Entrevistas

Ismael Caneppele extrai o real da ficção em “Música para quando as luzes se apagam”

Por Alysson Oliveira

Publicado em 21/07/21 às 11h44

Julia Lemmertz e Emelyn Fischer, em cena de "Música para quando as luzes se apagam" (Crédito: Divulgação) 
 
Ator, roteirsta, romancista e agora também diretor de cinema, o versátil Ismael Caneppele lança seu primeiro longa, Música para quando as luzes se apagam, um projeto que parte de seu primeiro livro mas, na mesma medida, distancia-se da obra. Em cena, a experiente Julia Lemmertz e uma adolescente da cidade de Lajeado (RS), Emelyn Fischer – ambas com foco em suas buscas: a atriz, como um alter ego do cineasta, à procura de um filme, e a jovem, à procura de si mesma. Em entrevista ao Cineweb, o cineasta fala sobre a experiência de adaptar sua obra, da opção por um formato híbrido entre ficção e documentário e da importância de Julia Lemmertz nesse processo.
 
Como surgiu o projeto do filme?
Música para quando as luzes se apagam começou com a ideia de adaptar para cinema meu primeiro livro lançado. A minha vontade era transformá-lo num documentário de uma busca por dialogar com um livro que também já nasceu com uma característica mais documental. Ele surgiu a partir dos diários de uma menina, trechos esparsos, e eu transformei na minha primeira narrativa longa. Peguei algumas páginas desse diário e transformei o gênero da narradora por um gênero masculino. E a partir daí nasceu esse livro.
Quando eu fui trabalhar na adaptação para o cinema, minha vontade era continuar com essa pegada mais documental, buscando pessoas na vida real que habitam esses lugares por onde o diário transita. Então, minha ideia sempre foi que esse filme não fosse fiel ao livro no sentido dos acontecimentos, mas fiel ao livro no sentido de permitir que ele se contasse por si próprio dessa forma. O documentário foi o formato que eu encontrei para começar a trabalhar nesse filme.
 
Desde o início já imaginava algo híbrido, combinando documentário e ficção?
Sim, a ideia de fazer um filme híbrido sempre foi uma vontade muito grande. No início, a minha vontade principal era que ele fosse metade documentário, metade ficção. Metade sendo contado pelos personagens da vida real e a outra metade seria realmente uma ficção a partir dos acontecimentos do livro. Mas a partir do momento em que eu comecei a trabalhar no projeto e a encontrar essas pessoas, vi que não faria muito sentido. Fazia muito mais sentido eu mergulhar de cabeça no documentário e permitir à narrativa do filme mergulhar por outros caminhos, tomar outra forma, e que isso acabasse gerando uma outra história. Então, logo abandonei o máximo possível o lado ficcional e me permiti mergulhar de cabeça no figurino documental, deixando aqui nascer um filme totalmente diferente mesmo do que é da história que o livro conta.
 
Qual a relação do longa com seu livro homônimo?
A relação entre o longa e o filme principal só diz respeito ao uso de lugares. A parte geográfica que eu escolhi para contar sua história são os mesmos lugares por onde o diário passava e por onde o livro acabou transitando. Meu ponto inicial foi voltar para esses lugares reais. O livro e o filme se passam na mesma localidade, se passam praticamente nos mesmos lugares onde se passam os acontecimentos do diário e onde se passa o livro. Então, acho que o principal ponto entre os dois foi a geografia do espaço mesmo.
 
Como foi a escolha do elenco do filme, em especial a Emelyn Fischer?
O elenco é composto basicamente por pessoas reais que vivem uma vida não como atores na cidade de Lajeado, onde se passa o filme. Eu peguei minha câmera e voltei para esses lugares onde se passa o livro. E ali comecei a procurar por essas pessoas reais. Eu queria encontrar adolescentes vivendo a sua vida nos lugares onde essa menina que escreveu o diário viveu dez anos antes. Dez anos depois de ela ter escrito esse diário, eu volto para esses lugares com as minhas câmeras e ali começo a procurar por esses adolescentes que estão vivendo suas vidas nessa pista de skate, na beira desse rio, nas lanchonetes desse lugar, nas ruas da cidade. Essa foi a forma que eu usei para encontrar essas figuras que iriam ser documentadas.
Depois eu tive um processo de uma necessidade muito forte de mergulhar ainda mais na intimidade da imagem. Mas eu ainda era uma pessoa estranha para ela e para a família dela, então resolvi falar com a Júlia Lemmertz, que é uma atriz muito popular e que de certa forma vive dentro da casa das pessoas através da televisão. Mesmo a Júlia não conhecendo a família da menina, existe uma intimidade já, aquela que ela possui pelo fato de ela ser uma atriz popular de televisão. Então chamei a Júlia para ser como se fosse um alter ego meu. Ela começou a penetrar e descobrir coisas sobre a intimidade da Emily, da família da menina que talvez eu não conseguiria por ser um cara estranho, com uma câmera na mão, tentando descobrir certas coisas. Por mais que a família da Emily fosse muito aberta, foi a Júlia quem conseguiu descobrir detalhes e realmente mergulhar na intimidade da menina e da família dela.
 
