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François Truffaut, entre a revolta e o humanismo

Publicado em 04/06/12 às 17h01

Filho rejeitado de mãe solteira, ladrão, prisioneiro aos 16 anos - denunciado por dívidas pelo próprio pai adotivo -, desertor do serviço militar. Ele tinha todas as condições para tornar-se um bandido. Mas, aos 26 anos, este marginal tornou-se o diretor de cinema François Truffaut, inaugurando, com Os Incompreendidos (59), a Nouvelle Vague, movimento que renovou o cinema francês e teve ecos em todo o mundo, inclusive no Brasil.

A violência que povoou suas duas primeiras décadas de vida esgotou-se, felizmente, na crítica de cinema. Truffaut foi um dos mais virulentos e detestados críticos de seu tempo, disparando seus petardos contra os nomes mais consagrados do cinema francês nas páginas da revista Cahiers du Cinéma - um marco da imprensa que completou 50 anos em 2001.

Foi para esta redação que o levou o crítico André Bazin, que ele conheceu na militância do cineclubismo - a mesma atividade que o induziu ao furto e às dívidas que o levaram tão precocemente ao encarceramento num centro para menores.

A vida intelectual salvou-o da marginalidade. Encontrando na arte uma válvula de escape, dominou a inquietação permanente, que assumiu em sua obra cinematográfica a forma de uma enorme paixão por seus personagens. Ele sabia, como ninguém, pegá-los no colo e fazer a platéia olhar em seus olhos e reconhecer neles algo em comum, por mais inusitados que fossem - a assassina de A Noiva Estava de Preto, a louca apaixonada de A História de Adèle H ou o sedutor compulsivo de O Homem que Amava as Mulheres.

Truffaut deu ao cinema o mesmo amor que devotou por suas atrizes: Jeanne Moreau, estrela de Jules e Jim (61), Françoise Dorléac, de Um Só Pecado (64), Claude Jade, de Beijos Proibidos (68), Catherine Deneuve, musa de A Sereia do Mississippi (69) e O Último Metrô (80), Fanny Ardant, de A Mulher do Lado (81) e De Repente, num Domingo (83), seu último filme.

Por coincidência, este homem que tanto amava as mulheres só teve filhas, três no total: Laura e Éva, com a primeira mulher, Madeleine Morgenstern, e Joséphine, com a última, Fanny Ardant. Seu único filho homem foi cinematográfico: Jean-Pierre Léaud, seu ator-fetiche nos cinco filmes do personagem Antoine Doinel, Os Incompreendidos, Antoine e Colette (episódio de Amor aos 20 Anos, 1962), Beijos Proibidos (68), Domicílio Conjugal (70) e O Amor em Fuga (78). Neste que foi seu verdadeiro alter ego, Truffaut refletiu todos os traumas da infância e adolescência, perturbadas especialmente pelas difíceis relações com o pai adotivo que lhe deu seu sobrenome, Roland Truffaut, e com a mãe, Janine - que morreu sem jamais conhecer suas netas.

Para compensar estas carências pessoais, Truffaut formou uma equipe bem familiar no trabalho, que manteve para a maioria de seus filmes: o produtor Marcel Berbert, a roteiristas Suzanne Schiffman, o diretor de fotografia Nestor Almendros e pouquíssimos outros.

Mesmo assim, houve rupturas inconciliáveis neste círculo íntimo. A mais famosa de todas foi com o colega Jean-Luc Godard. Os dois trabalharam juntos na redação da Cahiers du Cinéma, tornaram-se amigos e colaboradores também no cinema. Foi de Truffaut, aliás, o primeiro esboço do argumento do célebre Acossado (59), primeiro longa-metragem de Godard.

