Celulóide Digital

Retrospectiva homenageia Fellini em seu centenário

Por Neusa Barbosa em 26/02/2020

Fellini - il maestro


Começa nesta quarta-feira (26/2) e vai até 23/3, no CCBB de São Paulo, a retrospectiva completa dos filmes de Federico Fellini, comemorativa ao centenário de seu nascimento.
 
Entre 12 e 18 de março, a retrospectiva será apresentada também no Cinesesc.
 
Não perca a oportunidade de ver ou rever alguns dos maiores clássicos do diretor, como A Doce Vida e Amarcord, entre tantos outros.
 
E falando nas estreias da semana, o destaque vai para Você não estava aqui, do diretor inglês Ken Loach, e Uma vida oculta, do norte-americano Terrence Malick, dois filmes que concorreram à Palma de Ouro em Cannes em 2019.

"Parasita" e "O irlandês" se destacam na produção internacional

Por Neusa Barbosa em 04/01/2020

Os melhores estrangeiros de 2019


Meu balanço dos melhores filmes internacionais que chegaram às telas e às plataformas digitais no ano de 2019. Parasita e O irlandês se destacam na lista.

Os melhores filmes nacionais no balanço do ano

Por Neusa Barbosa em 02/01/2020

Cinema brasileiro brilhou em 2019


Neste vídeo faço um balanço dos melhores lançamentos brasileiros no ano de 2019, em que mais de 150 títulos chegaram aos cinemas e às plataformas digitais, com grande repercussão nos principais festivais internacionais, como Cannes e Berlim.
 
Bacurau é um dos destaques nacionais de 2019 que alcançou grande repercussão aqui e no exterior.

Vi o capítulo final da saga "Star Wars" e gostei.

Por Neusa Barbosa em 24/12/2019


O filme Star Wars - A ascensão Skywalker encerra as aventuras criadas por George Lucas em 1977 passando o bastão dos velhos heróis, a Princesa Leia e Luke Skywalker, aos novos, o trio Rey, Finn e Poe, na eterna luta da Resistência contra a opressão da Primeira Ordem, não sem algumas surpresas.
 
Outra boa estreia da semana é O paraíso deve ser aqui, do diretor palestino Elia Suleiman, que retoma seu habitual personagem quase mudo e observador, deixando para trás a Palestina para ir a Paris e Nova York, onde seu olhar atento capta situações paradoxais, engraçadas e polêmicas.
 
Leia a entrevista com o diretor Elia Suleiman

Candidato russo à vaga no Oscar é a boa estreia da semana

Por Neusa Barbosa em 14/12/2019


A semana tem duas boas estreias: "Uma mulher alta", de Kantemir Balagov, candidato russo a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro, já premiado em Cannes; e "Synonymes", de Nadav Lapid, o grande vencedor do Urso de Ouro em Berlim 2019.

Números da Ancine comprovam expressão da produção audiovisual em 2018

Por Neusa Barbosa em 26/11/2019


Os números do cinema brasileiro em 2018, divulgados pela Ancine, mostram o acerto das políticas públicas dos últimos anos e os riscos da paralisia atual da agência.

A voz singular de Mambéty

Por Neusa Barbosa em 28/06/2018


Djibril Diop Mambéty. Seus filmes são uma descoberta que vale um mundo, que o cineasta africano descortina a partir de imagens muito especiais e na sua mistura muito peculiar, encharcada das cores e sons da África.
 
Como na sua inacabada trilogia sobre pessoas comuns – ou “petit gens”, como ele definia -, que incluiu apenas dois médias muito singulares, Le Franc (1994) e A Pequena Vendedora de Sol (1999), mas também no seu longa inicial, Touki Bouki/A Viagem da Hiena (1973), poderosíssimo em sua evocação da metáfora que compara o destino dos bois no matadouro ao de outro pequeno cidadão, o jovem Mory (Magaye Niang), que alarga o seu reduzido espaço no mundo pela via da marginalidade. Ao seu lado, está uma garota, Anta (Mareme Niang), que também desafia os lugares tradicionais de seu gênero, com seu cabelo curto, calças compridas e túnica lisos, quase masculinos, e a própria condição de estudante num meio marcadamente rural.
 
