Entrevistas

Joel Pizzini resgata de forma poética a trajetória de Ziembinski em filme

Por Alysson Oliveira

Publicado em 28/09/21 às 08h31

 
O polonês, radicado no Brasil, Zbigniew Ziembinski em imagem de arquivo no documentário "Zimba" (Crédito: Divulgação)

 
 
O cineasta carioca Joel Pizzini (na imagem abaixo) costuma chamar seus trabalhos de filmensaio, e não poderia ter palavra melhor para definir o gênero híbrido em que se encaixam suas obras, que incluem Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz, 500 Almas e Glauber Rocha. Em seu novo trabalho, Zimba, que chega aos cinemas nessa semana, ele investiga a vida de obra de Zbigniew Ziembinski, ator, diretor de teatro e cinema, nascido em 1908, que emigrou para o Brasil em 1941. Aqui, foi responsável po revolucionar o teatro nacional, em especial a partir da icônica montagem de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, que estreou em 1943.
 
Em Zimba, que teve sua première no Festival É Tudo Verdade, em abril de 2021, Pizzini, obviamente, não faz uma biografia convencional. O resultado é quase um filme impressionista, com rico material de arquivo, além de encenações e depoimentos das atrizes Nathália Timberg, Nicette Bruno e Camila Amado, que trabalharam com Ziembinski no teatro –  respectivamente em Senhora dos Afogados (1954), Vestido de Noiva (na segunda montagem, de 1976), e Anjo Negro (1962), todas, coincidentemente, escritas por Nelson Rodrigues. Nessa entrevista, o diretor fala sobre o processo de criação do longa, a importância de Ziembinski para a cultura nacional e como sua figura reverbera até hoje.
 
 
 
Qual seu primeiro contato com o Ziembinski? Você chegou a conhecê-lo pessoalmente?
Não o conheci, mas quando criança me impressionava com aquela figura imensa que tinha, ao mesmo, tempo algo de infantil. Lembro vagamente dele na TV, nos casos especiais, e, mais tarde, o acompanhei mais nos filmes e entrevistas, por seu caráter expressionista.
 
O que o motivou a fazer um documentário sobre ele?
Fui levado a fazer o filme, primeiro pelo convite das produtoras Úrsula Groska e Vera Haddad, que vieram ao encontro de um desejo latente, talvez pela minha ascendência polonesa, por parte da minha avó paterna, cujos avós emigraram de Gdansk para o interior do Paraná. Além disso, sempre admirei o cinema polonês, que descobri na Cinemateca de Curitiba, quando estudante de jornalismo.
 
O filme tem um material de arquivo muito bom, com coisas bastante raras. Como foi feita essa pesquisa? Quanto tempo levou?
Sempre tive essa veia de arqueólogo de imagens, de pesquisador que vem do jornalismo, provavelmente. Todos os meus filmes evocam a memória de personagens, de lugares, da minha cena originária e da mitologia afetiva. Começa na pesquisa histórica e vai até a pesquisa de linguagem, não necessariamente nessa ordem. No caso do Zimba, havia a vida-arte na Polônia que era desconhecida no Brasil e, nesse sentido, a biografia de Aleksandra Pluta [Ziembinski: Aquele bárbaro sotaque polonês, publicada em 2016] foi primordial.
A militância de Ziembinski na resistência antinazista na Segunda Guerra, que resultou na vinda dele para o Rio, revela muito de sua personalidade e comportamento no país que ele adotou. Procurei dar ênfase à sua vivência na Polônia através do único filme que ele dirigiu lá [Fredek uszczesliwia swiat, de 1936] e daqueles em que ele trabalhou como ator. Conseguimos uma coprodução polonesa que viabilizou a aquisição das raras imagens. No Brasil, a coprodução da Globonews e Canal Brasil facilitou o acesso ao acervo da Globo, que contém grande parte da carreira de Zimba na tv. Outra parte do material vem de acervos particulares, do CTAv, Arquivo Nacional, EBC e da Cinemateca Brasileira que acessamos na véspera de seu fechamento. A Leminiscata fez uma ginástica para contarmos com essas relíquias e eu abri mão até de filmar na Polônia ao optar pelas preciosas imagens de Zimba.
 
