Entrevistas

Diretora Annabel Jankel faz chamado à diversidade

Por Alysson Oliveira

Publicado em 20/01/21 às 12h02

 Holliday Grainger e Anna Paquin em cena de "Fale com as abelhas" (Crédito: Divulgação)
 
 
Fale com as abelhas é um filme sobre aceitações, de si mesmo, da sociedade, do mundo. O cenário é um pequeno vilarejo escocês nos anos de 1950. As protagonistas são uma jovem abandonada pelo marido, que precisa criar o filho pequeno sozinha, e uma médica que volta à cidade depois de ter sido expulsa quando adolescente ao ser pega beijando outra garota. Elas são interpretadas por Holliday Grainger e Anna Paquin, que ganhou um Oscar com 10 anos de idade, por O Piano, em 1993. Nessa entrevista, Annabel Jankel, diretora de Fale com as abelhas, comenta o que a levou a adaptar o romance homônimo e a importância de fazer um filme sobre um relacionamento lésbico em tempos retrógrados como o presente.
 
Como foi seu primeiro contato com o romance original, e o que chamou sua atenção para o transformar em filme?
Eu queria muito fazer uma história de amor. Falando sobre isso com minha agente, ela me apresentou o romance, que eu li em uma noite e fiquei apaixonada por ele. Acredito que não é apenas sensível, como lida com muitos temas que são tabu, como relações familiares gays, raça, aborto, abuso conjugal, desigualdade de gênero e ainda com um fundo visual incrível, as abelhas.
 
Como as duas atrizes principais, Anna Paquin e Holliday Grainger, foram escolhidas?
Eu sempre adorei Holliday Grainger em seus trabalhos anteriores e a encontrei num café, que era perto de nossas casas em Londres. Foi uma percepção instantânea de que ela era perfeita para interpretar Lydia, uma jovem mãe em dificuldades nos anos de 1950 e que descobre um novo tipo de amor. Ela transmitia uma síntese de vulnerabilidade e força e é tão convincente na tela que é impossível parar de olhar para ela. Ela pode encontrar a tragédia e a alegria que habitam a personagem, e sempre conversamos sobre a transformação da personagem, conforme a história se desenvolve.
 
Já Anna, todo mundo sabe como ela é uma grande atriz. Ela estava em Los Angeles, eu em Londres, e conversamos por Skype várias vezes sobre o projeto. É claro que eu conhecia a filmografia brilhante dela, que está em um dos meus filmes favoritos, O Piano, que lhe deu um Oscar de coadjuvante. Ela trouxe uma independência feroz e a sensibilidade necessárias para o papel, e as perguntas dela me fizeram pensar muito sobre o passado e provável futuro da dra Jean. Ela ficou muito empolgada de ter de trabalhar o sotaque escocês e trouxe uma nuance à personagem daquela época.
 
Que tipo de preparação vocês fizeram para atingir a química que se vê na tela entre as duas atrizes?
Foi ótimo termos algumas semanas de preparação antes de começar a filmar. Pudemos ler todo o roteiro juntas e conversar muito para familiarizar-nos com o material e conhecermos melhor umas às outras. Pudemos compartilhar o que esperávamos daquela história. Anna e Holliday tiveram uma grande conexão e química na tela, o que para mim foi emocionante e inevitável.
 
“Fale com as abelhas” é um filme bastante feminino, tanto no assunto como na maneira como lida com ele. O que você, como uma cineasta e mulher, contribuiu com isso? Você acha que um homem poderia ter feito esse filme?
Eu acredito que qualquer gênero ou orientação sexual pode fazer qualquer tipo de filme. Mas, como uma mulher, senti uma afinidade particular e uma sensibilidade específica para esse material. Talvez isso tenha contribuído na maneira como a história foi contada.
 
Quais foram os desafios de fazer esse filme?
O principal desafio foi o cronograma. Foi brutal! Tivemos de reduzir o roteiro de 240 cenas a algo mais realizável de 190. Ainda assim, foi muito desafiado e difícil para todos. O filme também precisava de efeitos especiais tanto com cenários quanto com as abelhas. Por isso tivemos de rodar muito rápido, sem muito tempo para experimentações.
 
Vivemos uma época um tanto retrógrada, na qual filmes retratando relações do mesmo sexo sofrem uma certa resistência. Você teve algum problema em exibir o filme pelo mundo?
Felizmente, o filme foi lançado em muitos países, mas sim, há certos países, organizações, certas sociedades, religiões e até pessoas que discriminam obras sobre relações do mesmo sexo. Mas, como artistas, não abandonamos o caso. Nesse filme, por ser um filme de época, ele também entra nesse gênero de cinema. O que me encoraja é que, muito mais do que no passado, hoje existem muitos cinemas, plataformas, festivais que apoiam obras sobre o assunto.
 
A ascensão de uma direita mais pesada e populista é contraposta pelo aumento da aceitação em muitas sociedades à diversidade. Mas, quanto mais lidarmos com esse tema, melhor. E, nos últimos anos, foram lançados diversos filmes excelentes sobre o assunto.
 
Qual mensagem você gostaria de passar com o longa?
Gostaria de contribuir com o debate, mostrar que estamos numa mudança para melhor, e também transmitir uma mensagem que reconheça isso, que devemos estar abertos à mudança.
 
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Alysson Oliveira

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