Entrevistas

À procura da História em “Todos os Mortos”

Por Alysson Oliveira

Publicado em 23/12/20 às 18h30

Marco Dutra e Caetano Gotardo no set de "Todos os mortos" (Crédito: Beth Gotardo/Divulgação) 

 
Amigos desde a faculdade, no final dos anos de 1990, Marco Dutra e Caetano Gotardo haviam trabalhado juntos diversas vezes, mas nunca dividindo os mesmos créditos. Por isso, o drama histórico Todos os mortos é um filme especial para a dupla. “Eu tinha a ideia de fazer algo sobre as transformações de São Paulo no final do século XIX. Foi um processo muito rápido, violento. Eu queria compreender isso”, diz Dutra, direto de Johanesburgo, na entrevista ao Cineweb via Google Meet.
 
O resultado é um filme aborda relações de classe, racismo e a posição da mulher numa sociedade altamente patriarcal. Gotardo conta que o processo para o filme começou em 2012, com uma pesquisa muito profunda sobre o momento histórico. “Foram várias fontes, livros, relatos pessoais. Queríamos diversos pontos de vista. Chegamos até a um livro de memórias de uma sinhazinha, que o escreveu aos 80 anos, e eram coisas muito fortes sobre a relação delas com os escravos”, diz o cineasta.
 
Todos os mortos teve sua estreia mundial no Festival de Berlim, em fevereiro de 2020, e depois foi exibido no país no Festival de Gramado – em que venceu prêmios para ator e atriz coadjuvantes,Thomás Aquino e Alaíde Costa, e trilha sonora, assinada por Salloma Salomão – e Mostra de São Paulo, onde a produtora do longa, Sara Silveira foi homenageada. O filme tem ao centro uma família decadente formada apenas por mulheres, na virada do século, em sua casa grande, e uma ex-escrava que tenta reunir seus parentes.
 
Uma das principais fontes para a construção do roteiro foram jornais da época, que ajudaram os diretores, também autores do roteiro, a mergulhar no cotidiano, não apenas por conta das notícias, mas na vida das pessoas. “Lemos muita coisa do Correio Paulistano, disponível no site da Biblioteca Nacional. Era a chance de mergulhar no dia-a-dia da cidade, ver as publicidades da época. Sabíamos as datas exatas de cada parte do filme [cada um desses segmentos se dá em torno de um feriado nacional em 1900], e com isso podíamos trazer fatos reais”, explica Gotardo.
 
Fora as fontes impressas, a dupla contou com o auxílio de historiadores e historiadoras que ajudaram a afinar o roteiro, especialmente nas questões dos negros e suas tradições. A primeira delas foi a baiana Goli Gerreiro, que leu o roteiro ainda numa de suas primeiras versões. “Por ela ser muito próxima dos movimentos sociais, pôde nos fornecer vários elementos que enriqueceram o filme, trazendo mais verdade. Ela foi muito propositiva e nos alertou, entre outras coisas, sobre os vários tipos de candomblé, por exemplo”, conta Gotardo.
 
Carolina Bianchi e Mawusi em cena de "Todos os mortos" (Crédito: Hélène Louvart/Divulgação)
 
Outra participação importante no processo de elaboração do filme foi Salloma Salomão, músico, historiador e africanista que fez uma leitura crítica do roteiro bem próximo do início das filmagens. Dutra conta que o artista se envolveu tanto com o projeto que se tornou natural ele fazer a trilha sonora de Todos os mortos. “Ele trouxe uma narrativa musical, pensou nas músicas de maneira a contrapor as da casa grande, basicamente de piano, àquela dos escravos, que eram mais variadas. O trabalho dele foi tão próximo do nosso, que acompanhou até a montagem.”
 
Para os rituais de candomblé, Todos os mortos contou com a consultoria da pesquisadora Ivete Previtalli, que, além de historiadora, é uma mametu, uma espécie de mãe-de-santo do candomblé bantu. “Foi com a ajuda dela que pudemos encenar rituais, fazer tudo direitinho. Sabemos que há algumas práticas que são secretas, por isso foi importante tê-la no set, para nos orientar sobre o que podíamos mostrar”, diz Gotardo.
 
O longa chega aos cinemas nesta quinta-feira (10-12), e estreia nas plataformas digitais em janeiro próximo. “Sabemos que esse é um momento muito complicado para o mundo, e em especial para as salas de cinema. Ninguém sabe o que vai acontecer nas próximas semanas, com uma segunda onda Covid. Por isso, achamos importante estrear agora. Quem quiser, quem puder, vai ver no cinema, senão, em breve poderá ver em casa”, explica Dutra.















Alysson Oliveira

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