Mory é meio um motoqueiro easy rider, incomodando com sua presença os colegas da namorada – que o tornam alvo de um bullying que remete a uma tentativa de linchamento, uma espécie de morte simbólica que o identifica como um outsider sem esperança de integração ou pertencimento. Essa marginalidade do protagonista está por trás das aproximações, feitas por alguns críticos, de Mambéty ao Jean-Luc Godard de Acossado. A diferenciá-los, além de muitas outras evidências, é importante notar a preocupação do diretor senegalês em assinalar os signos de uma identidade cultural africana nesses seus seres profundamente vitais – não só os protagonistas, como os coadjuvantes (a mulher a quem Mory deve dinheiro; o milionário explorador de jovens pobres). Os coadjuvantes nunca são meramente secundários nos filmes de Mambéty, constituindo não só a uma espécie de contexto a que os protagonistas devem continuamente reportar-se como guardando valor inerente, individual, em si mesmos.
 
Revisitando Dürrenmatt
Essa máxima vale também para o seu segundo e último longa, realizado depois de um intervalo de 20 anos, Hienas (1993), em que o cineasta lança o próprio olhar para a obra do suíço Friedrich Dürrenmatt, A Visita da Velha Senhora, para compor uma versão impregnada das tintas e da temperatura africanas. Uma referência primal, primitiva, começa já nas imagens iniciais, que retratam um bando de elefantes, vistos igualmente, de outra perspectiva no final. Aves de rapina, hienas e uma coruja serão incorporados ao cenário da terrível vingança de Linguère Ramatou (Ami Diakhate) contra seu antigo amor, Dramaan Mareh (Mansour Diouf), por uma não menos temível traição no passado.
 
É uma história que envolve os dois velhos amantes, mas não dispensou nunca a participação coletiva da cidadezinha a que pertencem, aqui Colobane, terra natal do diretor – que participa numa ponta, como Gaana, o antigo juiz da corte local. Essa coletividade, composta de camponeses, donas de casa, soldados, mendigos, músicos e também as simbólicas figuras do prefeito (Mamadou Mahouradia Gueye), do sacerdote (Calgou Fall) e do professor (Issa Ramagelissa Samb), é fundamental para compor a essência de uma trama que interroga as instituições do Estado, os costumes, a cultura e a religião, assim como questiona a submissão ao poder do dinheiro e do consumismo ocidental.
 
A rua sempre faz parte desses filmes de um colorido todo próprio, cuja câmera não desvia o olhar do lixo, dos casebres desengonçados nem das vestes estropiadas de vários personagens - apenas para reafirmar no momento seguinte o quanto eles não podem ser reduzidos a essa pobreza aparente, declarando sua complexidade, sua luta por dignidade. Momento típico dessa característica é a reação da menina protagonista de A Pequena Vendedora de Sol, Sali Laam (Lissa Balera), quando a acusam de roubo, que se desvitimiza por sua própria iniciativa. Pode-se alegar, talvez, que eram tempos mais generosos ou mais ingênuos, mas, de todo modo, é claro o que Mambéty quer dizer – essa criança pobre e paraplégica não precisa de nenhuma piedade, apenas de respeito.
 
É importante não esquecer, igualmente, a dimensão simbólica que o cineasta é capaz de conjurar. Ele acessa todo um imaginário mítico de seu pedaço da África, o Senegal, que subsiste mesmo diante do embate desigual contra o colonialismo europeu, que se impõe escorado numa ideia de pretensa superioridade da civilização branca, impregnada de cristianismo.
 
A África dos filmes de Mambéty revela um continente em construção, tentando emergir do colonialismo e ostentando todas as cicatrizes de países explorados até o bagaço, onde infraestruturas mínimas simplesmente inexistem. Nesse contexto, é possível sonhar com utopias individuais ou mesmo aspirar a ter um cinema próprio – com todas as carências que o próprio Mambéty e outros enfrentaram. A contradição aqui é que ao mesmo tempo que se luta contra os aspectos tóxicos da herança colonial persiste a dependência externa dessa mesma metrópole francesa para o próprio financiamento dos filmes.
 