E como foi o trabalho com a Julia Lemmertz?
Foi um trabalho de muita confiança, que exigiu uma simbiose muito profunda. A Julia realmente é meu alter ego no filme. Ela teve essa missão de descobrir coisas, de descobrir novidades e trazer lados e possibilidades da Emelyn e da família dela que eu sozinho não conseguiria. Nós somos praticamente a mesma pessoa dentro desse filme. Não é uma relação de diretor com atriz, mas uma relação de dois realizadores, dois artistas criadores,  interessados em um corpo, que é o corpo da Emelyn. A Julia foi uma grande parceira nesse processo. Não teria feito o filme que fiz sem a parceria dela, pesquisando e se interessando pelo universo da Emelyn.
 
Você pensou em procurar um equilíbrio entre uma atriz experiente e uma jovem que nunca atuou sem que houvesse discrepância na tela?
Essa ideia de atuação nunca fez parte desse filme. Então, acho que por isso não me preocupou assim o contraste entre a inexperiência da Emily e a experiência da Júlia. Acho que as duas estavam de certa forma no mesmo grau de inexperiência. A Emelyn, sem nunca ter trabalhado em frente às câmeras. E a Júlia, por nunca ter entrado num filme sem ser atriz. Ela não tinha figurino, ela não tinha roteiro, ela não tinha maquiagem. Ela entrou não para interpretar uma personagem, mas para ajudar o diretor a descobrir coisas, descobrir mais sobre a vida da menina e ajudar esse diretor a contar a história. Então, por isso que acho que não existe uma discrepância entre as duas, porque, de certa forma, tanto a Emelyn quanto a Júlia estavam realizando ações pela primeira vez. Acho que as duas estavam descobrindo um jeito novo de se comportar.
 
O longa teve suas primeiras sessões em 2017, mas temas como a identidade continuam atuais. Como você vê hoje para um jovem lidar com suas questões de identidade no país?
O filme estreou no Festival de Brasília de 2017, depois passou na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e também em vários festivais no Brasil e fora, como o Visions du Réel, na Suíça, pelo Sheffield DocFest, no Reino Unido, passou em Kosovo também. Acho que se pensarmos no Brasil, naquela época, a gente vivia num momento de muita liberdade criativa. A gente tinha a Ancine, ainda não havia esse governo fascista que deu voz a tantos preconceitos e ignorâncias.
Se em 2017, esse filme era visto do ponto de vista da sutileza poética, da metafísica do cinema, acho que, em 2021, com o fato dessas vozes retrógradas terem ganhado espaço, o filme se torna ainda mais político e mais exigente. E acredito que pessoas que não sejam desse universo LGBTQI+, ou desse universo trans, hoje aproveitam ainda mais desse filme, entendem ainda mais a necessidade de se falar sobre isso, e contar essas histórias sobre personagens que não habitam o terreno do socialmente aceito a princípio. Acho que o filme chegou na hora certa, quando temos um governo fascista tentando controlar esse país, e essas vozes, essa forma de ver o mundo e contar essas histórias são de extrema importância. 
 
Você está preparando outro filme?
No momento, estou trabalhando num filme chamado Questão de Pele, que tem a produção da Casa de Cinema de Porto Alegre, com a Nora Goulart na produção. É uma ficção, e será a minha primeira como diretor, e falará dos colonizadores alemães, que vieram para o sul do Brasil no século XIX e como se dá o encontro deles com os novos imigrantes senegaleses, que chegaram nessa região do Brasil nos anos de 2010. O filme se passa em Lajeado, no Rio Grande do Sul, e fala do tempo presente.
 
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Alysson Oliveira

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