Entrevistas

“América Armada” e o retrato da violência na América Latina

Por Alysson Oliveira

Publicado em 10/03/21 às 10h24

 
A presença da polícia no Complexo do Alemão, em cena do documentário  (Cred: Pablo Baião/Divulgação)

América Armada é um documentário de contundência e urgência. Dirigido por Alice Lanari e Pedro Asbeg, o longa tem como figuras centrais três pessoas que em seus países, Brasil, México e Colômbia, colocaram-se contra a violência armada e a opressão. Segundo a diretora, a gênese do filme está na tentativa de compreender “quanto a insurgência dos grupos de autodefensa mexicana, que são parte da história daquele país desde os zapatistas mas que estavam recomeçando naquele ano, tinham a ver com a ascensão das milícias cariocas”.
 
No México, a dupla acompanha o jornalista Heriberto Paredes, cujo trabalho é reportar a luta de autodefesa dos grupos indígenas, que foram obrigados a pegar em armas para defender suas terras e vidas do narcotráfico. No Brasil, o documentário coloca ao centro o ativista Raull Santiago, que, com o celular em punho, transmite em lives a ocupação pela polícia do Complexo do Alemão. Por fim, da Colômbia, o filme traz Teresita Gaviria, cujo filho foi assassinado há dezoito anos, tornando-se militante do grupo Madres de La Candelária, que promove o encontro com outras mulheres na mesma situação que ela, que perderam filhos, filhas, irmãos, irmãs e maridos.
 
Um dos principais desafios da dupla foi encontrar pessoas cujas trajetórias pudessem contar muito sobre seus países e a situação da violência local. “Fizemos uma primeira viagem de pesquisa, já com câmera e com o nosso diretor de fotografia. Viajamos os três para a Colômbia e o México, mas também pelo Brasil, onde conhecemos realidades, cenários e pessoas que tinham em comum o fato de lutarem contra a violência armada com outro tipo de armas, que não as armas de fogo. Foi nesta época que conhecemos nossos personagens, e a partir destes primeiro encontros começamos a trocar bem de perto com eles”, explica Lanari. “Eles nos permitiram uma intimidade, um acesso muito grande e se expuseram muito. Tentamos retribuir isso com um trabalho que fosse respeitoso com eles e desse visibilidade às suas lutas”, complementa Asbeg, que também assina a edição do longa.
 
Um ano depois dessa primeira visita, a dupla de documentaristas voltou para começar as filmagens, passando duas semanas acompanhando cada um dos três escolhidos, capturando seu cotidiano, entrando em sua rotina, depois de ganharem a confiança dessas pessoas. “Isso se deu porque apesar de estarmos apostando neste tipo de registro documental que é o da observação, nós passamos um ano nos mostrando também para eles. Era uma relação em que não só estávamos muito curiosos com os processos deles, mas também nos abríamos, contávamos quem nós éramos, quais eram os nossos sonhos, nossos planos. Acredito que foi o processo de desenvolvimento, de termos feito com calma o filme que trouxe a confiança de todos, mantida até hoje como uma parceria, com Beto, Raull e Teresita”, conta a diretora.
 
 
Entrevsita com Raull Santiago, em América Armada (Cred. Divulgação)
 
Em um documentário, explicam, é preciso estar aberto ao inesperado, que acrescenta mais camadas ao filme. Apesar de um processo de desenvolvimento profundo, com conversas com especialistas no tema e laboratórios, como o DOCSP, o DocMontevideo, o BrasilCineMundi e o DocsForum do DOCSMX, Lanari explica que também tinham consciência do imprevisível. “Isso é interessante, é também o que buscamos em um filme realizado sob os preceitos do Cinema Direto: o inesperado. Termos afinado os olhares e os desejos, sendo dois diretores, foi fundamental para que tudo corresse bem.”
 
O inesperado também permeia a parceria entre Lanari e Asbeg. “Durante a filmagem, justamente por ser um filme em que não há certo ou errado (seja em relação ao posicionamento da câmera, à escolha a respeito da hora de cortar, ou qualquer outra decisão rápida) algumas vezes não conseguimos deixar os dois contentes com as decisões. Porque ali as coisas estão acontecendo diante de nós, e talvez esta seja a maior aprendizagem de nossa parceria - como reagir de forma autoral diante do inesperado, sendo duas cabeças, dois corações, dois afetos distintos. Nós somos muito parceiros, grandes amigos e extremamente complementares no olhar,” explica a diretora.
 
Ao realizar o filme, Asbeg conta que fez uma “triste constatação”: “Nós, brasileiros, estamos mesmo isolados, trocamos pouco com nossos vizinhos, com quem temos tanto em comum.” Atualmente, ele prepara as filmagens de uma série para o Canal Brasil sobre a história do jogo do bicho e sua relação com a máfia italiana e com a milícia carioca. Já Lanari está finalizando seu segundo longa documental, produzido pela MPC Filmes, também filmado em alguns países da América Latina, e que aborda a violência contra a mulher e deverá se chamar Nunca Mais Serei a Mesma. Aí ela desenvolve um documentário híbrido, que começou seu processo há 15 anos, e no qual o tempo é matéria-prima fundamental para a narrativa.
 
Embora a pandemia tenha limitado as ações para o lançamento de América Armada, a dupla de diretores encontrou estratégias para que o filme chegue a diversas pessoas e possa gerar debates, especialmente em escolas, presídios, delegacias. “Temos uma parceria com a Muda, que é uma rede de outras economias e agrega gente do Brasil inteiro. Ela tem sido um espaço de trocas sólidas e muito reais, quando pensamos em próximos projetos. Eles estão nos ajudando a viabilizar o lançamento e a distribuição de impacto do filme, mas também nos ajudando a pensar uma nova forma de estar no mundo”, conta Lanari. Para mais informações, acesse http://www.muda-oe.com/
 
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Alysson Oliveira

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