Entrevistas

O falso documentário Cora e o retrato do Brasil num livro “inadaptável”

Por Alysson Oliveira

Publicado em 22/12/21 às 11h49

 No falso documentário Cora, a imagem é manipulada para causar estranhamentos (Crédito: Divulgação)

Filho da autora, Matias Mariani conhecia o romance Antonio, de Beatriz Bracher, bem antes de ser publicad. Achava-o “inadaptável”, ao menos, num formato que lhe fizesse justiça, implicando numa superprodução e num orçamento alto. “Então o Gustavo [Rosa de Moura] me procurou com uma ideia: de fazer um falso documentário. Os depoimentos resolveriam tudo o que não podia ser filmado”, conta Mariani, em entrevista via Zoom, ao Cineweb. Juntos, os dois acabaram fazendo Cora, que foi chamado pela própria escritora de uma “resposta” ao romance. 
 
Trata-se de um filme enigmático e inventivo, que transita entre o drama familiar e experimental. A personagem-título é uma jovem dinamarquesa (Charlote Munk), que em 2064 descobre um vasto material sobre a família do seu pai, o brasileiro Benjamin. É a partir de depoimentos e imagens que ela encontra que o filme se constrói. No filme, ela cumpre a função de Antonio no romance. A opção por uma personagem estrangeira foi uma ideia que esteve presente desde o início do projeto. “Queríamos alguém de fora do Brasil, de outra cultura bem diferente da nossa. O que ela acharia dessa sociedade? No princípio, tínhamos pensado nela como norueguesa, mas conseguimos uma coprodução com uma empresa dinamarquesa e mudamos a nacionalidade”, explica Rosa de Moura.
 
A dinamarquesa Valeria Richter contribuiu não apenas na produção, mas também no roteiro. Para os diretores, foi importante ter essa pessoa de fora, que traria ainda mais autenticidade ao olhar de Cora sobre um país que ela não conhece. “Ela nos ajudou a criar essa voz de Cora, o estranhamento com a elite paulistana, a herança escravocrata”.
 
 Da esquerda para direira, Gustavo Rosa de Moura, Beatriz Bracher e Matias Mariani (Crédito: Divulgação)

 
Esteticamente, Cora é um filme de estranhamentos, com efeitos que “sujam” a imagem, causam desconforto. Já no início, aparece um letreiro explicando que isso não é um defeito da projeção, mas é proposital. “Ele se constrói de acordo com uma linguagem específica, para a qual o espectador tem que abrir-se para que o filme faça sentido. Começamos com os tijolos mais básicos do gênero documental, como entrevistas, material de arquivo, narração em off, e, a partir disso, fomos recombinando-os para que cada um desses elementos tenha um papel diferente do que eles têm em um documentário típico. Esses elementos são usados em geral em um filme para dar segurança ao espectador de que o filme trata do real, um alicerce no qual o espectador possa se apoiar. No nosso caso, usamos cada um deles de forma diferente, como ferramentas para gerar dúvidas quanto à realidade, para expandir o universo do filme e experimentar novas formas de contar uma história”, comenta Mariani. Ambos os diretores têm experiência no documentário e aqui a usaram para subverter o gênero, criando o que chamaram de anticinema direto. “Cora é um filme de total desapego ao documentário”, definem.
 
Já o som, em especial a narração de Cora, contou com o trabalho do dinamarquês Peter Albrechtsen, pois era necessário uma pessoa que entendesse bem a língua para editar esses offs. “Ele foi incansável nas suas pesquisas de distorções sonoras e construções de climas, e em como poderíamos conseguir construir essas distorções e esses climas pra reforçar a imersão no filme sem perder o aspecto de documentário nem prejudicar a compreensão das falas”.
 
Apesar de rodado entre 2016 e 2018, Cora reflete muito o Brasil de hoje. No filme, a personagem de um futuro não muito distante observa um país que ela não conhece, que se tornou uma espécie de distopia política e biológica. “É um filme impregnado do momento político, daquilo que estava vindo e no que o Brasil se transformou. A ideia é causar desconforto mesmo. As imagens trazem coisas como a lama do desastre de Mariana, peixes mortos... Queríamos perguntar qual a responsabilidade de uma elite nesse país de herança escravocrata. Fomos apertando alguns parafusos que já estavam no livro”, afirma Rosa de Moura.
 
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Alysson Oliveira

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