Entrevistas

Mortos sem sepultura no Ceará de 1932

Por Neusa Barbosa

Publicado em 31/03/21 às 12h37

 
Sabina Colares e David Aguiar, diretores do filme "Currais"
 
Premiado em diversos festivais nacionais, como a Mostra de S. Paulo, Cine Ceará, Aruanda e Amazônia doc, o filme Currais, de David Aguiar e Sabina Colares, remexe num capítulo doloroso e não suficientemente conhecido na história do país – o confinamento, no final do século 19 e também no século 20, de largas quantidades de retirantes da seca em campos de concentração, no estado do Ceará, em que milhares deles morreram fora da vista do grande público e do registro da imprensa e historiadores.
Híbrido de ficção e documentário, o filme aborda particularmente o ano de 1932, quando uma grande seca, mais uma vez, motivou o deslocamento dos flagelados e seu aprisionamento, em condições subumanas, no interior do Ceará e nas imediações de Fortaleza.
Nesta entrevista exclusiva, por e-mail, a Neusa Barbosa, o diretor David Aguiar dá mais detalhes sobre o projeto, que teve que lidar com a falta de registros e a escassez de sobreviventes do período.
 
Então, em primeiro lugar, queria saber do seu envolvimento pessoal com o tema do filme. Ele é dedicado a Afonso Gomes Aguiar – ele é seu parente? Explique um pouco. 
 
Bem, minha família paterna é do interior do Ceará. Meu pai, a quem fizemos uma dedicatória póstuma, faleceu três meses antes do início das filmagens. Dessa forma, sempre tive um contato muito íntimo com o sertão, apesar de ser de Fortaleza. Sempre escutei muitas histórias sobre a violência dos antigos “coronéis”, seus jagunços e suas oligarquias, as mortes nas grandes secas, como a famigerada seca de 1915, isso tudo me foi, de certa forma, muito íntimo pelo conhecimento passado de geração a geração.
 
1992 foi um ano de uma grande seca, eu ainda na minha infância me deparei com a história de frente. Era uma calamidade. Uma quantidade imensa de animais morrendo de fome. 
Mas o que mais me chocou, naquela época, fora outra coisa: a violência naturalizada das classes sociais dominantes, fosse o político que comprava votos dos miseráveis em escala industrial,  falando abertamente que tinham 10, 15 mil eleitores como animais encabrestados, fossem os médios e grandes proprietários de terra que exploravam o trabalho do sertanejo que, sem alternativa, trocavam sua mão de obra e de sua família inteira, velhos e crianças, por comida e uma casa de taipa, ou como se chama em outros lugares, casa de pau a pique. Era um tipo de escravidão por dívida muito usual no Brasil, mas eu, naquele momento não entendia muito bem tudo isso, apenas percebia a violência. Ainda havia um número imenso de retirantes que fugiam para Fortaleza e outras capitais do Brasil. Eram circunstâncias que presenciei e me marcaram muito. E meu pai nunca me furtou de conhecer tais fatos.
 
A grande mídia sempre tratou como se tudo fosse apenas um problema climático e não uma questão social, em que a seca é um gatilho de exploração de uma gigantesca massa do povo, é uma oportunidade de negócios horrendos e violentos que perpetuam oligarquias e fortunas no Ceará. Até hoje, e de certa forma, quando nos deparamos com a história dos campos de concentração no Ceará, passamos a compreender tudo isso que presenciei na infância.
 
Você e Sabina tomaram conhecimento do tema dos campos de concentração a partir de algum relato pessoal/familiar ou do livro da Kênia Sousa Rios, que participa do seu projeto?
 
Sempre ouvimos histórias sobre a seca de 1915, fosse pela cultura popular ou pelo relato dos mais antigos. Mas foi no contato com a pesquisa da Kênia Rios, professora de história da Universidade Federal do Ceará, que nos deparamos com uma produção de conhecimento realmente preciso e impactante, um conhecimento que praticamente era circunscrito às fronteiras da universidade. A história dos campos de concentração no Ceará era muito pouco conhecida, ainda o é, de certa forma um tabu. Ao mesmo tempo, elucidava uma série de relações de poder torpes que se perpetuam, adaptando-se aos tempos, em nosso estado. Sobretudo os campos de 1932. Logo percebemos que era preciso contar essa história, em seus meandros, para o máximo de pessoas.
 
