Celulóide Digital

A pequena transgressão de Jafar Panahi em Cannes

Por Neusa Barbosa em 20/05/2011

Cannes – Exatamente há um ano atrás, o cineasta iraniano Jafar Panahi era notícia aqui em Cannes. Infelizmente, não por seus filmes, mas porque estava preso e em greve de fome, o que provocou protestos de vários de seus colegas - como o compatriota Abbas Kiarostami e a atriz francesa Juliette Binoche, que por ele verteu uma lágrima na coletiva de imprensa de Cópia Fiel.
 
Passou um ano e a situação de Jafar continua péssima. Ele saiu da cadeia mas está em prisão domiciliar, cumprindo sentença de seis anos, além de proibição de filmar por 20. Apesar disso, ele conseguiu romper o círculo de silêncio que se tenta impor a ele com a chegada por aqui de um novo filme dele, In Film Nist ou, em francês, Ceci N’Est Pas Um Film, parodiando a famosa obra de Magritte (Ceci N’Est Pas Une Pipe). Um filme de guerrilha, autodocumentário, feito com a cumplicidade indispensável de um colega e compatriota, o codiretor Mojtaba Mirtahmasb que, a partir de agora, passa a correr riscos também.
 
Saindo clandestino do Irã, o filme, simples até a medula, retrata o cotidiano solitário e claustrofóbico do diretor de O Balão Branco, O Círculo (Leão de Ouro em Veneza), Ouro Carmim, Fora de Jogo. Sem poder sair de seu belo apartamento e desfrutando da companhia insólita do iguana de sua filha, Igi, Jafar conversa com o colega, que o filma, com amigos e com a advogada, pelo telefone – procurando saber suas perspectivas no apelo que fez ao tribunal para suspender sua sentença – e com um rapaz que veio buscar o lixo, estudante de arte fazendo um bico e com quem o cineasta dá uma pequena saída no elevador, até o pátio de entrada de seu prédio. Uma pequena e documentada transgressão ao seu absurdo cárcere privado.
 
Mas o segmento mais comovente do filme é mesmo quando Jafar tenta encenar algumas partes de um roteiro que não pode filmar. Quando ele constrói com uma fita o cenário do quarto da protagonista e descreve a situação de opressão da personagem (é uma menina que entrou na faculdade de arte mas é trancada pelos pais para não se matricular), impossível não pensar na situação do próprio diretor. Aí dá um nó no peito de quem vê. Como aceitar essa estupidez, esse crime inominável que é privar um artista de sua voz?

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Comentários:
  • 22/05/2011 - 10h41 - Por abel ola neusa,como pode existir ainda no seculo21 paises onde o artista nao pode expressar sua opiniao eum absurdo, um artista tem que se expressar e se comunicar. nao consigo entender uma coisa dessas como o ira,china, coreia do norte poda seus artista para conhecermos sua realidade.
  • 06/06/2011 - 05h13 - Por Henrique Olá Neusa. Eu gostaria de te perguntar se você sabe se Catherine Deneuve participará de algum evento aberto ao público em São Paulo. No site do festival Varilux não consta a presença dela nas exibições de seu filme. Será que ela só estará em eventos fechados? Seria uma pena.
    Obrigado pela atenção,
    Henrique.
  • 06/06/2011 - 17h30 - Por Neusa Barbosa Oi Henrique:
    pelo que eu soube, a Catherine estará na abertura do festival, na sessão do filme novo dela, "Potiche".
    abs
    Neusa
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