidos numa pesquisa prévia e outros (como na cena da praia) só foram conhecidos no exato momento da filmagem.
 
Como foram as reações nas exibições fora do Brasil? O longa tem uma especificidade brasileira, mas, ao mesmo tempo, um tema muito universal.
A briga entre o meio ambiente e a especulação imobiliária é uma questão universal. Lógico que cada país vai cuidar dessa questão de um jeito. Cada lugar vai tratar seus riachos de forma diferente. No Brasil, normalmente a especulação imobiliária vence essa briga. Fortaleza é um exemplo explícito dessa derrota constante.
 
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