Entrevistas

Jeferson De filma o genocídio da juventude negra

Por Alysson Oliveira

Publicado em 03/12/20 às 13h23

 
A questão do racismo sempre foi cara à filmografia do cineasta Jeferson De (na foto acima), idealizador do manifesto “Dogma Feijoada” em 2000.  E não seria diferente em seu novo trabalho, DM-8 – Quando a morte socorre a vida, no qual a urgência do tema está presente o tempo todo. “É um filme sobre o genocídio da juventude negra. É doloroso revisitar as dores de um povo tão forte, mas é a juventude contando uma história e fazendo uma reflexão”, disse em entrevista coletiva pela internet.
 
O filme é protagonizado por Juan Paiva, que interpreta Maurício, um jovem negro que acaba de entrar numa disputada faculdade de medicina. Logo na primeira aula, ele conhece M-8 (Raphael Logam), um cadáver com o qual aprenderá anatomia humana. Mas esse corpo, negro como ele, lhe desperta questionamentos, que o farão buscar a origem desse homem, que morreu de maneira misteriosa.
 
Jeferson, que assina o roteiro com Felipe Sholl, partiu do romance de Salomão Polakiewicz para contar essa história com tantos pontos de contato com o mundo real. “Em muitos momentos pode parecer que a gente está copiando a realidade, mas a gente filmou antes. Como quando um jovem negro foi estrangulado num mercado na Barra da Tijuca.” A entrevista foi feita antes do assassinato de João Alberto Silveira Freitas numa loja do Carrefour, em Porto Alegre, morto em condições parecidas com as de Pedro Henrique de Oliveira Gonzaga, citado pelo diretor, e morto em fevereiro do ano passado no Rio de Janeiro.
 
O ator Juan Paiva concorda com o diretor, e completa: “A realidade é cruel contra a nossa essência, o nosso caráter. Eu sinto medo de andar na rua, não sinto proteção de nenhum lado.” Essa fala ecoa uma das cenas mais contundentes do filme, quando o protagonista é parado na rua por dois policiais de maneira bastante agressiva e gratuita. “É um mundo bem perigoso. Quanto mais buscamos uma melhora, mas desafios vêm”.
 
Outra questão cara a M-8 – Quando a morte socorre a vida são as religiões de matrizes africanas. A mãe de Maurício, Cida (Mariana Nunes) é umbandista, e o filho a acompanha algumas vezes ao terreiro. “Eu não tenho religião, mas minha mãe é evangélica, e sempre quis que eu fosse à sua igreja. Eu me descobri quem sou, e não tenho religião”, confessa o diretor. Já Nunes, que é umbandista, conta que gosta da maneira como o tema é tratado no longa. “Não há nada de estereotipado. Contamos com a ajuda da Mãe Flávia, do Rio de Janeiro, que nos ajudou na composição desse lado das personagens.”
 
O longa traz diversos atores e atrizes consagradas em pequenas participações, e  Jeferson conta que são homenagens. Lázaro Ramos, Zezé Mota, Léa Garcia e Rocco Pitanga, como um dos policiais que aborda Maurício, são alguns dos nomes que aparecem em cena. “Chamei pessoas por quem tenho a mais profunda admiração. A Zezé esteve no meu primeiro longa, e a Léa Garcia, quis homenageá-la por causa do filme Ganga Zumba. Todo mundo foi muito generoso em participar do filme.”
 
Mas as grandes homenageadas são, segundo Jeferson, as mães e avós negras. “A Cida, que é enfermeira, sempre quis que seu filho cursasse medicina, e faz de tudo para o manter na faculdade. Essas mães, como ela, estão no lugar onde o estado não chega.” O longa traz ainda um grupo de mães negras em busca de seus filhos e filhas desaparecidas. O diretor conta que está envolvido numa série sobre a socióloga e vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018. “A mim interessa falar das mulheres negras, essas mães e avós também, como a resistência”.
 
Foto: Divulgação/Vantoen Pereira JR















Alysson Oliveira

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