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Sabotage: Metralhando com palavras

Publicado em 30/01/03 às 19h13

imagem O verbo que fortalece como vitamina, contamina a nova velha escola como o vírus ebola. *
Mauro Mateus dos Santos ou o rapper Sabotage, 30 anos, largou o revólver e fez da palavra sua arma. "Ele é sangue bom. Tem rimas muito boas e usa uma métrica que é só dele. Além do mais, sua atitude ajuda a quebrar o estigma de que rapper não fala com ninguém", comentou Xis sobre o amigo em entrevista à revista Trip, antes de uma bala certeira liquidar a carreira e a vida do promissor rapper.

O escritor e roteirista Marçal Aquino, com quem Sabotage trabalhou no filme O Invasor, agora lembra: "Ele era uma criatura boa. Tinha consciência do que representava para as pessoas." Aquino ainda recorda de um episódio quando se encontraram em uma hotel em Porto Alegre: "Ele veio me contar, emocionado, que no aeroporto de Cumbica um faxineiro o havia reconhecido, largado o balde e o escovão e dito: 'força negão, você está falando pela gente' ".

Um bom lugar se constrói com humildade, é bom lembrar. Aqui é o mano Sabotage. Eu quero o lado certo. Brooklin. Sul. Paz eu quero.
As letras de seus raps pregavam a paz e com elas o músico queria "mostrar que o tráfico não é único caminho". Em entrevista concedida a Cineweb, no ano passado, ele ajudava a esclarecer seus objetivos com a música: "Eu queria ter estudo pra ensinar os outros a ler, escrever e entender as pessoas. O crime não compensa, as drogas pesadas acabam com uma vida e a molecada tem é que ficar na escola, estudar para ter uma chance".

Mais um garoto da Favela do Canão, Sabotage cresceu em meio ao tráfico da Zona Sul e, aos quinze anos - idade em que também conheceu o pai -, já trabalhava para o tio Monarca como "soldado" de morro. A marginalidade lhe rendeu uma internação na Febem e duas prisões, uma por porte de arma e outra por tráfico de drogas. "Eu dava trabalho para esse pessoal aqui da área, era terrorista, andava armado, ninguém chegava perto de mim", declarou ao jornal Estado de S. Paulo.

O rap é minha alma, deite-se no chão e abaixe sua arma.
Incentivado por traficantes e assaltantes, Sabotage abandonou o crime e passou a investir no talento para a música, paixão que cultivava desde pequeno. Ouvia no rádio AM da mãe, que morreu do coração após a prisão do filho mais velho, músicos como Chico Buarque, Caetano Veloso, Pixinguinha e Zeca Pagodinho, um de seus ídolos.

Foi também nessa época que ganhou do irmão mais velho, morto na chacina dos 111 presos do presídio do Carandiru, o apelido de Sabotage. "Quando eu ia pras festas, meu irmão ficava preocupado e não queria que eu fosse. Eu ia escondido. Um dia ele descobriu e disse pra minha mãe: 'Ele tá indo escondido, tá fazendo sabotage'. Todo mundo gostou e o apelido pegou".

O rap é compromisso, não é viagem.
No começo dos anos 90, Sabotage formou um grupo de rap, mas o primeiro CD só veio em 2001. Rap é Compromisso foi produzido pelos Racionais MC´s, lançado pelo selo Casa Nostra, de Mano Brown, e depois distribuído pela Sony. Com a música não só deu as costas para o crime como abraçou uma nova arte, o cinema.

O diretor Beto Brant assistiu ao vídeo de um show do grupo de rap RZO em que Sabotage fazia uma participação e o chamou para fazer um teste para uma ponta no filme O Invasor. "O teste era uma conversa e ele me ganhou no ato. Acabei lhe pedindo uma música, Aracnídeo. Por iniciativa própria, o Sabotage compôs também o rap do fim, O Invasor, uma letra incrível que eu adorei e acabei encaixando enquanto sobem os créditos finais", contou Brant que também dirigiu o viodeoclip do rapper Um Bom Lugar. "O filme deve muito a ele", completou Marçal Aquino.

O rapper, principal peça na construção dos diálogos do protagonista da trama, o matador Anísio, assina cinco das 14 faixam que compõem a trilha sonora do filme, premiada nos festivais de Brasília e do Recife. Os acordes de O Invasor chegaram aos ouvidos do cineasta Hector Babenco, que convidou Sabotage para participar de Carandiru, filme inspirado no livro do médico Dráuzio Varella e que deve ser lançado em abril. Nele, o rapper interpreta o bandido Fuinha, que chegou a conhecer. Na verdade, Sabotage tinha certa intimidade com o Carandiru pois, além do irmão, estava no presídio o tio Monarca que, no filme, é chamado de Majestade. Além do papel, Sabotage fez um rap em parceria com Babenco

Na Zona Sul, somente Deus anda ao meu lado.
A carreira era promissora, ainda mais após os dois prêmios Hutus recebidos em novembro, nas categorias de personalidade do rap e revelação, mas foi interrompida na manhã de 24 de janeiro. Morreu mais um na sul! O músico havia deixado a mulher, a auxiliar de cozinha Maria Dalva da Rocha Viana, 28 anos, na trabalho e caminhava pela Avenida Professor Abrahão de Morais quando foi surpreendido por quatro tiros. Sabotage ainda foi levado ao Hospital São Paulo mas não resistiu. Fica a mensagem. O que nos resta é espalhar que Deus existe e a hora é agora porque a paz plantada aqui irá dar flor lá fora.

* As frases em itálico foram extraídas dos raps de Sabotage.

Foto: Ana Vidotti/Cineweb

Cineweb-30/1/2003

Luara Oliveira


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