Entrevistas

"Chega uma hora que o ator tem que estar sozinho com o personagem", diz Marcélia Cartaxo

Por Alysson Oliveira

Publicado em 25/11/20 às 12h31

 
 
         Marcélia Cartaxo em cena em Pacarrete (Crédito: Luiz Alves/Divulgação)

Pacarrete é, de certa forma, uma revisita do diretor Allan Deberton às memórias de sua infância. A personagem-título, vivida por Marcélia Cartaxo, era uma figura conhecida de sua cidade, Russas (CE). “Ela era tida como louca, excêntrica, as pessoas riam dela. Eu era criança e tinha essa visão dela. Depois, tive a oportunidade de descobrir que ela foi bailarina, professora de piano, de educação física nas escolas de Fortaleza. E se você pensar que ela nasceu em 1912, é de se pensar como foi pioneira”, disse o cineasta em entrevista ao Cineweb quando o filme foi exibido na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em 2019. O longa estreia nos cinemas em 26 de novembro de 2020. 
 
Deberton sempre quis fazer um filme sobre essa figura. E quando estava fazendo seu primeiro curta, viu em Marcélia a atriz ideal para a personagem. Desde o convite até a concretização do filme, passaram-se 12 anos. O diretor vê nisso uma vantagem, pois pode amadurecer o roteiro e fazer pesquisa, o que desconstruiu a imagem de medo, conforme diz, que tinha da figura.
 
Para Deberton, apenas Marcélia era a atriz capaz de fazer essa personagem. O impressionante trabalho de composição dela está sendo reconhecido mundo afora: foi premiada em Gramado, no Festival de Cinema Brasileiro em Los Angeles e no Cine Vitória. “Foi um trabalho bastante difícil,” diz a atriz. “Precisei aprender um monte de coisas, a dançar balé, a tocar piano, falar umas frases em francês. Foi muita preparação e dedicação. Eu chegava a dormir com a roupa de bailarina, porque tem uma hora que o ator tem que estar sozinho com o personagem.”
 
                         Deberton ensaia coreografia com Marcélia em cena em Pacarrete (Crédito: Luiz Alves/Divulgação)
 
A própria atriz admite que foi um trabalho arriscado - sua construção de Pacarrete é precisa, mas poderia facilmente cruzar uma linha tênue e cair no caricato. “É uma loucura contida. Tem momentos em que ela explode, mas ela tem seus momentos de medo, de receio. O que é uma pessoa perturbada pelo fato de as pessoas não acreditarem nela.” Marcélia também destaca o trabalho da maquiagem que a envelheceu e levava horas para ser feito. “Eu chegava antes de todo mundo e ficava até mais tarde. Fora isso, também tem a voz dela que é bem diferente. Lembrei de uma menina que eu conheci que falava rouco e tentei imitar, de uma maneira orgânica, claro.” Ao ver o filme pronto, a própria atriz conta que se impressionou. “Ela é muito diferente de mim. Era impressionante me ver na tela, transformada.”
 
Quando Deberton começou a pesquisar sobre Pacarrete em sua cidade, fez entrevistas com pessoas – especialmente mulheres – que a conheceram. “Como eu não era muito próximo da Pacarrete, isso me ajudou muito a desenhar o perfil dela. Era importante filmar na cidade [Russas], e o filme se transformou numa espécie de Russas contra Pacarrete.”
 
O filme ainda não foi exibido na cidade – que não tem cinema – mas diversos moradores foram a Fortaleza, quando Deberton organizou uma sessão extra do filme no Cine Ceará. Entre elas, estavam o homem que inspirou o personagem de João Miguel, o dono de um bar por quem a protagonista tinha um amor platônico. “Foi emocionante. O João Miguel aceitou fazer o personagem sem ter o roteiro pronto. Ele disse que foi algo inédito em sua carreira, mas ele gostou muito da história e queria participar.















Alysson Oliveira

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