Entrevistas

O cineasta e o xamã

Por Neusa Barbosa

Publicado em 08/09/21 às 15h33

 O líder e xamã Davi Kopenawa, corroteirista de "A última floresta" (Crédito: Pedro J. Márquez/Divulgação)
 
A poucos dias da estreia do filme A Última Floresta nos cinemas de todo o Brasil, marcada para 9 de setembro, o diretor Luiz Bolognesi participou da sessão mais especial até agora do filme, que começou sua carreira na seção Panorama do Festival de Berlim 2021: a exibição na aldeia Watoriki, terra Yanomami, onde o filme foi realizado pouco antes da eclosão da pandemia, em 2019. Os próprios indígenas ajudaram a montar a tela, esticando-a com cordas, permitindo a projeção do filme para a comunidade que o protagoniza, cujos integrantes, em sua maioria, assistiam cinema pela primeira vez.
 
Na coletiva online do filme, na sexta (3/9), o diretor paulista não esconde o entusiasmo que a experiência com os Yanomami lhe trouxe: “Eles falam poesia o tempo todo. Todas as figuras de linguagem estão em seu discurso (naturalmente)”, descreve.
 
Misto de documentário e docudrama, A Última Floresta integra a presença e a palavra do líder e xamã Davi Kopenawa, corroteirista do filme, trazendo para a tela não só a experiência cotidiana da comunidade, em suas tarefas de coleta, caça, preparo da alimentação, cuidado das crianças e defesa contra invasores garimpeiros. Além disso, abre uma janela para a poderosa cosmologia que rege o pensamento Yanomami, retratando indígenas representando alguns de seus mitos fundadores, como a história dos irmãos Omama e Yoasi, cuja trajetória está na origem do mundo, como eles o vêem. Entre cenas ficcionadas e captadas, sobra espaço para alguns segredos. “Não vamos contar o que os xamãs falam no seu ritual”, diz Bolognesi. 
 
Procura de potência
 
Também diretor de outro documentário ambientado no universo indígena, Ex-Pajé - que retrata dilemas na comunidade Paiter Suruí -, Bolognesi contra que foi sua a iniciativa de procurar Davi Kopenawa para um filme sobre os Yanomami, inspirado na leitura de um livro do líder, A Queda do Céu. Um livro que o cineasta descreve como um outro Grande Sertão, Veredas e que o levou a querer buscar essa poesia. O contato entre os dois, embora gentil, partiu com uma crítica: Kopenawa não gosta de Ex-Pajé, enxergando ali uma postura vitimizada, fraca, que ele não desejava para o filme sobre o seu povo. Kopenawa queria um filme que mostrasse a beleza, a potência dos Yanomami.
 
O próprio Kopenawa explica: “O filme está mostrando coisas que outras pessoas não quiseram mostrar. Por isso, a comunidade aceitou uma pessoa de fora para filmar e mostrar-nos para o povo da cidade, para que acreditem no nosso modo de vida, que é tão diferente do deles e não fora mostrado assim antes. Demorou muito, mas valeu a pena”. O líder Yanomami vê uma função na divulgação de A Última Floresta: "Milhares de pessoas vendo e achando bonito, podem então pensar: ‘Vamos proteger, para que continuem vivendo, usando a própria língua e cultura’. O filme está chegando a outros países, que nunca viram um índio Yanomami”.
 
Kopenawa não esconde sua preocupação com os invasores, como os milhares de garimpeiros que, desde 2019, estão tentando entrar em seu território, demarcado desde 1992. “A gente tem uma preocupação que esses invasores não venham estragar os nossos rios e florestas. Estão querendo pegar a nossa terra, não podemos deixar. O Yanomami é um povo sagrado, por isso a nossa luta para a outra geração, que está nascendo e crescendo. É preciso que a gente seja respeitado, junto com o meio ambiente. Nossa casa é a floresta, nós somos povo-guardião. Por isso, não podemos acabar, junto com a floresta, a natureza. É a última floresta que está sobrando no Brasil”. 
 
Bolognesi concorda: “Entramos num modo apocalíptico, com a humanidade agonizando. A crise hídrica é muito mais grave do que o governo admite e mesmo compreende, com o aumento do desmatamento, das queimadas. Então, com os Yanomami, estamos diante de uma humanidade que pode nos resgatar. A sabedoria deles sobre sustentabilidade é urgente que a gente aprenda. O filme é um provocador disso, na entrada de uma viagem de admiração e respeito. Precisamos aprender com esses povos que há muito habitam o Brasil, nos colocarmos contra a evangelização e a violência contra eles. É uma humanidade muito mais sofisticada do que a nossa”.
 
Comunicação e empatia
 
Para que o filme tivesse essa integridade, esse respeito ao universo dos Yanomami, Bolognesi teve que passar 10 dias integrado na aldeia. “O filme é um sonho coletivo, nós temos que sonhar juntos”, define. E não é uma força de expressão. Como o sonho é uma parte importante do cotidiano dos indígenas, eles sonhavam de noite e conversavam de dia sobre os sonhos que, como acreditam os indígenas, organizam seus pensamentos. Foi dos indígenas a vontade de contar histórias mágicas. Bolognesi conta que fizeram um pré-roteiro a partir de tudo isso e, à medida que outras coisas foram acontecendo na filmagem, elas foram sendo incorporadas - como o episódio, em que as mulheres lançam a iniciativa de se organizarem para produzir cestos e não dependerem tanto dos homens, um detalhe feminista que escapa à cultura tradicional. 
 
 O diretor e corroteirista do filme, Luiz Bolognesi, com o prêmio recebido no Festival de Berlim de 2021 
 
 
Os próprios indígenas produziram seu figurino e direção de arte nos episódios fantásticos. O diretor admite que, num determinado momento, temeu que o filme se tornasse hermético para o público branco, mas o próprio prêmio de público em Berlim lhe demonstrou exatamente o contrário. Mais ainda no Seoul Eco Film Festival, em que a premiação como melhor filme veio justificada com um “reconhecimento da ancestralidade deles mesmos”, segundo o diretor. E, mais uma vez, aponta a sabedoria de Kopenawa: “Ele sabia que o filme ia funcionar”.
 
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Neusa Barbosa

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