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Em Cannes, no ateliê do humanismo dos Dardenne

Por Neusa Barbosa em 18/05/2011

Outra dessas tardes ótimas de Cannes: passei a de ontem entrevistando Karim Ainouz e Alessandra Negrini, que exibiram na Quinzena dos Realizadores O Abismo Prateado e, logo depois, Cécile de France (foto) e os irmãos Dardenne, diretores do concorrente à Palma de Ouro Le Gamin au Vélo.
 
Já coloquei na cobertura diária do Cineweb ontem as colocações veementes de Karim, um dos melhores diretores brasileiros da nova geração, a favor da maior visibilidade cinematográfica do Brasil – que endosso inteiramente. Alessandra Negrini, por sua vez, é uma atriz muito ousada em suas escolhas em cinema. Famosa pelas novelas globais, ela não precisaria arriscar-se, como se arrisca, estrelando filmes autorais como os de Julio Bressane – ela esteve à frente de dois deles, Cleópatra e A Erva do Rato – e mesmo este O Abismo Prateado, em que ela se submete a uma exposição quadro a quadro de seu rosto e seu corpo para encarnar vividamente uma mulher abandonada.
 
Alessandra, é bom que se diga, é uma atriz sutil e sofisticada no trabalho que realiza no cinema e no teatro – onde, recentemente, eu a vi no elenco de A Senhora de Dubuque, um texto de Edward Albee, ao lado de Karin Rodrigues. Não quero dizer que seu trabalho na TV não seja igualmente bom, simplesmente não posso comentar, porque não acompanho novelas. Mas admiro esse empenho de Alessandra de trilhar caminhos que, a princípio, ela não precisaria trilhar, não tivesse uma ambição maior como artista que só se pode elogiar.
 
A belga Cécile de France, estrela do mais recente Clint Eastwood, Depois da Vida, é a intérprete também de Le Gamin au Vélo, de Jean-Pierre e Luc Dardenne. Sentei-me bem ao lado dela na entrevista, no terraço de um destes grandes hotéis de luxo aqui. Constatei de perto o quanto ela é realmente linda – uma pele e um sorriso do outro mundo – e também dona de um carisma simples, de pessoa de carne e osso, ao mesmo tempo que iluminada por uma certa aura difícil de descrever, mas fundamental numa atriz.
 
Ao vê-la assim, ao vivo, entendo na hora porque os irmãos Dardenne a escolheram – é a primeira vez que recorrem a uma atriz famosa – para encarnar uma espécie de fada da vida real, a cabeleireira Samantha, cuja maternidade voluntária em relação a um menino abandonado de 12 anos (Thomas Doret) é decisiva na vida dele. Melhor ainda, ela é tudo isso e ainda tem uma naturalidade, uma falta de afetação, daquela pose de “eu sou a estrela”, que estraga tantas colegas. Parabéns, Cécile, continue assim!
 
Os irmãos Dardenne são a cara de seus filmes: pessoas ternas, delicadas, que ouvem pacientemente todas as perguntas e respondem com respeito a todas elas, mesmo as que com certeza já ouviram milhões de vezes (por exemplo, sobre como é trabalharem juntos e quem faz o quê no set). E conseguem sempre fazer colocações interessantes, como quando Jean-Pierre defende o final feliz desta nova produção, dizendo que o desespero e o ódio vencerem sempre já virou uma espécie de clichê. É mais uma dupla a cuja lucidez e persistência em fazerem filmes, nesse ateliê minimalista do humanismo, ao lado de Robert Guédiguian e Ken Loach, eu só posso agradecer.

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Comentários:
  • 19/05/2011 - 11h44 - Por Maurício Prezada Neusa, trata-se de uma enorme satisfação acompanhar a sua temporada em Cannes. Você por aí representa todos os leitores do Cineweb. Sugiro apenas que as suas observações, o seu olhar sobre o festival seja acompanhado de fotos suas postadas aqui no blog. Um abraço, felicidades, felizes novidades!
  • 19/05/2011 - 13h37 - Por Neusa Barbosa oi Maurício, obrigada pelos elogios e pelo toque, vou postar fotos daqui!

    abraços!

    Neusa
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