Isto de maneira alguma impede que o cinema de Mambéty seja reconhecido fora das fronteiras africanas, comparando-se, por exemplo, a saga do casal de A viagem da hiena a Bonnie & Clyde, de Arthur Penn, Sem Destino, de Dennis Hopper, Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni ou Terra de Ninguém, de Terrence Malick – o que comprova o quanto o senegalês era conectado ao espírito de seu tempo, contando com um imaginário e estilo peculiares para traduzi-lo em seus termos.
 
Retrato de Ouedraogo
Neste sentido de afirmação da identidade africana, tem relevância o curta Vamos conversar, vó? (1989), que constitui um pequeno retrato dos bastidores da filmagem de Yaaba, de Idrissa Ouedraogo, de Burkina Faso, outro realizador guerreiro do continente, outra voz dissonante no coro dos que procuravam invisibilizar as possibilidades de expressão cinematográfica africana e que morreu no começo de 2018. Apesar da falta de legendas deste curta – supostamente, por vontade do próprio realizador -, é possível conectar-se com a comunhão da trupe africano-francesa, captar momentos de conflito nas filmagens, que envolvem uma velha senhora e duas crianças.
 
Não há como relevar a força da natureza local, a luz intensa, o calor, a poeira, as tempestades (o caminhão atolado na lama), a necessidade de cruzar rios, colocar o tripé da câmera na água. Filmar na África é tudo isso mas é também poder ver Ouedraogo dar uma cambalhota, como uma criança, e a foto de toda a equipe do filme como uma grande família multirracial junto a um muro onde se lê o título, Yaaba.
 
Em suma, mergulhar nestes filmes de Mambéty, tão oportunamente trazidos ao Brasil no 7º Olhar de Cinema de Curitiba, é uma oportunidade de encantamento, bem como de procura da conexão que une, para sempre, o Brasil à África.

Um fundo de apoio às diretoras

Por Neusa Barbosa, de Cannes em 16/05/2018


Cannes – A marcha das 82 mulheres poderosas pelo tapete vermelho de Cannes, no sábado (12), lideradas pela presidente do júri principal, Cate Blanchett, continua repercutindo, felizmente não só com efeitos midiáticos – embora eles também sejam importantes quando se pensa na urgência de mudar mentalidades. Mas a ministra da Cultura francesa, Françoise Nyssen, deu um passo adiante, anunciando a criação de um fundo de financiamento de filmes preferencial para realizadoras – e não só francesas, atenção! – que deverá estar funcionando até setembro. Ainda não se sabe qual o montante destinado ao fundo, que virá do CNC (Centre National du Cinéma e de l’Image Animée), órgão estatal encarregado do cinema.
 
O fato é que a medida vai representar um passo importante para aumentar o espaço feminino na realização, visando a uma maior paridade. Como lembrou a ministra, nem sempre é difícil às diretoras realizarem seu primeiro e segundo filmes e sim o terceiro, o quarto... e elas costumam ter acesso a orçamentos 1/3 menores do que os colegas homens.
Enfim, no ano do #Me Too, do combate ao assédio sexual (por aqui, também houve mobilização neste sentido, com um número de telefone sendo disponibilizado para denúncias), essas medidas são mais do que importantes. Mas a igualdade, sempre é bom lembrar, é uma tarefa permanente. Não começa nem acaba aqui.
Foto: Reuters

Vida de jurada em Cannes

Por Neusa Barbosa, de Cannes em 12/05/2018


Cannes – Quem nunca veio ao festival, geralmente o associa somente ao charme das estrelas e à elegância dos figurinos do tapete vermelho. Mas o cotidiano de centenas de pessoas que vivem o festival por dentro é bem outro. A rotina dos mais de 4.000 jornalistas que cobrem as inúmeras sessões, distribuídas por salas próximas, mas diferentes – geralmente, quem vem pela primeira vez, acaba se confundindo entre os nomes de lendas do cinema, como Grand Thêátre Lumière, Salle Bazin, Salle Buñuel, e também a homenagem musical da Salle Debussy.
 
