Entrevistas

Ana Maria Magalhães e seu retrato da Mangueira em dois momentos

Por Alysson Oliveira

Publicado em 02/08/21 às 14h54

A diretora Ana Maria Magalhães e Wesley Assunção, Mestre da Bateria da Mangueira, nas filmagens do documentário (Divulgação)

Conhecida atriz (de filmes como Os sete gatinhos, e da primeira versão da novela Gabriela) e diretora (Lara, O Brasil de Darcy Ribeiro), Ana Maria Magalhães no documentário Mangueira em 2 Tempos retoma um antigo projeto seu: Mangueira do Amanhã, um média feito em vídeo nos anos de 1990, no qual era retratado um projeto social da escola de samba feito para as crianças e da comunidade. Algumas décadas depois, ela volta esse filme, e, novamente, busca várias das entrevistadas e entrevistados do original, agora adultos. Nessa entrevista ao Cineweb, a cineasta comenta, entre outras coisas, o que a levou a fazer esse documentário, e as transformações que presenciou nos dois momentos.
 
Primeiro, gostaria de saber sobre seu filme de 1992, documentando a Mangueira do Amanhã, como surgiu essa ideia? Como foi a repercussão na época?
A ideia surgiu de um projeto maior sobre a Mangueira, mas consegui uma pré-venda para o Canal Plus francês apenas do segmento sobre a Mangueira do Amanhã. O média com 30 minutos foi gravado em vídeo. Coincidiu ser uma época em que despontava a violência contra as crianças pobres que explodiu com a chacina da Candelária. Mangueira do Amanhã mostrava o outro lado da moeda. Um programa social que transmitia ensinamentos sobre o samba desde a confecção das alegorias e fantasias até a gravação do samba enredo. O vídeo teve boa repercussão. Foi veiculado por várias TVs brasileiras. E ganhou a Margarida de Prata da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que inaugurava em 1993 a premiação para vídeos.
 
Quais as memórias que você tem dessa filmagem?
Alguns personagens consideram o período das gravações como o melhor momento da infância. Porque participar dos ensaios na quadra da escola de samba e dos preparativos para o desfile no Sambódromo, durante as férias do verão, e ainda filmar, era uma verdadeira farra. Para mim, foi um aprendizado sobre os diversos setores que compõem o desfile, as histórias dos antigos sambistas discriminados pelo preconceito, o contato com personagens importantes da escola e, sobretudo, o convívio com os moradores do morro da Mangueira que manifestam em atos e palavras a sua própria filosofia de vida.
 
E, agora, como veio essa vontade de retomar esse trabalho dos anos de 1990?
Pois é. Nunca perdi aquela galera de vista. Acompanhava de longe, através da minha comadre Jurema e dos encontros casuais com Wesley [Assunção, atual Mestre da Bateria da Mangueira] quando eu ia pro samba na quadra da escola. Absorvi aos poucos a ideia de reencontrar o grupo, constatar como se inseriram na sociedade e desenvolveram suas personalidades com seus diferentes destinos. Até que em 2009 gravei as entrevistas com o Wesley e com a Daniele para a pesquisa. Mas só pude começar a levar o projeto adiante alguns anos depois. Então me empenhei muito nesse percurso para viabilizar a produção.
 
Como você acha que sua experiência como atriz contribui na direção de filmes?
O ator tem a vantagem de transitar entre a imagem que aparece diante das câmeras e a parceria com a equipe atrás das câmeras. Isso lhe proporciona um conhecimento que une arte e técnica. E um diretor costuma ter exatamente atributos técnicos e artísticos. Saber o que quer, a quem e como pedir. Algum domínio técnico para não pisar em falso, o sentido do filme como guia e a forma de realizá-lo, ou seja, a estética.
 
Como foi o processo de aproximação da Mangueira, da comunidade para fazer o filme?
Da outra vez houve uma aproximação maior da comunidade porque filmamos durante três meses. Mas desta foram apenas alguns dias de filmagem na quadra e na Vila Olímpica. Além disso, a vida no morro mudou muito e para pior. E algumas pessoas já não estão por aqui. De modo que a aproximação da comunidade veio por meio da relação afetiva com o elenco e das novas amizades que pintaram. Gosto muito de estar com eles e ouvir suas expressões peculiares, semelhantes às da boêmia popular carioca de seus áureos tempos.
 
Como foi o reencontro com as crianças do Mangueira do Amanhã, agora adultos?
Foi tranquilo reencontrá-los adultos por causa da memória afetiva deles e da minha. E também a segurança da qualidade do trabalho porque eles gostaram do resultado de Mangueira do Amanhã e gostam de se ver e mostrar aos filhos como eram quando crianças. Quer dizer, havia uma predisposição favorável de parte a parte. Eles tinham a consciência de que estávamos contando a sua própria história e do momento especial que o filme representa em suas vidas.   
 
Como você compara a Mangueira e sua comunidade nesses dois momentos?
São momentos muito diferentes. A violência existia, mas não no nível a que chegamos. Hoje as crianças não podem mais brincar nas ruas e vielas das comunidades. No entanto, permanecem o espírito solidário, a criatividade e a alegria.
 
O Mangueira em 2 Tempos foi exibido fora do Brasil, inclusive ganhou prêmios, como é a reação do público estrangeiro?
Não compareci aos festivais nem poderia porque as sessões não foram presenciais. O fotógrafo Mustapha Barat, responsável pela segunda câmera, convidou um casal de amigos para assistir ao filme por ocasião das exibições no INYFF – International New York Film Festival, e me disse que eles gostaram muito. Suponho que o público estrangeiro tenha apreciado porque o filme foi premiado em três festivais do Estados Unidos. Também enviei o link para três amigos franceses e eles se encantaram. Um deles disse que dançava na cadeira enquanto assistia ao filme.
 
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Alysson Oliveira

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