Entrevistas

Wagner Moura coloca em “Marighella” seu brado pela reconquista do país

Por Neusa Barbosa

Publicado em 08/11/21 às 14h36

 
Wagner Moura com membros da equipe do filme "Marighella", durante coletiva em SP   Crédito: Neusa Barbosa
 
Depois de uma longa espera, Marighella, o filme de estreia do ator Wagner Moura, que teve sua première no Festival de Berlim 2019, chegou aos cinemas brasileiros no dia 4 de novembro. Na coletiva de lançamento, em São Paulo, no dia 29 de outubro, o diretor, ao lado de parte de seu elenco, produtores e colaboradores, falou deste sofrido processo e de suas expectativas. 
 
Antes mesmo que alguém lhe dirija as inevitáveis perguntas sobre os vários obstáculos que se apresentaram para o lançamento do filme, Wagner comenta: “Foi muito angustiante. Apesar dos festivais internacionais e dos prêmios, nada fazia sentido sem entregar este filme ao Brasil”. Ele estava particularmente satisfeito com uma pré-estreia, ocorrida dias antes, em Salvador: “O filme ali foi recebido com tanto amor! Havia movimentos sociais em peso, pessoas pelas quais ele (Marighella) lutou e que hoje lutam. Esse foi o melhor prêmio que eu poderia receber”. Moura também fez questão de agradecer “às pessoas que seguraram o rojão dos ataques comigo”, referindo-se à furiosa campanha ideológica nas redes sociais que é movida, há dois anos, contra o filme - incluída aí a movimentação que levou o IMDB a mudar seus procedimentos, quando notou uma mobilização anormal para abaixar a nota do filme na sua plataforma digital.
 
Censura
Moura afirma “não ter nenhuma dúvida de que o filme foi censurado”. Sustenta isso, lembrando as “inúmeras negativas” recebidas pela produtora O2 na Ancine para resolver pendências burocráticas, além de comentários públicos do presidente Jair Bolsonaro de que haveria um “filtro na Ancine”, e de seus filhos, manifestando apoio às negativas da Ancine nas redes sociais. Ao seu lado, a produtora da O2, Andrea Barata Ribeiro, reforça: “A Ancine faz 20 anos este ano e, por 18 anos, esteve ao lado dos produtores. Há dois anos, tiraram sua diretoria, a agência foi desmontada. Assim, questões burocráticas simples não eram resolvidas por censura. Não somos só nós que sofremos isso, todos os filmes estão sofrendo”. Depois disso, ainda entrou pelo meio a pandemia. Moura lembra que o filme chegou a ter data de lançamento marcada antes, mas ela foi adiada “primeiro pela burocracia, depois pela pandemia”. 
 
Mas, afinal, o que planejava o ator, consagrado dentro e fora do Brasil, para sua estreia na direção? Esperava uma produção assim complicada? Moura afirma que não: “Eu pensava em fazer uma coisa muito simples, algo muito controlado. Algo assim como Cidade Baixa (filme de 2005 em que ele atuou, ao lado de Lázaro Ramos, sob a direção de Sergio Machado)”. No entanto, no verão de 2012, Maria Marighella, neta do ex-deputado, poeta e militante político, deu-lhe a biografia do avô, Marighella - O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo, de Mário Magalhães. Daí nasceu o que Moura descreve como “a vontade de devolver ao imaginário brasileiro esse cara que teve sua vida silenciada, amaldiçoada, apagada da História do Brasil e, como tantos outros, contada pelo poder”. Contribuiu para isto seu “fascínio por histórias das revoltas populares”, incluindo aquelas do tempo da ditadura militar de 1964 que é “próxima de sua geração” (Moura nasceu em 1976).
 
Lendo o livro, ele se apaixonou pelo projeto de um filme e começou a procurar um diretor. No meio do processo, “comecei a achar que era eu”, conta. O desafio se mostrou grande desde o começo. O livro de Magalhães cobre toda a vida de Marighella e um filme teria que optar por um recorte temporal - que, no caso, acabou sendo um ano na vida do protagonista, o ano final de sua vida, 1968-1969. Uma opção, diz o diretor, orientada pelo “componente político”. “Boa parte da vida do Marighella deu-se na legalidade. Ele foi deputado. A história dele pré-64 é muito bonita”, diz ele, lamentando não se poder dar conta de todo esse arco temporal. Fora isso, mesmo baseado em pessoas reais, “teria que funcionar como ficção”. 
 