Em seguida, ainda nos primeiros passos de nossa pesquisa, um amigo, Michel Platini, que é do município de Senador Pompeu, onde foi construído um dos principais campos de concentração da época, nos falou da “caminhada da seca” e dos “devotos das almas da barragem”: era uma peregrinação religiosa que ocorre todo ano, em novembro, naquele município e junta entre 3 a 5 mil devotos que acreditam que os mortos dos campos de concentração da barragem do Patu hoje são almas milagrosas. Ao que tudo indica, não podendo falar sobre os mortos dos campos de concentração, os familiares dos mortos, prestavam homenagens um tanto veladas acendendo velas e oferecendo água e pão, posto que eles morreram de sede, de fome e do trabalho escravo. Toda a região em que foi construído o campo de concentração do Patu é um imenso cemitério de valas comuns, e, logo os sertanejos de vários locais do sertão reconheceram um poder milagroso dos que ali morreram de forma tão sofrida e perversa.  Com o passar do tempo, nos anos 80, a caminhada foi agregada no calendário religiosos local pela igreja católica, mesmo que, ainda hoje, seja uma crença com certa independência de outras crenças religiosas, cristãs ou não.
 
Seguimos então, juntamente com Paulo Ribeiro e Michel Platini, para Senador Pompeu, para realizar a peregrinação da caminhada das almas, conhecer os devotos das almas da barragem. Foi uma experiência transformadora. Daí tínhamos os principais pontos para nossa pesquisa, a ciência e a religião, a história, antropologia e misticismo. Faltava o cinema.
 
Em que medida a escassez de materiais disponíveis sobre o assunto influenciou os rumos que o filme tomou?
 
É preciso compreender que o primeiro campo de concentração identificado pela história é o de 1877-79, mas no Currais nos detemos nos campos de 1932, tanto pela proximidade temporal como pela capacidade administrativa e pelo tamanho que estes apresentaram na década de 30. Era um know-how terrivelmente conquistado pelos poderes que implantavam as concentrações.
 
Quando começamos a realizar o roteiro, a crise político-institucional no Brasil já estava em passos largos, e junto com tudo isso, uma série de revisionismos e negacionismos históricos. Lembro-me de assistir à grotesca entrevista fascistóide do então deputado federal Jair Bolsonaro negando a escravidão negra no Brasil. Logo percebemos que documentos e toda espécie de materiais de arquivos seriam de uma importância crucial. No Brasil, os crimes hediondos praticados pela elite e por militares, sempre são transformados ou em heroísmo ou em ato de profundo altruísmo, ou sumariamente apagados. Com os campos de concentração, estávamos diante de uma crise extremamente emblemática da história da luta de classes no Ceará e no Brasil, luta de classes tão perversamente negada por nossa elite.  Os documentos seriam peça fundamental para quebrar esse ciclo de cinismo narrativo. E dessa forma aguçamos nossos sentidos para os mais variados vestígios, fosse um prego de dormente que encontramos onde deveria haver uma antiga via férrea que transportava os concentrados, fosse um sentimento de luto ou de culpa que sobrevivia nas diferentes personagens. Vestígios, inclusive, ainda muito vivos, atuais. Portanto, não era uma história para ser contada, era uma história para ser vivida, experienciada. Cada material de arquivo encontrado, cada nova personagem ou descoberta na pesquisa nos apontava a necessidade de uma nova abordagem do real. Daí percebermos que essa também era uma narrativa sobre o apagamento histórico e, na medida que oferecíamos ao espectador experienciar um trajeto de descobertas e lacunas, os fragmentos e vestígios, montavam essa história. Dessa forma, vivenciar a busca dos campos de concentração pelo apagamento histórico tornou-se uma estratégia fílmica crucial. Se não podemos contar a história por meio de um vasto arquivo, decidimos contar pelo apagamento, pois se existe apagamento é porque algo muito inconveniente incomodava certa narrativa formada sobre o assunto: não era uma calamidade climática que acometeu dezenas de milhares de sertanejos miseráveis, era a história de um projeto econômico de exploração, ainda em voga, e utilizamos os resquícios desse projeto, o apagamento histórico por exemplo, como supressão dessa mesma narrativa.
 
Por que vocês optaram pelo formato híbrido – documentário/ficção, inclusive recorrendo a atores?
 
Antes de tudo, não nos fazia o menor sentido uma narrativa que se utilizasse de especialistas acerca do tema: é uma história muito visceral e sentíamos a necessidade de estar mais próximos e de fazer com que o espectador também estivesse mais próximo e íntimo dessa história. Uma linguagem que se ativesse apenas ao factual nos parecia pobre demais. Sentimos na própria pesquisa a importância de compreender como os poderes instituídos, fosse o Estado ou o “cidadão de bem” da década de 30, realizavam seus objetivos econômicos e como eles estavam ainda tão presentes nos discursos e nas práticas atuais. Aqui já notamos um ponto importantíssimo: era preciso borrar as fronteiras temporais para percebermos as permanências históricas e constatarmos os fascismos do passado sobrevivendo, mesmo que ocultos, no presente.
 
