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Brasília olhou o novo e colheu novos caminhos e um descaminho

Por Neusa Barbosa em 02/12/2010

No final, a 43ª edição do Festival de Brasília acabou sem que a grande novidade prometida rolasse. Mas é inegável que se apontaram alguns caminhos – e pelo menos um descaminho.
Um saudável respiro está no longa Transeunte, em que Eryk Rocha experimenta a ficção com muitas idéias na cabeça e muita fé nas imagens. A fotografia em preto-e-branco e a montagem pulsante garantem que nos interessemos pelo tumulto interior do homem em seu primeiro dia de aposentadoria, querendo saber como reinventar sua vida (Fernando Bezerra).
Este foi, para mim, o melhor e o mais inventivo filme da seleção deste ano, que colocou em circulação novos diretores – alguns muito bons, caso não só de Eryk como do mineiro Sérgio Borges, que venceu os troféus de melhor filme e direção com seu sensível docudrama O Céu sobre os Ombros.
Essa fronteira indecisa entre realidade e ficção alimenta a produção mineira, com três personagens verídicos reencenando, não se sabe ao certo com que grau de fidelidade à realidade, elementos de suas vidas. De todo modo, os três têm biografias que desafiam a imaginação e merecem, só por isso, o Prêmio Especial do Júri que levaram como ‘personagens-atores’.
Esteve nestes dois filmes o melhor deste festival. Os dois trabalhos me parecem os mais capazes de frutificar em outros rumos, outras buscas. Bem ao contrário do pretensioso, formalista e vazio Os Residentes, de Tiago Mata Machado – que pareceu mais preocupado em entupir seu filme de referências intelectuais e cinematográficas do que em deixar uma fresta para que o público, qualquer público, pudesse penetrar. Os quatro prêmios ao filme me pareceram um injustificável excesso.
A Alegria, da dupla carioca Felipe Bragança e Marina Meliande, peca, até certo ponto, pela mesma ânsia de querer visitar todas as famílias cinematográficas às quais os diretores se sentem filiados. Não é um filme destituído de qualidades. Mas o peso das referências compromete o ritmo, em prejuízo da organicidade da história mesma.
Amor?, de João Jardim, tem seu ponto forte na forte empatia que alguns de seus atores despertam para histórias de amores violentos. Mas as histórias não têm todas a mesma força e talvez sejam em número excessivo (8) para este formato de documentário que busca amparo na ficção.
O pernambucano Vigias, de Marcelo Lordello, pagou o preço da inexperiência, bem como da falta de dinheiro e de tempo para extrair o filme que procura, a partir de uma sadia tomada de posição de enxergar o ‘andar de baixo’ da sociedade brasileira. Aliás, Pernambuco vem ficando na vanguarda deste cinema de observação social, com foco numa realidade contraditória e não raro, criminosa – como demonstrou o premiado curtametragista Felipe Peres Calheiros, e seu potente Acercadacana, que teve o mérito de apresentar ao país a luta da agricultora dona Francisca contra uma grande empresa para manter o usucapião de meio hectare.
Acercadacana foi uma exceção no panorama dos curtas, na média, fracos este ano. Outras exceções de qualidade foram Angeli 24 Horas, de Beth Formaggini, Braxília, de Danyella Proença (apresentando, com muita propriedade, o poeta Nicolas Behr ao resto do Brasil) e A Mula Teimosa e o Controle Remoto, aula do melhor cinema do diretor Hélio Villela Nunes.  

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