Letras e fotogramas

Sally Rooney sendo ela mesma - para o bem e para o mal

Por em 22/09/2021


Acho curioso como os títulos dos três romances de Sally Rooney são intercambiáveis. Qualquer um deles poderia se chamar Conversa com amigos, Pessoas normais ou Belo mundo, onde está você? São habitados por personagens que vivem num mesmo universo, em faixas etárias parecidas e com questões existencialistas ou materialistas em sintonia.
 
Aqui, Rooney, novamente, mostra seu controle impressionante da prosa e dos diálogos, assim como sua capacidade de criar personagens. As protagonistas são Alice e Eileen, amigas desde a faculdade que hoje vivem a vida de adultas, como escritora e editora numa revista literária respectivamente. O romance acompanha suas vidas de maneira bem próxima, às vezes, com uma narração que beira o tom documental. Mas elas mais se revelam quando trocam e-mails. São os melhores capítulos do livro.
 
Com mais de 350 páginas, o livro soa um tanto excessivo, um trabalho de edição mais apurado daria mais força ao material, que, em momentos, parece girar em falso. Rooney é uma autora interessada no romance enquanto forma, e aqui, ela deixa isso bem claro. As duas protagonistas parecem como dois lados dela mesma discutindo sobre o papel da literatura num mundo cada vez mais problemático e degradado. Não tem nada a ver com uma visão da arte como algo superior, pelo contrário, parece mesmo mais um sentimento de culpa dela. De qualquer forma, embora aqui, ela não atinja o mesmo nível de Pessoas Normais, as últimas 30 páginas de Belo mundo são genuinamente emocionantes.

Um retrato de opressão e liberdade no romance "O Baile das Loucas"

Por em 15/09/2021


O livro de estreia da francesa Victoria Mas é um romance histórico gótico que combina feminismo e espiritismo numa Paris do século XIX. La Salpêtrière funciona como um manicômio exclusivo para mulheres – essas pacientes são chamadas pelos médicos e enfermeiras de “alienadas”. Conforme se percebe, a maioria são vítimas de abusos físicos e mentais, e internadas pelas famílias que querem se livrar delas. Todo ano, no meio da quaresma, há um baile das pacientes, do qual a alta sociedade parisiense participa como espectadora.
 
A narrativa se passa a poucos dias desse evento, com a chegada de uma nova moça, Eugénie, uma médium de família burguesa, que está descobrindo o seu dom – após ler O Livro dos Espíritos, começa a compreender o que está acontecendo consigo, mas o pai a interna. A outra personagem central é Geneviève, uma enfermeira veterana e linha-dura que tem uma grande tristeza pois perdeu a irmã pequena, que irá se comunicar com ela graças à nova paciente.
 
Mas escreve um romance histórico com figuras reais (Jean-Martin Charcot) e fictícias, mas seu interesse central é no gaslighting e silenciamento das mulheres tachadas como loucas – uma saída bem mais fácil, para a sociedade, do que confrontar e prender os abusadores ou lidar com os gatilhos emocionais que elas enfrentam. O hospício é, dialeticamente, o espaço de confinamento, mas também de liberdade, onde podem ser quem quiserem. A prosa é cinematográfica e rica em detalhes, não à toa foi transformada em filme por Mélanie Laurent.

A Permaescrita de Carola Saavedra

Por em 01/09/2021


Sempre fui fã de Carola Saavedra, desde a 1a vez que li um romance dela, em 2007. Quatro livros e 14 anos depois, deparo-me com sua primeira obra de “ensaios” (explico essas aspas depois), que servem como uma espécie de conversa entre ela suas leitoras/es. Em O Mundo Desdobrável estão questionamentos sobre o mundo do presente, a escrita, a literatura, a família, a arte e a sociedade.
 
A narração aqui – pois até nos ensaios há isso – é questionadora sempre. É um livro sem conformismos, que, ao mesmo tempo, causa desconforto, mas também acalenta. O primeiro texto, “A escrita do fim do mundo”, me interessa particularmente, por ser meu tema de pesquisa. Todos os demais, porém, de uma maneira ou outra, tocam nessa questão. Seria possível pensar o presente, sem abordar o apocalipse?
 
E disso vem: como escrever sobre isso? Em um dos textos, a autora sugere a Permaescrita, inspirada na Permacultura, que seria algo como uma escrita livre, sem contenções de gênero, forma, tema etc. E, aos poucos, percebemos que é exatamente isso que ela faz nessa coletânea – que traz a palavra “ensaios” no título, mas é uma combinação-livre num fluxo criativo que transita entre ficção, documental, poesia, memórias, história.
 
Mais do que tentar figurar o que estamos passando, Saavedra busca uma forma literária do presente. Um único gênero, uma única forma de narrar é incapaz de lidar com o nosso tempo. Talvez nada o seja capaz, mas os textos aqui jogam uma luz, de maneira poética e direta, sobre o aqui e agora. De cinema (Chantal Akerman é uma bela presença aqui) e literatura (Ursula K. LeGuin, também) à questão indígena (tema ligado à pesquisa da autora) nada é alheio a essa escrita.
 
Termino o livro com a sensação de um longo diálogo e muitas questões e certas iluminações sobre o mundo em que vivemos, e a ansiedade de saber o que vem aí. Como essa coletânea irá influenciar os próximos romances da autora. É uma dúvida que espero ser sanada um dia.