Os anos 60 terminaram por separá-los. Truffaut ocupava então uma posição peculiar: era ao mesmo tempo consagrado e independente, dono de uma obra muito pessoal, mas fazendo parte da indústria. Godard, por sua vez, optara por um cinema experimental e engajado politicamente, ficando mais à margem. As diferenças acentuam-se em 1973, quando Truffaut lança A Noite Americana. Godard escreve ao amigo uma carta provocativa, que começa assim: "Provavelmente, ninguém vai chamá-lo de mentiroso, portanto, faço-o eu". A crítica dura não impede Godard de, poucas linhas depois, intimar o colega a financiar um filme seu: "...Você deveria me ajudar, para que os espectadores não fiquem pensando que só se pode fazer filmes como você". Truffaut responde que considera a carta "nojenta", critica o elitismo de Godard e consuma-se o rompimento.

Depois de passar anos atacando Truffaut abertamente pela imprensa sem que o outro reagisse, Godard tenta uma reaproximação em 1980. Foi o ano do espetacular sucesso de O Último Metrô, que arrebatou dez César. Godard envia a Truffaut - e também a outros colegas - uma carta propondo um reencontro em sua casa, para uma avaliação do cinema francês, com o intuito de escrever um livro. Desta vez, Truffaut não se faz de rogado e responde, também por carta: "Quer dizer que você conseguiu botar os tchecos, os vietnamitas, os cubanos, os palestinos e os moçambicanos nos trilhos e vai dedicar-se agora à reeducação do que resta da Nouvelle Vague... Quer dizer que não nos censura por ter nos chamado de malfeitores, crápulas e pestilentos...". Truffaut encerra a carta sugerindo um título de baixo calão para "o próximo filme autobiográfico" do ex-amigo (Um merda é um merda). Numa entrevista ao Cahiers du Cinéma, faz o acerto de contas final: "Godard integra o grupo dos invejosos compulsivos". E nunca mais os dois se falaram.

Fora da França, também, Truffaut acabou sendo descoberto. A barreira da língua e a típica identidade francesa de obras como Beijos Proibidos, O Garoto Selvagem e Domicílio Conjugal não foram obstáculo ao seu sucesso nos EUA. Prestigiado, Truffaut chegou a ser cogitado para dirigir Bonnie & Clyde (67) e recusou uma proposta da Warner Brothers para refilmar Casablanca em 73. Nesse mesmo ano, ganhou o Oscar de filme estrangeiro por A Noite Americana. Quatro anos depois, atuou em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg. "Eu queria um homem com alma da criança", explicaria o diretor americano. Acertou na mosca.

Por ter sido ele mesmo uma criança traumatizada, Truffaut incorporou para sempre entre suas causas preferenciais a proteção à infância abandonada. O tema voltaria também no filme A Idade da Inocência (76). A liberdade de expressão e de imprensa e o direito à insubmissão no Exército seriam suas outras bandeiras de toda a vida, pautada por uma profunda desconfiança em relação à política. Mas sua amizade com a americana Helen Scott, sua intérprete na famosa série de entrevistas com Alfred Hitchcock, e sua militância contra a guerra da Argélia terminaram por situá-lo mais à esquerda.

Truffaut também viveu intensamente o ano de 68, seja em defesa da permanência de Henri Langlois à frente da Cinemateca Francesa, seja vendendo a publicação La Cause du Peuple nas ruas, ao lado do filósofo Jean-Paul Sartre.

Em 81, apoiou a eleição do socialista François Mitterrand, mas logo em seguida recusou-se a receber a Legião de Honra. Continuou sempre a evitar o engajamento. "O cinema será sempre a última das preocupações de um governo, seja ele qual for", dizia. Talvez por isso nunca fez filmes que pudessem receber o selo de políticos.

Cuidadoso como era da interpretação de sua intimidade, teria escrito sua biografia, se tivesse tido tempo. Ele não pensava em outra coisa, tomando notas, revendo cartas e fotografias, gravando entrevistas com o amigo Claude de Givray no ano de 1984. Antes que tivesse tempo de concluí-la, um tumor cerebral esgotou suas últimas forças, com apenas 52 anos de idade. Sua inimitável delicadeza para retratar a condição humana faz com que sua falta seja sentida até hoje.

Neusa Barbosa


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