Letras e fotogramas

Torto Arado: Um romance sobre consciência de classe

Por Alysson Oliveira em 14/12/2020


Premiado em Portugal (Leya) e no Brasil (Jabuti), Torto Arado é um raro romance unânime. Até agora, não vi ninguém falando mal – o que não quer dizer que não haja, mas é raro –, e todo mundo não só gosta, como também gosta muito. E não é exagero, o livro de Itamar Vieira Junior tem potencial de causar comoção pela sua combinação eficiente de erudito com o popular de maneira orgânica. Na forma, é sofisticado com sua polifonia narrativa, sua dimensão quase mítica e suas camadas de fantasia aliadas a um duro realismo da vida difícil na roça. Junto a isso, o escritor coloca uma trama de apelo direto – “fácil” talvez fosse uma palavra indicada aqui, mas carregaria num tom que não é preciso aqui.
 
As protagonistas são duas irmã, Bibiana e Belonísia, cujas vidas são unidas definitivamente por um acidente – na verdade, está mais para um ritual – na primeira cena do romance. O desenlace trágico de uma brincadeira infantil marca a sangue as primeiras páginas de uma narrativa tingida por vermelho o tempo todo. Há um realismo mágico discreto aqui, não existem “poderes” sobrenaturais, mas uma maneira de encarar a narrativa que transita entre o real e a fantasia de maneira sutil.
 
Dividido em três partes, Torto Arado dá voz ao par de irmãs, e, às vezes, um discreto narrador em 3a pessoa, que contam sua história e de sua família, trabalhando de sol-a-sol numa terra que não é deles. Assim, ao centro, está, no fundo, o despertar de uma consciência de classe:
 
“Um dia, meu irmão Zezé perguntou ao nosso pai [...] por que não éramos também donos daquela terra, se lá havíamos nascido e trabalhado desde sempre”, conta uma das narradoras. “Por que a família Peixoto, que não morava na fazenda, era dita dona. Por que não fazíamos daquela terra nossa, já que dela vivíamos, plantávamos as sementes, colhíamos nosso pão. Se dali retirávamos nosso sustento.”
 
Esse trecho está na reta final do livro, o que indica, então, a longa travessia rumo à percepção da exploração que, como é dito também em outra ocasião, perdura por séculos. É interessante notar também que é o irmão caçula quem faz essas perguntas, o que indica, novamente, um longo caminho de várias gerações até que o problema possa, finalmente, ser formulado. A elas, o pai responde: “O documento da terra não via lhe dar mais milho, nem feijão. Não vai botar comida em nossa mesa.”
 
Torto Arado lida com o clássico impasse entre gerações dentro de uma narrativa, mas Vieira Junior o faz de maneira sutil, trazendo à narrativa mais camadas de compreensão. O momento histórico entra de maneira discreta, aqui e ali, uma menção ou outra, mas fica claro de quando ele está falando. Essa ausência materializa a presença da exploração perene, da história de um povo para quem seu destino parece ser sempre o mesmo desde sempre.
 
Há, no entanto, um elemento utópico aqui, uma espécie de “suborno” que dá uma nota de esperança ao romance. A primeira manifestação clara é quando o povo se une para derrubar o portão de um cemitério onde não podia mais enterrar os seus. Mais tarde, é a percepção de que apenas o coletivo poderá trazer alguma mudança. O despertar da consciência de classe é um despertar coletivo, a percepção de sozinho ou sozinha não será capaz de trazer uma grande mudança.