Entrevistas

Acqua Movie e o resgate dos afetos

Por Alysson Oliveira

Publicado em 09/06/21 às 11h16

           Lírio Ferreira no set de Acqua Movie
 
 
Mais de uma década e meia depois de Árido Movie, o cineasta pernambucano Lírio Ferreira retoma seu longa de 2005, criando uma espécie de dialética entre o sertão seco e aquele que virou mar, com a transposição do rio São Francisco, em Acqua Movie. Com novos parceiros no roteiro, e novos personagens, ele investiga a dinâmica na vida de um Nordeste profundo, onde estruturas de poder persistem. Nessa entrevista ao Cineweb, ele fala sobre o longa, as diferenças em seu cinema e no Brasil neste período de tempo entre os dois filmes.
 
 
Desde quando fez Árido Movie, havia essa ideia de fazer Acqua Movie? Ou foi um projeto que surgiu depois?
A ideia me veio ao acaso, durante uma pequena viagem que fiz em 2011 pelo sertão de Pernambuco. Estava indo participar de um festival de cinema na cidade de Triunfo, e fui acompanhado por amigos num astral bem parecido com aquele vivenciado no Árido Movie pelos personagens de Selton Mello, Mariana Lima e Gustavo Falcão, quando eles, entorpecidos, adentram o mesmo sertão naquele Opala conversível vermelho. Na verdade, era o primeiro retorno a todo aquele cenário profundo que, desde pequeno, me fascinava e me desconcertava, causando em mim uma sensação muito especial.
Adentrávamos cada vez mais naquele território com muita fumaça no ar e com as bocas secas. Ao ultrapassar um pontilhão na rodovia, tive um alumbramento. Era a primeira vez que me deparava com as obras da transposição das águas do rio São Francisco. De repente, tudo fez sentido ali e, no meio desse turbilhão de emoções, ocorreu-me a ideia de que aquela máxima do Árido Movie ainda continuava, persistia viva e pulsante. Apesar da utopia da possibilidade dela que tudo transforma, o excesso de informação e a falta d’água me cutucava e isso foi o gatilho.
 
Como foi retomar esses personagens e pensar em situações do passado ecoando no presente?
Foi como abrir uma comporta de uma represa. A ideia primeira era fazer uma continuação cartesiana de um filme que, com o tempo, ganhou uma aura cult, embora não tenha tido um grande sucesso comercial. Com o tempo, esse desejo foi ganhando contornos de uma extensão daquela experiência anterior. A essência, a alma, o espírito dos personagens do Árido Movie estariam lá, embora os atores e os personagens pudessem ser outros. Seria uma espécie de viagem kardecista e um retorno proustiano. Era e não era, mas estava sendo...
 
 
         Alessandra Negrini e Antonio Haddag Aguerre, em cena de Acqua Movie
 
Como o Marcelo Gomes e o Paulo Caldas contribuíram para o roteiro, já que eles não estavam no filme anterior?
Eles foram fundamentais em todo o processo de concepção e no desenvolvimento da gênese dos personagens, dos arcos dramáticos, dos arquétipos, dos conflitos, da escolha do tom e da dramaturgia. Confesso que nosso reencontro foi divino e maravilhoso, uma vez que, desde que havia concebido esse retorno, estava extremamente solitário nessa viagem. Com a chegada dos dois, o filme ganhou contornos mais densos e as feridas foram abertas. Eu consegui me desgarrar de possíveis convicções que só me engessavam até ali e faziam o filme não andar e não ultrapassar com profundidade a autorreferência.
O trabalho de criação do roteiro e a pesquisa in loco foram fundamentais para o filme adquirir aspectos importantíssimos que deram mais musculatura à narrativa. Paulo e Marcelo, além de grandes amigos, são excelentes roteiristas da minha geração e seria muito, mas muito chato escrever essa história sozinho. Afinal, o cinema é uma arte de irmãos.
 
Como você compara o Lírio Ferreira que fez Árido Movie e agora o que fez  Acqua Movie?
No Árido..., o que conduz a trama é a solidão do protagonista naquele retorno do filho pródigo. É uma viagem mais interior e solitária. Já no Acqua, o que conduz é a reconstrução do afeto, o que deságua numa viagem mais espelhada e também coletiva. O Árido... busca a imperfeição. O Acqua... busca a redenção. Quanto a mim,  continuo em busca das imperfeições e da redenção mesmo agora, que uso óculos de grau e que pintaram meus cabelos com a tinta branca dos anos.     
   
E o Brasil, como você compara o Brasil daquela época – tanto no que diz respeito à produção de cinema quanto a outras questões – com o de hoje?
Na época do Árido Movie, experimentávamos uma sensação de alteridade e de solidariedade que há muito tempo não víamos. Numa comparação com os dias nefastos que vivemos hoje, estávamos quase que no paraíso. Hoje, paira essa densa nuvem escura. Fomos demonizados, mas não somos os únicos. Esse desgoverno é a própria essência da infantaria militar, não nasceu para o diálogo, para entender e conviver com o contraditório. Semeia o extermínio em todos os sentidos. É o governo das trevas e o seu comandante é o cavaleiro do mal. O Acqua Movie oferece uma porta para essa tormenta num campo que eles não entendem, que é o exercício incondicional do afeto. Pode funcionar, já que eles não podem voar.
 
Onde vocês filmaram, e como foram as filmagens?
Filmamos tanto o Árido..., quanto o Acqua... no cenário profundo do cinema brasileiro que é o sertão, mais especificamente na região que compreende o médio São Francisco e o “polígono da maconha”. Território sagrado de grandes nações indígenas nordestinas, como o povo Truká, os Pipipã e os Pankararus, que sempre habitaram aquela região e onde celebravam seus torés. Para muitos, um território insalubre, árido, seco, com uma vegetação agressiva. Para mim, um vasto território fértil, com uma natureza singular e um povo extremamente solidário, algo que estamos precisando muito nesses tempos pandemônicos que vivenciamos hoje em dia. Acqua Movie é um filme de afeto e a equipe e o elenco, com todo esse afeto, foram quem na realidade fizeram acontecer esse filme.
 
Que tipo de pesquisa foi necessária para o filme?
De todas, a mais importante, sem dúvida, foi a decisão de escrever o primeiro tratamento no próprio ambiente onde a história iria se passar. Passávamos o dia visitando as locações e, à noite, discutíamos, aprofundávamos e escrevíamos a trama. Isso nos deu uma musculatura para trabalharmos as diversas camadas narrativas que se apresentavam. Nos fez costurar melhor e dar um significado único às nossas buscas e às nossas incertezas.
 
Você está trabalhando em algum próximo longa?
Nesse momento, estou finalizando, junto com minha parceira de longa data, a cineasta Natara Ney, um documentário que joga um olhar extremamente afetuoso sobre meu grande e inesquecível amigo, o fotógrafo Carlos Rodrigues Filho, também conhecido como Cafi.
 
Clique aqui para ler mais sobre Acqua Movie
Clique aqui para ler mais sobre Árido Movie















Alysson Oliveira

Outras notícias