Entrevistas

“Açúcar” revê contradições históricas sob prisma do realismo fantástico

Por Alysson Oliveira

Publicado em 27/01/20 às 16h04

Maeve Jinkings, em cena de "Açúcar" (Crédito: Divulgação)
 
 
Não é de se estranhar que o filme Açúcar tenha começado com um sonho: a atmosfera onírica e de fantasia está lado-a-lado com o realismo social e o resgate histórico. “Eu sonhei com um barco a vela atravessando um canavial, como se fosse um mar”, conta Renata Pinheiro, que escreveu e dirigiu o longa com seu marido, Sérgio Oliveira. “Era uma imagem forte, um barco em plena Zona da Mata de Pernambuco. Não podíamos deixar isso passar”, frisa ele.
 
O filme começa exatamente assim, um barco com uma vela vermelha cruzando um canavial enquanto sons de mar podem ser ouvidos. Dentro dele, Bethânia (Maeve Jinkings) encara altiva a paisagem. Ela volta para a casa de sua família, na região, onde funcionou um antigo engenho, hoje desativado e caindo aos pedaços. Lá, ela enfrenta diversos problemas: memórias que insistem em retornar e uma dívida histórica com o povo da região.
 
Pinheiro afirma que o filme segue uma linha de algo como um realismo pouco racional: “Quando a realidade não dá conta de resolver as questões, é o fantástico que toma conta da narrativa.” A dupla de diretores sabia, no entanto, que se devia tomar muito cuidado para combinar de forma orgânica realidade e fantasia. “Foi preciso elaborar bastante para a combinação funcionar e não parecer que são dois filmes brigando entre si.” Esse interesse pelo onírico, ela mesma atesta, já vem de seu primeiro curta, Superbarroco, de 2008.
 
 
 
 Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, roteiristas e diretores de "Açúcar" (Crédito: Divulgação)
 
 
Tudo adquire um tom simbólico no filme, resgatando a história do Brasil. “Não é apenas a cana-de-açúcar que remete ao passado. A embarcação representa a chegada dos portugueses e o começo de uma rotina de exploração da terra e do povo, que dura até hoje”, analisa Oliveira. A dinâmica da casa grande e senzala é também uma força que move a narrativa. Familiares de antigos funcionários vivem próximos à casa de Bethânia, e todas as noites se ouvem cantos de ritos africanos, vindos do centro cultural que fundaram ali.
 
O embate de Bethânia também se dá com duas pessoas – ambas negras – que estão sempre por perto. Zé (Zé Maria), responsável pelo centro cultural e que tenta convencer a protagonista a vender a propriedade a holandeses, e Alessandra (Dandara de Morais), que vai trabalhar para ela como empregada e com quem vive batendo de frente. “A Bethânia é uma personagem que está ruindo, como o engenho, que não se aceita como negra, ela vive num mundo de fábula”, explica Maeve Jinkings.
 
Os diretores observam que o longa foi filmado em 2014, e que a história do movimento e da cultura negra mudou bastante nesses últimos anos, sendo que muita coisa foi desconstruída. “É preciso acabar, por exemplo, com esse mito de que a senhora do engenho era uma mulher boa que cuidava e agradava aos escravos e escravas. A literatura e a telenovela insistem nessa ideia, mas temos que mostrar que elas viviam da exploração e maus-tratos dos escravos”, aponta Oliveira. Para ele, a elite brasileira da época era doente, e esse é um mal que perdura. “As feridas históricas do filme são coisas que nunca se cicatrizaram”.
 
Ao colocar três personagens femininas ao centro – além de Bethânia e Alessandra, outra figura importante é madrinha da protagonista, Branca (Magali Biff), que a visita – a dupla de cineastas introduz a discussão do papel da mulher nessa sociedade. “Nossa cultura é de famílias patriarcais, mas o poder, na esfera doméstica, pertence às mulheres”, afirma a diretora.
 
Premiada diretora de arte, cujo currículo inclui filmes como Zama, Tatuagem e Baixio das Bestas, Pinheiro encontrou num antigo engenho o cenário perfeito para Açúcar. “A gente já conhecia o lugar há muitos anos, queria fazer alguma coisa ali, documentar aquele patrimônio histórico, e calhou bem com o tema do filme: é uma casa ruindo que espelha a situação de sua proprietária que também está ruindo. Não muito tempo depois das filmagens, a construção foi derrubada”, relembra Pinheiro. 















Alysson Oliveira

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