Nesse caso, tomamos parte de uma série de estratégias: Rômulo Braga viaja pelo sertão em busca de vestígios que comprovem a existência dos campos de concentração. Ele passa a entrelaçar as memórias, mesmo que turvas, dos descendentes dos concentrados, e nossa parte é documentar esses encontros. Ao Rômulo, pouca ou nenhuma informação era dada, ele teria encontros com personagens, vestígios, ruinas, e à medida em que ele se afetava com tudo em volta, buscava compreender ainda mais, descobrir e vivenciar o apagamento histórico, as dores e lutas das personagens. Portanto, não era a personagem Romeu que estava entrevistando as personagens reais, era Rômulo Braga, que afetado pelos fatos descobertos, conversava e interagia com os vestígios. E para algumas das personagens reais não era uma entrevista, era uma conversa, provavelmente dolorosa e catártica com um sujeito desconhecido cujo avô fora concentrado no Campo do Patu. Aqui a fronteira entre a ficção e documentário é borrada em proveito da intimidade, da aproximação do espectador, da compreensão dos poderes em questão, enfim, de uma experiência histórica na qual podemos nos sentir fazer parte.
 
Por outro lado, Dira, personagem de Zezita Matos, tem um outro viés: ela é o encontro com o próprio material de arquivo, seja pelo fato de manusear o maior número de materiais de arquivo, seja pelo fato de Dira praticamente reproduzir depoimentos de sobreviventes dos campos de concentração hoje já falecidos, depoimentos de que tomamos conhecimento por meio de antigas fitas cassetes captadas pela historiadora Kênia para sua pesquisa. Isso também pode ser observado no rítimo da montagem: os materiais de arquivo, só vão surgir com mais ênfase a partir do contato com Dira, que, de certa forma distribui esses documentos.   
   
Como vocês encontraram os sobreviventes? 
 
Nossa primeira visita a Senador Pompeu, em novembro de 2013, tinha dois intuitos: realizar a caminhada da seca e encontrar uma das sobreviventes de 1932, Dona Luiza Gomes Lô. No entanto, quando chegamos à cidade, descobrimos que dona Luiza havia falecido dois anos antes.
 
Mas já naquele primeiro momento nos deparamos com dona Carmela, que apesar de não ter sido uma concentrada, ela morava, na época, ao lado do campo do Patu. Seu pai foi um dos guardas do campo do Patu. Era recorrente que, próximo ao período da caminhada da seca, alguns jornais locais a procurassem. Assim mesmo, foi curioso o fato de quase ninguém da cidade soubesse quem era.
 
No caso específico de dona Francisca Mourão, uma das últimas concentradas vivas, soubemos pela própria secretaria de cultura do estado que ela seria homenageada pelo governador. Então conseguimos o contato de seu neto, Luiz Mourão, que acabou entrando como um personagem do filme. Quando terminamos o período de filmagens, soubemos de outro remanescente do campo que havia falecido recentemente. 
 
Estas valas comuns em que os retirantes foram enterrados fazem parte da periferia da cidade de Fortaleza? Pode-se dizer que o número de mortos jamais será conhecido, por essa falta de registros?
 
Em 1994, quando operários trabalhavam no serviço de saneamento de Fortaleza, encontraram, no bairro de Jacareacanga, um imenso número de ossadas. Logo se descobriu que se tratava de uma vala comum do campo de concentração, ou “abarracamento” de 1877-79. Naquele período, no dia 10 de dezembro de 1878, morreram em um só dia 1004 retirantes da seca que foram isolados e aprisionados. Eles chegavam semimortos pela fome, pelo desgaste da peregrinação e pelo descaso público, e se tornavam alvo da varíola.
 
Nas décadas seguintes, mas sobretudo em 1932, os retirantes que migravam para Fortaleza foram aprisionados nos campos de concentração que eram localizados em regiões mais distantes da capital. Alguns desses, no caso específico do campo do Pirambu, acabaram por formar alguns dos bairros periféricos de Fortaleza, com maior densidade demográfica: o Grande Pirambu. Era prática comum, ao final do dia, enterrar os mortos em valas comuns.
 
Em nível oficial, morreram, 1932, mais de 20 mil pessoas. Este mesmo relatório oficial afirma que em 1932, foram isoladas mais de 75 mil pessoas. No entanto, outros registros oficiais chegam a contabilizar que só no campo do Patu foram aprisionados mais de 60 mil flagelados da seca. Já o ministro da Viação José Américo de Almeida, afirmava que o governo Getúlio Vargas estaria dando suporte para mais de 140 mil operários, ou seja, concentrados que trabalhavam em troca de comida nas obras de construção civil do estado. São números muito discrepantes para se afirmar com convicção quantos foram a óbito no período.   















Neusa Barbosa

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