Celulóide Digital

Uma tarde com Piccoli, Guédiguian e Ariane

Por Neusa Barbosa em 15/05/2011

Cannes - Num mesmo dia, falei com Michel Piccoli, Robert Guédiguian e Ariane Ascaride. Todos pessoas adoráveis, daqueles raros em que a persona individual e artística não se contradizem. Por isso, a gente gosta tanto de vir a este festival.
 
Já conhecia Guédiguian e Ariane, que entrevistei em São Paulo há alguns anos, quando um amigo, Jorge Roldan, organizou uma benvinda retrospectiva desse cineasta marselhês de origem armênia que, cada vez mais, conjuga política com humanismo. Ariane é sua mulher e uma atriz de alto quilate, sempre merecidamente presente em seu elenco.
 
Na verdade, meu encontro com o casal Guédiguian-Ariane deveu-se à entrevista que fiz ontem à tarde com Piccoli, no Hotel Gray Albion, aqui em Cannes. Passei, aliás, uma hora adorável com o magnífico intérprete de 85 anos (que não aparenta nem um pouco!), ator inesquecível de mais de 100 filmes como A Comilança (de cujo admirável quarteto principal é o único sobrevivente), Themroc e Vou para Casa.
 
Em Habemus Papam, de Nanni Moretti, Piccoli interpreta o Papa em crise que foge do Vaticano para resolver sua crise pessoal. Para obter este papel, candidatíssimo ao prêmio de melhor ator, Piccoli submeteu-se a um teste, a pedido de Moretti. Uma circunstância que não incomoda nem um pouco este verdadeiro monstro sagrado do cinema e do teatro. Ele acha normal que os diretores queiram conferir se os atores, sejam quem sejam, encarnam aquilo que ele tem em mente.
 
O poder dos atores, para ele, é uma lenda. “No set, quem tem o verdadeiro poder é o diretor”, sustenta, sem afetação. Percebe-se sinceridade em cada fala deste homem loquaz, que fala olhando nos olhos seus interlocutores, nós, os felizes cinco jornalistas daquela rodada de conversas – eu, a única brasileira.
 
Para Piccoli, atuar “é uma paixão, mais que uma pretensão”. Assim, ele encara papeis e diretores um atrás do outro. Trabalhou com alguns dos melhores da Europa – Marco Ferreri, Marco Bellocchio, Louis Malle, Raoul Ruiz, Alain Resnais, Manoel de Oliveira. Aliás, no final da conversa revela que filmará em dezembro um novo projeto com o centenário mestre português. “O roteiro está pronto e o dinheiro, entrando aos poucos”, conta, sem dar mais detalhes do novo filme. Que, desde já, esperamos ansiosos.
 
Saindo em estado de graça desta conversa privilegiada, encontro no elevador Ariane, a primeira que reconheço, com sua longa cabeleira avermelhada, e Guédiguian. Cumprimento-os, lembrando a conversa em São Paulo e prometo ver seu novo filme, Les Neiges du Kilimandjaro, logo mais. Consigo cumprir a promessa, felizmente. Porque o que mais angustia, neste excesso de atrações em Cannes, é a falta de tempo para assistir tudo. Angústia “boa”, mas angústia, mesmo assim...

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