Entrevistas

Cesar Cabral e o desafio de levar o universo de Angeli para o cinema

Por Alysson Oliveira

Publicado em 10/11/21 às 12h17

 Versão em stop motion do cartunista Angeli, em crise artística, em Bob Cuspe - Nós não gostamos de gente (Créditos: Divulgação)

Não é de hoje a história do diretor Cesar Cabral com os personagens do cartunista Angeli. Em 2008, ele lançou o curta Dossiê Rebordosa, premiado em festivais como Gramado, Paulínia, Havana e também o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro para curta em animação. Após esse projeto, ele acabou ficando amigo do desenhista e desenvolveu uma série, Angeli, The Killer, e uma exposição. Por isso, chegar ao clássico personagem Bob Cuspe foi quase um caminho natural.
 
“Numa conversa, o Angeli me falou sobre o Bob, e que achava possível desenvolver uma história mais longa. A partir desse momento, comecei a pensar no filme e iniciei algumas entrevistas com ele, gravei cerca de 30 horas durante 2012 e 2016. As gravações alternavam entre entrevistas com uma equipe reduzida até momentos em que levei apenas um gravador e fiquei conversando com ele. Essa foi a base para a roteirização do filme”, diz o diretor em entrevista ao Cineweb.
 
Dessas conversas nasceu Bob Cuspe – Nós não gostamos de gente, uma combinação entre ficção e documentário protagonizada pelo famoso personagem punk dos anos de 1980, que agora se encontra perdido num deserto apocalíptico. Ao mesmo tempo, o longa traz uma parte documental, na qual o próprio Angeli fala sobre uma crise criativa que enfrenta. As duas narrativas, ambas em stop motion, se alternam e essa  foi uma ideia que acompanhou Cabral desde o começo. O filme fez sua estreia nacional na 45a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ficando entre os finalistas na votação do público.
 
A técnica de stop motion, diz o diretor, “tem um processo de produção muito próximo ao live action. O trabalho é desenvolvido de forma física, com maquetes, bonecos, sets de filmagem com câmera e equipamentos de luz. A grande diferença está no processo de filmagem, em que construímos fotograma a fotograma a ilusão de movimento. Para se ter uma ideia, em média produzíamos um minuto de animação por mês por set de filmagem. A produção completa do filme levou cerca de cinco anos.”
 
O roteiro, assinado pelo diretor e Leandro Maciel, é original, mas se mantém fiel ao espírito da obra e dos personagens de Angeli. “Considero que a base narrativa do filme está na parte documental, mas é nos seus personagens que nos aproximamos mais da sua obra. O tom, as características e o humor ficam mais explícitos na parte ficcional do filme.”
 
O longa fez sua estreia no prestigioso Festival de Annecy, na França, que exibe apenas animações, e saiu de lá com o prêmio Contrechamp, conferido ao melhor filme exibido fora de competição no evento. “Não tive a oportunidade de acompanhar presencialmente o festival por conta da pandemia, mas tive muitos feedbacks positivos de pessoas que não conheciam nada do universo de Angeli. “Por ter passado com a experiência anterior no curta Dossiê Rê Bordosa,  que apesar de ter circulado bem por festivais internacionais, exigia uma contextualização pregressa da história, durante a produção de Bob Cuspe… procurei construir uma base que situa o espectador e aos poucos o envolve na personagem do ‘Angeli, O Velho Cartunista’. Creio que também pelo fato de ser um longa-metragem e o filme abordar um tema mais amplo, de um autor em crise com sua obra, permitiu que esses pontos fossem mais trabalhados.”
 
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Alysson Oliveira

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