Entrevistas

Matheus Nachtergaele e seus personagens do “Brasil com S”

Por Alysson Oliveira

Publicado em 05/08/21 às 08h00

 Matheus Nachtergaele, em cena de "Piedade", seu quinto filme com o diretor Claudio Assis

Matheus Nachtergaele é até hoje bastante lembrando pelo personagem João Grilo, da série/filme O Auto da Compadecida, do final dos anos de 1990. Mas, aos 53 anos, sua carreira conta com inúmeros personagens no cinema – cinco deles, em filmes de Cláudio Assis –, televisão e teatro São figuras, como ele mesmo diz, do “Brasil com S”. Presença em todos os longas do cineasta pernambucano, o ator interpreta um dos personagens centrais em sua obra mais recente, Piedade, em que interpreta um homem que o ator define como “um tubarão que invade as praias do nosso afeto” e “o brasileiro que ganhou as últimas eleições”.
 
Nessa entrevista ao Cineweb, Nachtergaele fala sobre essa parceria que dura duas décadas, o que o longa tem a dizer sobre o Brasil de ontem e hoje, e também seus planos para dirigir um novo filme, depois de sua estreia A Festa da Menina Morta (2008).
 
 
Você atua em todos os longas do Cláudio Assis, fale um pouco sobre essa parceria. Como você o vê como diretor ao longo desses quase 20 anos?
É uma oportunidade rara e maravilhosa ter parceria constante com diretores, seja no teatro, na televisão ou no cinema. Eu fiz alguns pares bonitos pela vida fora. Trabalho muito com Guel Arraes, muito com o Jorge Furtado. O Cláudio é um dos cineastas mais raivosos  e consequentes que eu conheço. Um homem extremamente amoroso mas muito injuriado pelo que o Brasil é. Nasceu no Brasil profundo, conhece a realidade que filma, não é um homem branco da classe média que empunha uma câmera para fazer uma denúncia intelectual, mas um homem do povo que se preparou para empunhar uma câmera e fazer denúncia daquilo que ele viu. Ele me ensina demais os meandros do povo brasileiro. E me provoca a cada filme, me utiliza em todas as minhas possibilidades técnicas, também me desmonta muitas vezes, mas somos amigos para a vida. A gente se ama.
 
Eu o vejo amadurecendo e sempre lutando principalmente por dignidade, uma vez que um cineasta como ele, radical, de filmes de arte, sobrevive muito mal no Brasil. Ainda mais agora com o atual governo, que despreza absolutamente a educação e a cultura. Eu o vejo como um dos maiores cineastas vivos em atividade no país e, como diretor, o vejo cada vez mais raivoso e ao mesmo tempo emocionado. Nas filmagens de Piedade, ele estava muito comovido, porque a base da história era pessoal. O que aconteceu com a personagem da dona Carminha [Fernanda Montenegro] é muito parecido com o que aconteceu na vida dele, eles tiveram um irmão perdido na família. Cláudio procurou esse irmão, que estaria representado pelo Sandro, o Cauã Reymond, na trama, e o aspecto político que vem, nesse caso, quase que em segundo plano. Foi bem comovente esse último filme. E olha que fizemos muitos, fiz todos os filmes dele.
 
Em Piedade, seu personagem parece um tipo um pouco diferente daquele a que estamos acostumados ver você fazer. Como foi a composição do personagem?
Sempre fui muito recrutado pelo meu tipo físico para viver personagens marginais da brasilidade. Apesar de ser filho de belgas, nascido na classe média paulistana, de alguma maneira, minhas características se misturam com as características do povo nordestino, por exemplo. Então, eu fui recrutado para interpretar brasileiros marginalizados em muitos, muitos, muitos filmes tanto em comédias como O Auto da Compadecida, como também em dramas, como, por exemplo, Cidade de Deus. E é muito raro realmente que me chamem para fazer um personagem da classe dominante. Tive algumas vezes essa experiência, por exemplo, em Serra Pelada, do Heitor Dhalia. Mas, em geral, eu faço o tipo o marginal mesmo, o homem empobrecido com sua violência, sua tristeza, ou sua grande alegria.
 
Compor esse personagem foi para mim uma volta ao passado. Eu nasci numa família parecida com a do Aurélio. Ele é, para nós, a equipe do filme Piedade, o representante do ultracapitalismo, o representante do domínio do homem branco médio com relação ao restante da população brasileira. Eu sou aquilo que fugiu do Aurélio. Eu nasci num ambiente que poderia ter me feito um Aurélio, uma família careta sem nenhum artista em atividade, um desejo muito profundo de que eu tivesse uma profissão dita normal, que fizesse meu dinheiro, e, principalmente, que eu obedecesse a regras de conduta que a sociedade moralista branca patriarcal deseja, enfim, obedecer aos desejos do capital.
 