De onde veio a ideia de colocar três atrizes para fazer encenações e recriações de cenas?
Nos filmensaios que realizo, procuro valorizar a memória em sua dimensão atemporal, evitando o tom nostálgico e passadista. A história é, e interessa saber o que dela reverbera ainda e produz sentido atualmente. Ao invés de recorrer à prática do depoimento, experimentei a narração polifônica, na qual, além da primeira pessoa do Zimba – rompendo a cronologia, inclusive –, as atrizes contracenam com as imagens e o imaginário do artista. Daí a ideia de recriar fragmentos da montagem clássica de Vestido de Noiva, pois o teatro deste período só tem basicamente registros fotográficos e dá vontade de conhecer o que envolvia e estava por trás dessa montagem.
Lançamos mão assim da técnica do videomapping com a colaboração criativa do artista visual Glauber Viana, que projetou um cenário vivo dentro de um teatro em que os atores são imersos dentro do tempo da memória. A partir daí, eles “contracenam” com Ziembinski, enquanto atores que conviveram com ele e, nessa hora, dialogam como se ele não fosse objeto de um tempo remoto. A ruptura temporal faz com que a câmera de Luiz Abramo seja também uma personagem do filme, tridimensionalmente.
 
Como foi o trabalho em parceria com a montadora Idê Lacreta, no sentido de organizar uma narrativa ?
A Idê Lacreta é uma parceira desde meu primeiro filme, Caramujo-Flor, e nos entendemos por música. Ela tem uma sensibilidade silenciosa que leva em conta a sensualidade da matéria. Como o filme é um mosaico e recria o percurso de Zimba a partir de seu velório, como um recurso machadiano, até seu nascimento na Polônia, nos demos a liberdade poética de transitar em vários registros da memória, inclusive do próprio teatro brasileiro e de atores contemporâneos e formados por Zimba. Destaco também o trabalho de Sofia Costa na pré-articulação do vasto material de arquivo e depois da Luisa Noriko na precisa finalização do filme.
Aliada a esse tecido narrativo, a trilha musical de Livio Tragtenberg reelabora a atmosfera sonora do mundo de Ziembinski, sobretudo do universo criativo do Chopin, que foi o personagem de maior sucesso que Zimba interpretou no teatro da Polônia. A edição de som e mixagem de Ricardo Chuí e Miriam Biderman, parceiros de Glauces e 500 Almas, conferiram fluidez, densidade e espacialidade sonora ao filme, que procura dar novos sentidos a velhos materiais que estavam recônditos nos arquivos e revelam muito da arte de Zimba
 
O que você acha que o filme, sobre um grande artista, tem a dizer sobre o Brasil de hoje, que desvaloriza a arte cada vez mais?
Zimba conversa com a cena atual. O Sérgio Mamberti me ligou siderado após a sessão no É Tudo Verdade para dizer que teve a sensação que Ziembinski tinha voltado.  É bom lembrar que ele renasceu das cinzas, às quais a Polônia foi submetida pelos nazistas na Segunda Guerra, e veio parar por acaso no Brasil, quando fugia para Nova York.  Aqui, ele revolucionou o teatro e, na ditadura, teve sua última peça, Quarteto, censurada. Zimba encarna esse poder transformador da arte, e evocar sua memória nos encoraja a lutar contra a mesma intolerância que ele enfrentou durante sua vida e que agora se manifesta no país de forma assustadora. Como ele reafirma no filme: "É preciso se propor a viver, pois a aventura humana tem sentido".
 
Você está trabalhando num próximo projeto?
Sim, acabei de rodar Depois do Trem, meu novo filmensaio, desta vez sobre a vida-obra de Joaquim Cardozo, poeta-engenheiro pernambucano. O filme é protagonizado por Aramis Trindade e Emanoel Cavalcanti e entrará em montagem em breve. Trabalho ainda na pesquisa sobre a trajetória do cineasta Alberto Cavalcanti, que influenciou o cinema francês e inglês e permanece quase desconhecido em seu país
 
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Alysson Oliveira

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