Entrevistas

“A felicidade das pequenas coisas” e o cinema como a celebração das possibilidades da arte

Por Alysson Oliveira

Publicado em 25/01/22 às 13h15

  Pawo Choyning Dorji, diretor do primeiro filme butanês que pode ser indicado ao Oscar (Crédito: Jigmé Tenzing/Divulgação)

Em mais de 70 anos da existência da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar, o Butão, um pequeno país na Ásia, ao leste do Himalaia, submeteu longas apenas duas vezes. A primeira, em 1999, com A Copa, de Khyentse Norbu, e agora, com A felicidade das pequenas coisas, de Pawo Choyning Dorji, que está na lista de 15 produções pré-finalistas, ao lado de filmes como o iraniano Um herói, de Asghar Farhadi; o japonês Drive my car, de Ryusuke Hamaguchi; e o italiano A mão de Deus, de Paolo Sorrentino.
 
Dorji, em entrevista ao Cineweb, direto de sua casa no Butão, via Zoom, obviamente, não esconde a alegria do sucesso de seu filme, o único longa produzido, em parceria com a China, no Butão em 2019. O diretor, que também assina o roteiro, conta que o país é budista e, por isso, muito humilde e, também, sempre duvida de suas habilidades. Por isso, a possibilidade do Oscar foi uma surpresa. “Eu achava que seria muito difícil, mas no dia que saiu a lista, comecei a receber um monte de mensagens, meu celular não parava. Eu vejo essa seleção, mesmo que o filme não chegue aos finalistas, como uma celebração das possibilidades da arte.”
 
Dorji gosta de frisar que não é cineasta, este é seu primeiro longa. Suas áreas de interesse principal, até o momento, são artes plásticas e fotografia, mas sentiu a necessidade de contar a história de um jovem professor (Sherab Dorji) que é obrigado a mudar-se para Lunana, um vilarejo isolado, onde não há energia elétrica, muito menos sinal de celular ou internet. O rapaz espera, na verdade, um visto para emigrar para a Austrália, onde quer tentar a carreira de cantor. Mas o contato com aquele lugar e as crianças que se tornam seus alunos transformam sua vida.
 
“Eu tinha a necessidade de contar essa história. É uma história do meu país que eu quero que o mundo conheça. O Butão tem a fama de ser ‘o país mais feliz do mundo’, mas, embora nosso povo seja alegre, há muitos problemas aqui, especialmente de ordem social. É um momento de desafios e transformações, um choque entre a cultura antiga e a modernização. E isso foi o que me guiou no filme”.
 
   Um professor e suas dificuldades numa escola numa região isolada, em A felcidade das pequenas coisas (Crédito: Divulgação)

Filmar em Lunana, no extremo noroeste do país, a mais de 3 mil metros de altura do nível do mar, foi um grande desafio, mas Dorji e sua equipe contaram com total apoio das moradoras e moradores locais, que também atuam no filme. Ninguém ali tinha experiência com isso. As crianças, por exemplo, não fazem ideia do que seja cinema – “a maioria nunca tinha nem visto um carro”, conta – e isso possibilitou trazer uma verdade e um elemento documental que jamais se conseguiria com atores experientes. “Quando uma criança está escovando os dentes pela primeira vez no filme, é a primeira vez na vida dela que está fazendo isso. Não tem como ensaiar esse frescor. É filmar a cena na hora em que está acontecendo e pronto.”
 
Dorji cita como suas influências o cineasta japonês Hirokazu Kore-eda e o chinês Zhang Yimou. Em relação a esse último, ressalta “os filmes mais antigos, como Nenhum a menos”, sobre uma professora numa pequena escola na zona rural chinesa. Mas o seu grande incentivador foi Norbu, exatamente o cineasta diretor de A Copa, que também é seu professor de budismo. “Eu não tenho uma formação técnica ou acadêmica de cinema, mas ele é meu mestre em muitos sentidos, inclusive para fazer esse filme. Ele me ajudou muito, especialmente a trazer vida para a história”.
 
A população de Lunana ainda não viu o filme, pois, quando seria exibido, veio a pandemia. Dorji está esperando um momento mais propício para exibir o longa no vilarejo, o que também demandará um aparato técnico maior para erguer uma tela de cinema, levar geradores e afins. Mas o que mais o preocupa é a saúde dos moradores. “Eles tiveram pouco contato com pessoas de fora, por isso seu sistema imunológico não é tão bem preparado como o nosso, das grandes cidades. A pandemia não chegou lá, eles estão preservados, por isso quero esperar condições 100% seguras para voltar e mostrar o filme.”
 
No restante do país, no entanto, A felicidade das pequenas coisas é um enorme sucesso lotando cinemas. “Em algumas salas não cabia mais gente, mas elas trouxeram suas próprias cadeiras para poder sentar e ver o filme. Sei de grupos que viajaram mais de três dias para poder assisti-lo. Acho que, com essa história, capturamos os corações e mentes do butaneses.”
 
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Alysson Oliveira

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