Eu me livrei disso, fugi de ser Aurélio, então foi um trabalho de vertigem e de catarse para mim. Não foi exatamente fácil. Lidei com muitos fantasmas e procurei, obviamente, colocar nele o visual do tipo yuppie paulista ou paulistano, que eu conheço, eu vejo pelos aeroportos, ou mesmo na minha família. Essa tentativa de estar sempre bem vestido, de subir na vida a qualquer custo. É esse medo da felicidade e da liberdade. Ele é um homem que tem medo da mãe, tem a sexualidade presa dentro de um armário e está disposto a qualquer coisa para cumprir sua função dentro da indústria petrolífera, para o qual ele trabalha, para poder ganhar mais dinheiro e continuar tendo a vida que ele quer ter, para agradar sua mãe, que aparece várias vezes no filme sempre falando com ele pelo Skype, pela internet, é a presença dos meios digitais na nossa vida. Você vê que a relação entre eles é muito tristonha. Ele mente para a mãe, que é um poço de preconceitos, ela é uma espécie de Damares de Bauru. Enfim, Aurélio é um vilão, mas também vítima do sistema, uma vez que ele foi criado para ser esse tubarão que invade as praias do nosso afeto.
 
Aliás, é um personagem que diz muito sobre o Brasil do presente, não?
Depois da nossa primeira exibição em tela grande,  no Festival de Brasília [em novembro de 2019], onde fomos premiados e muito bem recebidos, uma amiga, a  repórter do Canal Brasil Simone Zuccolotto,me perguntou: “Você sempre faz tipos tão brasileiros e esse Aurélio não é?” E eu disse:  “Infelizmente, ele é o tipo brasileiro agora mais representável num filme de denúncia”. Ele é, sem que nós soubéssemos, o brasileiro que ganhou as últimas eleições, o brasileiro que desistiu do sonho, da capacidade de inventar um mundo novo, uma vida nova e se entregou ao ultracapitalismo, ao tudo por dinheiro, à falta de afeto e à pornografia cibernética na qual estamos mergulhados. Ele diz, infelizmente, muito sobre quem somos hoje.
 
Piedade foi filmado alguns anos atrás. Olhando o filme agora, como você compara o Brasil daquele momento e o de agora?
O Brasil daquele tempo, e estamos falando em 2018, era um prenúncio do que viria a ser o Brasil de agora. Já existia uma nuvem negra pairando sobre nós. A democracia tinha sido golpeada numa espécie de jogo feio à la House of Cards. E, para nosso espanto, o que o Brasil decidiu foi abraçar um ultracapitalismo miliciano, neopentecostal, e decidiu aceitar as regras brancas e de colônia como as novas regras do jogo. Eu vejo o Brasil do tempo da filmagem como um prenúncio do Brasil de agora. Vários filmes feitos antes da pandemia têm essa característica de presságio, de prenúncio. Piedade é um deles. Também me parece que Divino Amor, de Gabriel Mascaro, e Sol Alegria, do Tavinho Teixeira, são outros. Enfim, a arte sempre farejando quem somos e o que pode nos acontecer.
 
Como foi estar num set com atores experientes, como Fernanda Montenegro e Irandhir Santos, e também jovens estreantes, como o Francisco de Assis Moraes?
Eu trabalhei em tantas companhias de teatro. Comecei no Teatro da Vertigem e depois trabalhei em peças com elencos grandes, díspares. A televisão me ensinou muito a conviver com grandes mestres, e também com pessoas iniciantes que absolutamente não conheciam o ofício de ator. Isso foi alargando minha capacidade de convívio, e eu aprendo muito com todas as pessoas. Eu aprendo tanto com um mestre como o Paulo José, o Paulo Autran, o Antônio Abujamra e a Fernanda Montenegro, com quem eu tive a chance de trabalhar muitas vezes, quanto com os meninos, com as gaivotas de primeiro voo, como eu gosto de falar. Há uma vivacidade, uma espontaneidade e também um medo bonito de ser lembrado quando a gente trabalha com jovens, como Francisco de Assis Moraes, que é filho do Cláudio com a Júlia Moraes, que é neta de Vinicius de Moraes, portanto, é um menino destinado às artes de alguma maneira. E é o segundo filme que nós fizemos juntos, a gente fez o Big Jato [filme de 2016, também dirigido por Cláudio] antes de Piedade, em que eu fazia o pai e o tio dele, e ele era bem menorzinho. Agora está um moço muito bonito e muito envolvido pelas questões do futuro da arte e do cinema no Brasil.
 
