Entrevistas

A busca da transgressão das meninas skatistas em “Meu nome é Bagdá”

Por Alysson Oliveira

Publicado em 15/09/21 às 11h00

 Amigas skatistas em cena de "Meu nome é Bagdá", de Caru Alves de Souza. 

 
Desde sua estreia, no Festival de Berlim, em fevereiro de 2020, pouco antes da pandemia ser declarada, o longa nacional Meu Nome é Bagdá rodou o mundo e ganhou mais de 10 prêmios, incluindo melhor filme na mostra Generation 14plus no evento alemão, no qual teve sua primeira sessão. Dirigido pela jovem cineasta Caru Alves de Souza (De Menor), o longa tem tema e linguagem que falam direto aos jovens (especialmente aos e às da periferia), sobre seus anseios, sonhos e angústias no mundo de hoje.
 
A Badgá do título é uma jovem skatista, interpretada com energia e sensibilidade pela estreante Grace Orsato. Moradora da periferia da cidade de São Paulo, ela encontra no skate mais do que um esporte, uma forma de expressão e rebeldia. Nessa entrevista, a diretora, que corroteirizou o filme com Josefina Trotta, fala sobre o processo criativo, as dificuldades de filmar na rua e a ascensão do skate feminino com a medalha olímpica de Rayssa Leal.
 
Como surgiu o filme?
O filme é uma adaptação livre do romance infanto-juvenil, Bagdá o Skatista, de Toni Brandão. Desde que comecei a escrever os primeiros tratamentos, o filme mudou muito. No livro, Bagdá é um menino skatista. No filme, Bagdá é uma menina skatista.  Essa mudança aconteceu pois, durante o processo, me dei conta de que queria contar a história do ponto de vista de uma menina. Logo testemunhei o crescimento do skate feminino no Brasil e, quando conheci as meninas skatistas que fazem parte do filme, pensei, caramba, não posso ignorar a força desse coletivo de mulheres no skate, isso tem que estar presente no filme!
 
Você já era ligada ao mundo do skate? O que no esporte te interessou para fazer um filme ?
Não era ligada no skate, não. Quando era jovem sim, andava muito com skatistas, mas nunca fiz parte do mundo do skate. O que sempre me interessou no skate foi essa vocação transgressora, de ocupar os espaços da cidade, de ler a cidade de maneira diferente. Foi muito bonito quando ouvi de um dos skatistas do filme que o tempo parava quando ele estava em cima de um skate. Isso para mim é muito transgressor e muito bonito e quis trazer isso para o filme.
 
Como foi que você encontrou e selecionou a Grace Orsato para o papel?
Quem encontrou a Grace foi a Paula Pretta, produtora de elenco. Ela estava andando de skate na praça Roosevelt junto com outras meninas do skate, inclusive algumas delas estão no filme: A Giulia del Bel e a Luh Barreto, por exemplo. A Paula convidou as meninas para fazer um teste para o filme, elas foram, estavam meio desconfiadas mas logo viram que o nosso trabalho era sério. E aí foram ficando. A Grace segurou um rojão muito grande no filme, a Bagdá está em todas as cenas, ela tinha que atuar, dançar e andar de skate. E ela fez tudo isso com um talento e uma disposição extraordinários. É uma grande atriz. Acho que de primeira o que me fez ver a Bagdá nela foi o olhar desafiador que ela lança de vez em quando. E logo depois te dá um sorriso meigo. Ela tem uma atitude e uma força, uma vibração que era muito da Bagdá. Uma atitude meio "foda-se o mundo" que eu via muito na personagem. Mas ela trouxe muitas outras camadas para a personagem, foi incrível trabalhar com ela.
 
 Da esquerda para direita: Caru Alves de Souza, Grace Orsato e Karina Burh, nas filmagens  (Crédito: Luciana Barreto/Divulgação)

Como foi a preparação, com a Marina Medeiros, do elenco jovem, uma vez que não tinham experiência em atuar em cinema?
Eu trabalho com a Marina há muito tempo e adoro o método dela, pois ela trabalha muito no sentido de criar relações entre as atrizes, entre as personagens, de deixar todo mundo fazendo o mesmo filme. Então a gente ensaiava as cenas e discutia muito o que fazia sentido e o que não fazia e mudamos algumas coisas no roteiro todas juntas. A gente fez uma preparação bastante longa, deixou todo mundo fazendo o mesmo filme e depois pudemos improvisar algo nas filmagens. Pois para mim era importante não dar marcação para as atrizes, queria que elas se sentissem à vontade de mover-se livremente no set.
 
Qual o maior desafio em filmar nas ruas?
Nossa, filmar na rua é só desafio, porque você tem que lidar com o descontrole total. O som do vizinho que vaza, o carro do ovo que passa, a chuva que vem e que vai, é uma loucura, mas uma loucura boa.
 
O filme foi rodado antes de 2020. Como você compara o Brasil daquele momento e o de hoje para as jovens da periferia ?
Bom, tudo ficou pior depois que esse presidente foi eleito. Ele acabou com quase todas as políticas públicas que garantissem um mínimo de igualdade de direitos, a pobreza aumentou, a perseguição a jovens negros, à população LGBTQIA+, a mulheres aumentou, e não vou enumerar tudo que piorou depois que ele assumiu porque ficaria horas escrevendo. Não bastasse a pandemia, temos um presidente genocida. Não está fácil.
 
Como o filme tem sido recebido dentro e fora do Brasil nas exibições em festivais?
Apesar da pandemia, o filme foi exibido em dezenas de festivais em todos os continentes, ganhou 14 prêmios, e agora vai ser lançado no Brasil e na França. A recepção nos festivais tem sido muito legal. Os jovens também estão se conectando muito com o filme e essa recepção tá bem bacana.
 
Você acredita que a medalha olímpica da Rayssa Leal ajude a dar mais visibilidade ao esporte – especialmente a categoria feminina – no Brasil? Vocês chegaram a mostrar o filme para ela?
Ah, com certeza! Esse tipo de coisa tem que ser muito celebrada. Não é fácil ser mulher e skatista e ganhar esse reconhecimento é muito bacana e eu fiquei muito feliz pela Rayssa e espero que isso dê visibilidade às meninas do skate. Visibilidade, patrocínio para quem busca patrocínio, reconhecimento, respeito... A gente gostaria muito de mostrar o filme para ela, mas ainda não mostramos.
 
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Alysson Oliveira

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