Roteirista que divide os créditos com Moura, Felipe Braga concorda: “O livro é monumental”. Uma epígrafe do livro, “Ação”, acabou sendo uma diretriz, além das entrevistas com os antigos militantes da ALN (Ação Libertadora Nacional, grupo de Marighella). Moura destaca que tinha uma vontade de um filme de ação, porque era isto o que definia Marighella. Era uma coisa orgânica, além da vontade de ter um filme popular”. 
 
Por conta disso tudo, o projeto foi sendo transformado ao longo da produção. Um esforço imenso, do qual o diretor não se arrepende: “Eu não poderia estar mais feliz do que aqui e agora, entregando o filme”.
 
Juventude e racismo
Outro aspecto importante no desenvolvimento do roteiro era destacar a juventude da maioria dos personagens que lutavam ao lado de Marighella, que, nascido em 1911, era o mais velho. É Braga quem explica: “Era importante pensar quão jovens eles eram e que, por preferirem lutar, abraçavam o sacrifício”. Por outro lado, havia a preocupação de mostrar uma maior variedade nas origens dos militantes da luta armada: “Em muitas novelas e séries, mostra-se apenas estudantes que se tornaram guerrilheiros. Mas eles vinham de outros segmentos também, eram operários, tinham famílias, amores, empregos de que tiveram que abrir mão”, destaca o corroteirista.
 
A escolha de seu Jorge para interpretar o protagonista foi outro fator de polêmica - pelo tom de pele mais escuro do cantor e ator em comparação com o personagem real. O diretor recorda que sua primeira opção para o papel foi Mano Brown, por “representar o que era Marighella, poeta, lutador e que não fazia concessões”. Quando Brown saiu do projeto, Moura diz que “só pensava que tinha que ser outro ator negro”. Ele recorda as origens de Marighella, neto de escravos sudaneses malês e cuja mãe nasceu em 1888, ano da Abolição. Por isso, dizia-se, “não vou repetir o embranquecimento clássico”. Quando vieram os ataques ao tom de pele de seu Jorge, Moura assegura ter sentido que havia “acertado ao empretecê-lo e reafirmar a negritude dele”. “Isso serviu para aprofundar a questão negra no filme”, sustenta. 
 
O próprio seu Jorge, que hoje mora nos EUA, comenta a importância do filme para sua reconexão com o país. Ele conta que, há 20 anos, vem viajando pelo mundo promovendo a música brasileira, “encontrando muita admiração pelo Brasil, pessoas torcendo pela gente”. Uma conversa com Moura levou-o a abraçar a proposta de “reconectar-se com o Brasil, com as causas do Brasil, já que a admiração pelo país está sendo colocada em dúvida por esse Brasil que a gente vive hoje e não deseja. Percebi que meu trabalho poderia estar sendo perdido”. 
 
Pulsão e reconstrução
Reagindo a um comentário do também cineasta João Moreira Salles, no sentido de que hoje a pulsão das ruas estaria sendo mais mobilizada pelo campo da direita do que pela esquerda, Moura discordou: “Nada se compara à pulsão pela liberdade, pela luta pelos direitos, pela revolução, daqueles anos de 1960. Marighella se relacionou com (Jean-Paul) Sartre, (Jean-Luc) Godard ajudou a ALN com dinheiro. Marighella estava envolto no contexto revolucionário dos anos 1960. É um contexto diferente esse da vontade de combater o autoritarismo, o racismo e toda sorte de violência contra os pobres, é uma pulsão de vida. O MTST, o Levante da Juventude e outros movimentos sociais hoje têm essa pulsão. A pulsão que eu vejo neste governo é pulsão de morte, é o oposto. Discordo totalmente do João”.
 
O diretor também considera que Marighella é um “filme duro, cru, mas também de esperança pelas sementes plantadas de toda resistência popular do Brasil”.
 
Intérprete de um dos guerrilheiros do grupo de Marighella, o ator Humberto Carrão completa: “Filmes constroem países e um país está sempre em construção. Depois de 21 anos de ditadura, houve todo um empenho para que não acontecesse de novo. Agora, precisamos inventar um Brasil mais interessado na própria história. Lançar o filme faz parte dessa tarefa”.
 
Leia a crítica do filme















Neusa Barbosa

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