Você tem uma carreira com personagens bastante variados – desde tipos populares, como em “Auto da Compadecida”, até uma espécie de revolucionário em “Carro-Rei”- o que o atrai num filme?
Eu sou atraído pela vocação de um filme. Não tenho um gênero preferido, gosto de fazer comédias. Experimentei há pouco tempo até um tipo de comédia que eu nunca tinha feito, uma comédia policial, Cabra da Peste, ao lado do Edimilson Filho, que eu conheci na série Cine Holliúdy, que está sendo preparada para ter sua segunda temporada. Nós já gravamos um pouquinho, paramos por causa da pandemia, mas voltamos no ano que vem. O que me atrai para um filme é o que se quer contar dentro dele. E, obviamente, os artistas envolvidos. É muito importante para mim, cada vez mais, que o ambiente do trabalho artístico seja inspirado, seja realmente criativo e libertário. Muito mais do que o sucesso de bilheteria ou o super-Ibope de um trabalho. Eu me apaixono pela vocação dos projetos.
 
Ainda respondendo essa pergunta, fui chamado pelo José Júnior, do Afroreggae, e pelo Heitor Dhalia para protagonizar uma série que vai começar a ser gravada em janeiro, para a Globo Play, chamada O jogo que mudou a história, sobre o início da guerra do tráfico e a formação dos milicianos no Rio de Janeiro. Estou muito empolgado. É um projeto que vai ter muitos rostos desconhecidos, como foi Cidade de Deus. É uma volta minha para a realidade dos morros. Faço dois personagens, dois irmãos, um proto-miliciano e um líder de comunidade. Vai ser muito intenso. A vocação desse projeto é o que me chama, e, olha que eu vou trabalhar pra dedéu, e o que eu estou mesmo na vida é louco por trabalho. Nada é mais analógico do que o trabalho de um ator.
 
 
 Francisco de Assis Morais, Fernanda Montenegro e Nachtergaele, em cena de "Piedade"

 
Você dirigiu um filme, que é muito bom, e bastante pessoal. Tem planos de voltar a dirigir?
Obrigado! A Festa da Menina Morta é um filme que eu amo do meu coração, o único longa que eu dirigi e estreou no Festival de Cannes em 2008, na mostra Um Certo Olhar, que é a segunda seção mais importante, depois do tapete vermelho. Para mim, foi uma grande honra, e depois fizemos uma linda carreira pelo mundo afora, com muitos prêmios em festivais internacionais e também brasileiros. Estreamos em Gramado, com muita emoção por estar mostrando o filme para o Brasil, que é para onde eu trabalho, é onde eu nasci e para quem eu trabalho.
 
Eu sou um cara do Brasil com “S” e sem nenhuma pretensão a ter uma carreira internacional. Quero sempre trabalhar aqui para nós, por nós, conosco. Eu amo meu país. Tenho planos de voltar a dirigir mas não tenho pressa. Estou escrevendo o roteiro há dez anos. A Festa da Menina Morta levou uns 15 anos sendo escrito. Eu não tenho pressa, estou muito envolvido no meu trabalho como ator, é o que eu sou por vocação, mas em algum momento quando a musa pousar no meu ombro, eu começo a produção. No momento, meu desejo grande é voltar para o teatro, voltar com a turnê da peça Moliére, que estávamos fazendo e foi interrompida pela pandemia, voltar com meu monólogo, que há cinco anos roda o Brasil, fazer O jogo que mudou a história, terminar Cine Holliúde 2. E também ganhamos um edital bonito no CCBB para uma peça com orquestra sinfônica. Então tem bastante trabalho pela frente antes de um segundo longa.
 
O filme chega aos cinemas num momento em que as salas ainda estão se readaptando a uma nova realidade. O que você tem a dizer ao público?
Acredito que as pessoas vão ficar muito felizes em voltar para o cinema para ver um filme do Cláudio Assis, que é um cineasta grande, vocacionado para a telona, com filmes catártico, sempre muito consequentes. Nesse caso, o elenco é tão divino que a gente não precisa nem chamar muito para haver interesse. Quem está insatisfeito com a situação atual do país vai sentir respaldo, se sentir representado, motivado, com esse longa.
 
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Alysson Oliveira

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