Letras e fotogramas

A Permaescrita de Carola Saavedra

Por em 01/09/2021

Sempre fui fã de Carola Saavedra, desde a 1a vez que li um romance dela, em 2007. Quatro livros e 14 anos depois, deparo-me com sua primeira obra de “ensaios” (explico essas aspas depois), que servem como uma espécie de conversa entre ela suas leitoras/es. Em O Mundo Desdobrável estão questionamentos sobre o mundo do presente, a escrita, a literatura, a família, a arte e a sociedade.
 
A narração aqui – pois até nos ensaios há isso – é questionadora sempre. É um livro sem conformismos, que, ao mesmo tempo, causa desconforto, mas também acalenta. O primeiro texto, “A escrita do fim do mundo”, me interessa particularmente, por ser meu tema de pesquisa. Todos os demais, porém, de uma maneira ou outra, tocam nessa questão. Seria possível pensar o presente, sem abordar o apocalipse?
 
E disso vem: como escrever sobre isso? Em um dos textos, a autora sugere a Permaescrita, inspirada na Permacultura, que seria algo como uma escrita livre, sem contenções de gênero, forma, tema etc. E, aos poucos, percebemos que é exatamente isso que ela faz nessa coletânea – que traz a palavra “ensaios” no título, mas é uma combinação-livre num fluxo criativo que transita entre ficção, documental, poesia, memórias, história.
 
Mais do que tentar figurar o que estamos passando, Saavedra busca uma forma literária do presente. Um único gênero, uma única forma de narrar é incapaz de lidar com o nosso tempo. Talvez nada o seja capaz, mas os textos aqui jogam uma luz, de maneira poética e direta, sobre o aqui e agora. De cinema (Chantal Akerman é uma bela presença aqui) e literatura (Ursula K. LeGuin, também) à questão indígena (tema ligado à pesquisa da autora) nada é alheio a essa escrita.
 
Termino o livro com a sensação de um longo diálogo e muitas questões e certas iluminações sobre o mundo em que vivemos, e a ansiedade de saber o que vem aí. Como essa coletânea irá influenciar os próximos romances da autora. É uma dúvida que espero ser sanada um dia.  

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