Venho aqui desde 2001 e diria que esse nem é o maior problema. O desafio está em ter a credencial da cor certa, tipo “abre-alas” em qualquer entrada e prioridade em qualquer fila – o máximo é a branca (que, ironicamente, lembra a popular “chapa branca” brasileira), acessível a poucos mortais, críticos veteraníssimos (muitos franceses) e representantes dos grandes jornais do mundo (sim, por aqui, a imprensa escrita ainda manda mais).
 
Mas, logo abaixo, a rose pastille (que tem uma bolinha amarela estratégica e fundamental do lado direito), torna sua vida bem boa por aqui – este ano, eu, que tinha a rosa, ganhei a minha pastilha, junto com a credencial passe-livre de jurada FIPRESCI. Em 2018, integro o júri da Federação Internacional dos Críticos, o que é uma experiência ótima, mas também soma estresse e correria a um cotidiano que nada tem de fácil, se você leva em conta que há uma média aproximada de 20 filmes pelo menos em cada na seção (competição, Un Certain Regard, Quinzena dos Realizadores, Semana da Crítica). Por isso, o júri, é claro, tem que se subdividir. Eu fiquei na sub-seção da Quinzena e da Semana, com uma lista de novos realizadores (14).
 
Então, vida de jurada é tudo, menos fácil. Você entra na frente na sala porque tem que ver mais filmes. Ontem, sexta (11), vi cinco. E as pessoas em geral esquecem que críticos também têm que dedicar algum tempo de cada dia a escrever seus textos, em salas apinhadas de colegas na mesma situação, correndo contra o relógio e o fuso horário. Isso se não tiverem também que acompanhar coletivas, marcar entrevistas.... Ah, se sobrar uma horinha, comer alguma coisa e dormir. Cada minuto conta. Mas, no final de cada edição, o saldo é muito bom. Haverá tempo para descansar depois!

Abaixo os longuinhos em Berlim

Por Neusa Barbosa em 15/02/2018


Parece mentira que, a esta altura da história do mundo, ainda se tenha que levar a sério coisas fúteis como trajes de gala para sessões de tapete vermelho de festivais de cinema. Por isso, é mais do que bem-vindo o novo movimento feminino, agora no Festival de Berlim 2018, liderado pela atriz Anna Brüggeman, #NobodysDoll – ou seja, ninguém é boneca de ninguém – e que consiste apenas no seguinte: as atrizes, diretoras, técnicas ou convidadas dos filmes participantes se unem para recusar a obrigatoriedade de usar vestidos longos, justos, brilhantes, decotados e saltos altos para essas ocasiões. Cada uma vai vestida do jeito que quiser, inclusive de traje de gala, mas não por imposição.
 
Como este será o 68º. festival, só dá para dizer: demorou, né?
 
Claro que as alemãs não estão sós nessa parada, até porque outro grande festival, Cannes, tem um protocolo bem mais rígido nessa questão do figurino – eu mesma, como jornalista, já não pude assistir a um filme lá há alguns anos, em plena tarde, porque era uma sessão de gala e claro que eu estava de jeans e não “a caráter”. Isso acontece por lá e já rendeu protestos de artistas, como Julia Roberts, Kristen Stewart e Sasha Lane em 2016, quando elas entraram descalças no Palácio dos Festivais em solidariedade a convidadas do filme Carol que tinham sido impedidas de entrar na sessão por conta de não estarem de saltos altos.
 
A filosofia por trás do #NobodysDoll, no entanto, vai mais fundo do que um mero protocolo de vestuário – critica na veia a objetificação das mulheres pelo figurino, criando uma embalagem que valorize apenas seu aspecto físico. E aí o movimento alemão se filia diretamente, guardadas as devidas proporções, ao #MeToo e ao Time’s Up, que reverberaram na cerimônia dos Globos de Ouro, em janeiro, e sua sucessão de atrizes e também atores vestidos de preto em solidariedade na cruzada contra o assédio sexual em Hollywood.
 
Tudo indica que este ano esta discussão veio para ficar. Os festivais de cinema vão ter que encontrar espaço para que ela aconteça e vamos torcer que, ao contrário dos saltos altos, longos esvoaçantes e smokings, não seja apenas uma moda passageira.