Entrevistas

Documentário resgata a história do Festival de Brasília

Por Alysson Oliveira

Publicado em 16/12/20 às 13h47

 
Estreante em longas e documentário, Lino Meirelles define seu documentário Candango: Memórias do Festival, como um filme de resistência, tanto do Festival de Brasília, que chega à sua 53a edição (em inédito formato online), quanto do cinema brasileiro. O longa ficará disponível em streaming de quinta (17) até o próximo domingo (20-12), no site https://canaisglobo.globo.com/c/canal-brasil
 
Na entrevista ao Cineweb, Meirelles fala sobre o processo de produção do filme, que conta com mais de 60 entrevistados, entre eles figuras como Ruy Guerra, Jorge Bodanzky, Anna Muylaert e Rodrigo Santoro.
 
 
O que o levou a fazer o filme?
A ideia surgiu durante o próprio Festival, neste caso o de 2016. Eu estava lá para assistir à Mostra Competitiva inteira, como de costume, e encontrei um amigo, Dirceu Lustosa, que conheci em um curta que fiz em 2015. Ele me chamou para uma sessão inusitada: no dia seguinte, de tarde, reexibiria, para uma comemoração de 20 anos, seu primeiro curta-metragem, Depois do Escuro. Foi seu primeiro trabalho como diretor e a primeira atuação em celuloide do Rodrigo Santoro. Quantas pessoas sabem que o primeiro filme rodado para cinema, do Santoro, foi feito em Brasília? Me perguntei, quantas coisas aconteceram no festival que nem conhecemos? Apesar de uma cobertura jornalística plena, esse lado mais afetuoso não aparecia. O festival de 2016 aconteceu em setembro, e em dezembro começamos a rodar.
 
Quantas horas de material bruto você tinha, entre entrevistas e imagens de arquivos selecionadas? Como foi o trabalho junto com Umberto Martins e Bernardo Serpa para montar o filme? O que os guiou no sentido de construir a narrativa?
Foram 61 horas de entrevistas (que, adianto, serão liberadas online em futuro próximo) e mais de 40 de material de arquivo, ao todo, creio eu. Além dos trechos de filmes comerciais.Decupei tanto no início que até lancei um livro e fizemos uma enciclopédia digital do festival, disponível em www.metropoles.com/fbcb .Eu já havia trabalhando com o Umberto antes e o chamei para o trabalho, mas ele estava indisponível. Tentamos outras coisas, a pesquisa foi sendo conduzida, um tempo depois voltamos a conversar e ele entrou.
 
Umberto trabalha com o cinema e a publicidade brasileira desde a década de 60. Já conheceu e trabalhou com todo mundo e tem uma memória fotográfica. Então, montar com ele mistura fazer filme com aprender histórias do nosso cinema, é uma maravilha. Ele trouxe o Bernardo para o projeto, os dois se mudaram para um apart-hotel em Brasília por 6 meses e montamos o primeiro corte. Depois de um tempinho, com ele maturando na cabeça e trabalhando na liberação de imagens, ainda montamos mais um pouco, desta vez no Rio de Janeiro. O que guia um documentário focado em períodos históricos é, sem dúvida, o material de arquivo.
 
Quais foram os entrevistados ou entrevistadas mais difíceis de encontrar? A Edna de Cássia, protagonista de Iracema, Uma Transa Amazônica, por exemplo, que não seguiu carreira de atriz, foi difícil encontrá-la? 
As mais difíceis de encontrar não estão no filme! Não encontramos a Edna de Cássia na época, infelizmente. Aquele trecho de entrevista vem do documentário Era Uma Vez Iracema, do Jorge Bodanzky, que está incluso no DVD de Iracema. Se tivesse encontrado a Edna, ela teria um destaque maior naquele trecho, sem dúvida.  O que possibilitou o documentário foi a plena vontade dos entrevistados em sentar comigo porque eles sentiam afeto e lealdade ao festival. Eu não era referência de nada, nem tinha um trabalho pra mostrar a eles. Quando comecei, achei que daria um curta, minha ambição era pequena. E iam topando. Entrevistamos o máximo de gente que conseguimos em 3 meses, atirando pra todo lado. Foram mais de 60, e foi pouca gente. Mas eu sabia que se entrevistasse 300 também seria pouco. Algumas entrevistas foram feitas pela Yale Gontijo, a diretora de produção.
 
Há quanto tempo você acompanha o Festival de Brasília? Que descobertas você fez enquanto fazia o filme? 
A partir de 2010 acompanhei a Mostra Competitiva inteira sempre que pude. Antes, eu assistia os filmes esporadicamente. Lembro de 2010 pois foi um ano em que o resultado da premiação foi publicado na internet antes da cerimônia e houve um estardalhaço. Eu já conhecia os grandes clássicos do cinema nacional que estavam disponíveis no comércio, filmes de Joaquim Pedro, Arnaldo Jabor, Leon Hirszman, os do Neville de Almeida. Fazer este filme elevou minha compreensão a outro nível. Sair caçando filmes em tudo o que é lugar. Os limites da distribuição são o grande lamento do cinema nacional. Nem pagando conseguimos assistir a muitos dos clássicos. Os próprios diretores não tem cópias dos filmes para mostrar.
 
         Lino Meirelles, diretor do documentário Candango: Memórias do Festival

 
Esse é seu primeiro documentário e seu primeiro longa. Sentiu muita diferença em relação a trabalhar com ficção ou fazer curtas? 
Só me imaginava fazendo ficção, nunca documentário. Não sou historiador, não sou teórico, mas apenas um espectador do cinema nacional. Quando tive a ideia de fazer um filme sobre o festival, eu não quis deixar passar. É duro fazer um documentário que precisa de tanto material histórico. O aspecto de preservação da nossa cultura está sofrendo muito e não é de hoje. O pessoal da Cinemateca, da EBC, do Arquivo Nacional e muitas outras instituições são heróis, trabalham por amor. E as dificuldades que eles passam e superam diariamente afetam o tipo de memória que podemos guardar e interpretar. Quando se faz ficção, não se sente esta dor porque, quando se termina de filmar, a captação audiovisual está ali, garantida. Quando terminei de filmar as entrevistas para o documentário, é que eu pude partir pra imaginar qual o filme que eu faria.
 
O filme fala ao coração daqueles e daquelas que frequentam o festival há anos, mas como convencer a vê-lo as pessoas que nunca foram ao evento? 
A espinha dorsal do filme é a resistência e a persistência necessárias para se fazer cinema no Brasil através das décadas. Isso as pessoas que trabalham com cinema já sabem de cor e salteado, mas o grande público não. Talvez por isso desconsiderem a necessidade de investimento em cinema. Assim, a decisão de fazer o filme com uma linguagem popular, de fácil compreensão, foi tomada no início. Quem fez parte dessa história pode se divertir com o resgate de imagens e memórias. Quem não conhece, aprende o que acontece nesse universo. Tentei montar uma narrativa com um ritmo que faria qualquer um parar para assistir. Agora, quem possuir o elixir mágico que garanta público, resolve o grande gargalo do cinema nacional!
 
Você está trabalhando em algum outro projeto? 
Com toda esta conversa sobre a necessidade de preservação, me envolvi em um projeto de restauração de um filme da década de 60, como produtor. Espero que faça um barulho e que traga a pauta de recuperação de nosso cinema para a superfície.















Alysson Oliveira

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