Entrevistas

Em série de cinco filmes, Steve McQueen investiga a experiência negra em Londres

Por Alysson Oliveira

Publicado em 10/11/20 às 09h53

 
 
 Cena de Lovers Rock, segundo filme da série Small Axe (Crédito: Divulgação)
 
Por onze anos, o diretor e roteirista Steve McQueen trabalhou em seu projeto dos sonhos: uma série de filmes sobre a experiência dos negros e negras na Inglaterra dos anos 60 até os 80. “Desde que fiz meu primeiro longa, Hunger, concebi um projeto para a televisão. Mas, conforme a desenvolvi, percebi que eram cinco filmes independentes, e, ao mesmo tempo, parte de algo maior, coletivo”, explica. O resultado é a coletânea Small Axe, que estreia na BBC 1 inglesa no próximo domingo. Atualmente,a BBC Studios procura parcerias no Brasil para exibição da obra em TV ou streaming.
 
“Foi muito tempo até conseguir fazer os filmes, mas eles chegam num momento ideal, quando a condição dos negros e negras está sendo discutida, protestos estão acontecendo, e isso começou com a morte de George Floyd”, diz McQueen de Londres, durante uma coletiva via Zoom. O diretor aponta que ao exibir os filmes na televisão, a obra é capaz de alcançar um público ainda maior do que no cinema. “Eu queria que minha mãe pudesse assistir”, brinca.
 
Os cinco filmes são independentes e inspirados em episódios reais sem ser exatamente sobre os episódios reais. “Fizemos uma pesquisa muito grande. Fomos à comunidade West Indian de Londres e recolhemos muitas histórias. A partir daí, os roteiros foram criados”, explica a produtora Tracy Scoffield, que vê a série como um grande desafio. “São cinco filmes diferentes, cinco produções completamente independentes mas, ao mesmo tempo, conectadas.”
 
Os roteiros foram escritos por McQueen, Alastair Siddons e Courttia Newland, e, segundo o diretor, são histórias sobre o futuro, mesmo olhando para o passado. “Os filmes contam de onde viemos, o que conseguimos até aqui e para onde queremos ir. A ideia não é completar lacunas do passado, mas avançarmos na discussão.” Os dois primeiros, Mangrove e Lovers Rock, foram selecionados para o Festival de Cannes – que foi cancelado em 2020 -, e McQueen os dedicou, na ocasião, para George Floyd. “Eles também são sobre o que acontece com os negros na pandemia, o isolamento, a vida em comunidade.” O título Small Axe (Pequeno Machado, em tradução livre) vem de um provérbio típico da comunidade West Indian e significa “juntos somos mais fortes”.
 
O primeiro episódio da série, Mangrove, é sobre o grupo de ativistas Mangrove Nine, que em 1970 entrou em conflito com a polícia durante um protesto. Seguiu-se, então, um julgamento, que durou mais de 50 dias e é considerado o primeiro por ódio racial. O filme recria toda essa história, trazendo Shaun Parkes como Frank Crishow, um dos ativistas, que morreu em 2010. “Ele era um ícone da comunidade, e fazer o filme foi  descobri-lo diariamente”, conta o ator. “Quando li o roteiro, me identifiquei muito com a história, tem muito a ver com a minha própria história.”
 
Lovers Rock, o segundo filme, busca inspiração no reggae. McQueen o define como uma ode ao amor romântico, à juventude que encontrou a liberdade. O cenário é uma casa onde há uma festa, na qual Martha (Amarah-Jae St. Aubyn) e um homem que ela não conhece (Micheal Ward) se apaixonam. Em todos os episódios a música tem um papel fundamental, marcando o tom e o clima, mas nesse é especial.
 
Em uma cena bela e longa, em Lovers Rock, homens e mulheres dançam ao som de “Silly Game”, clássico do reggae romântico de 1979, gravado por Janet Kay. McQueen conta que a música foi escolhida desde o princípio, e “não tinha como ser outra”. Sobre a festa, o diretor se define como “um convidado”. “Era como se eu estivesse filmando uma festa para a qual me chamaram. O clima era muito bom e contaminou tudo. A equipe por trás da câmera acabou sendo tomada por aquilo também. Foi algo espiritual, não acontece todo dia.”
 
John Boyega (o Finn da nova trilogia Star Wars) protagoniza o último filme da série, que irá ao ar na Inglaterra em dezembro, intitulado Red, White and Blue. Seu personagem, quando criança, viu seu pai sendo atacado sem motivo por dois policiais, deixando-o hospitalizado. Então, o garoto resolve que entrará para a polícia inglesa quando crescer, para combater o racismo na corporação. O roteiro é inspirado na trajetória de Leroy Logan, que se tornou um dos principais superintendentes da Força Policial Metropolitana, na qual atuou até 2013.
 
“A vida de Leroy é fascinante. O que mais me chama a atenção é a relação dele com seu pai e foi no que quis me aprofundar. Conversamos muito com Leroy durante o processo de escrita do roteiro, falando sobre suas escolhas para tentar entender as razões por trás delas. Esse paralelo com sua jornada para ser um policial era a tensão que eu queria”, explica McQueen. O filme vem ao encontro de um assunto bastante discutido atualmente: o racismo institucional das polícias em diversos países do mundo, o que, conforme define o diretor, “torna a série atemporal. Não há momento certo para lançá-la. Nem errado.”















Alysson Oliveira

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