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Woody Allen, o mestre do humor sofisticado

Publicado em 12/08/04 às 18h22

imagem Um dos grandes criadores do cinema moderno, Woody Allen chegou aos 69 anos com seu prestígio intocado e ainda detentor do título de o mais novaiorquino dos diretores - o que não é pouco, tendo em vista que a concorrência direta contempla cineastas do alto nível de Martin Scorsese e Spike Lee. Mas Lee e Scorsese não navegam com tanta intimidade nas águas da comédia - um gênero que Allen domina como ninguém.

O que torna Woody Allen tão especial? Em primeiro lugar, ele faz cinema para adultos - uma raridade hoje em dia nos EUA, onde o mercado cinematográfico está dirigido majoritariamente para adolescentes. Essa vertente adulta está no centro da temática de seus filmes: sexo, mulheres, casamento, busca do amor, do autoconhecimento (é conhecida sua obsessão por terapia, que ele fez por várias décadas), angústia de viver, medo da morte. Uma frase dele nesse tema: "Não tenho medo de morrer, só não quero estar lá quando acontecer comigo". Mais uma daquelas suas observações afiadas que servem para comprovar a perícia verbal que ele aperfeiçoou em muitos anos como redator de piadas para colunistas de humor e de programas humorísticos e especialmente como comediante de shows individuais em teatros, de onde saltou para o cinema - onde desembarcou depois dos 30 anos de idade.

Outra característica comum aos filmes de Allen é sua localização no universo urbano - as referências à vida campestre, quando existem, são sempre irônicas. Um caso recente: quando Billy Crystal o convida para uma temporada em sua casa de praia em Desconstruindo Harry (1997), na hora Woody menciona a possibilidade de tubarões. Uma piada de cinema que anda muito próxima do espírito do diretor na vida real, um apaixonado por grandes cidades, Nova York em primeiro lugar, mas que encontrou em seu coração um lugar especial para Paris e Veneza.

Cinema de autor

O mais notável em Woody Allen é fazer cinema de autor num país em que a sétima arte é sinônimo de linha de montagem - e que, não por acaso, tem a maior indústria cinematográfica do mundo, a mais especializada e a mais exigente de resultados na bilheteria. Como ele consegue?

Não há nenhuma receita mágica. Em primeiro lugar, Woody faz filmes baratos, ao menos para os padrões de Hollywood - ou seja, em torno de US$ 20 milhões por filme. Em geral, esses filmes se pagam, ainda que somando sua renda no exterior, onde ele tem o respeito quase unânime da crítica e um público cativo, ainda que não seja gigantesco (caso da França e até do Brasil). A fidelidade dessa platéia se explica pois Allen tem um padrão seguro de qualidade. Antes de sair para ver um novo filme seu, já se pode contar de imediato com roteiros cuidadosamente engendrados, diálogos afiados, um espetacular bom gosto nas trilhas sonoras, sempre recheadas de finas jóias do jazz, especialmente dos anos 40 e 50, além de uma precisa direção de atores. Não é raro, até, ver um ator normalmente opaco sob a batuta de outros diretores revelar novas facetas sob seu comando.

Para manter essa qualidade que não sofre sérios abalos de filme a filme - embora a nem todos se possa se atribuir o selo de clássicos - Allen costuma contar com uma equipe de colaboradores constantes, caso de seus produtores Jack Rollins e Charles Joffe, a diretora de casting Juliet Taylor, o desenhista de produção Santo Loquasto, o diretor de fotografia Carlo di Palma, o figurinista Jeffrey Kurland e a montadora Susan Morse.

Não deixa de ser notável, também, que o diretor mantenha seus custos relativamente tão baixos trabalhando com atores do primeiro time, como Julia Roberts, Sean Penn, Helen Hunt, Hugh Grant, Dan Aykroyd e Leonardo DiCaprio. Para ele, grandes atores trabalham por bem menos do que seus cachês habituais, ou seja, a taxa mínima exigida por seus sindicatos, justamente porque a experiência de trabalhar sob sua liderança costuma valer muito a pena. Ele mesmo diz que os grandes atores participam de seus projetos "como quem faz caridade".

Obter essa generosidade dos atores é, aliás, uma característica que ele compartilha com outro vétéran terrible do cinema americano, Robert Altman - também criador de uma obra muito peculiar que costuma arranjar orçamentos para seus filmes em parte no exterior, de onde vêm, igualmente, boa parte da renda deles.

Trabalho criativo

Por que os atores gostam tanto de trabalhar com Woody Allen, apesar de sua esquisitice ao fornecer-lhes apenas as suas próprias falas e não o roteiro do filme todo? Ele os encoraja a usar seu instinto criativo, incentiva improvisações e não raro incorpora contribuições de seus intérpretes. Se um ator erra uma fala, tem a humildade de incorporá-la ao script, se julgar que ficou melhor do que aquela que escreveu. Em geral, o diretor fala pouco (quando aprova a interpretação, é claro) e dá o sentido geral do que quer de uma cena. Depois, convida o elenco a entrar no espírito. Ou seja, trabalha numa espécie de brain-storming coletivo, em tempo integral. Como sempre sabe muito bem o que quer, todo esse processo leva pouco tempo, em média dois meses de filmagens - o que é um outro fator de economia, permitindo que seus orçamentos não saiam dos trilhos.

Como diretor, ele não trabalha sob encomenda, como fazem seus talentosos colegas Scorsese e Francis Ford Coppola. Para manter sua independência, Woody costuma também eventualmente trabalhar como ator em projetos que não são seus - caso de Os Impostores (1998), de Stanley Tucci, fazendo a voz do protagonista no desenho animado FormiguinhaZ (1998) e no inédito no Brasil Picking Up the Pieces, do mexicano Alfonso Arau. Assim fazendo, pode continuar dando-se ao luxo de manter a sua olímpica distância de Hollywood. Sobre a meca do cinema, ele mesmo disse um dia: "Hollywood não tenta me conquistar, nem eu quero isto. Meus filmes não são o que a grande indústria busca. Aqui em Nova York, no entanto, faço o que quero - meus filmes não são muito caros. Em Hollywood, eu não teria a mesma liberdade."

O máximo de intimidade que ele mantém com a grande indústria hollywoodiana é sua associação recente com o produtor Steven Spielberg, um dos donos do estúdio DreamWorks, com quem cerrou fileiras depois da ruptura com sua ex-produtora e amiga há mais de 30 anos, Jean Doumanian.

Seu famoso apelido nasceu há exatamente 50 anos, quando ele tinha apenas 16 e acabara de tomar a decisão profissional que mudaria sua vida, ou seja, desistira de tornar-se farmacêutico (uma mudança que seu falecido pai sempre lamentou, como confessou no documentário Wild Man Blues). Em troca, resolveu tornar-se escritor cômico, para o que precisava de um apelido. Allen, que é seu nome de batismo, virou sobrenome, e Woody, ninguém sabe direito de onde veio - o diretor não admite ter homenageado nem o compositor Woody Herman nem o famoso personagem Woody Woodpecker (o Picapau dos desenhos animados).

Tudo o que se pode saber com certeza é que o apelido serviu perfeitamente para recobrir um personagem que se tornou um ícone da comédia a partir dos anos 70, alguém que nem precisa de uma roupa específica, como o Carlitos de Charles Chaplin, nem do bigode de Groucho Marx - muito embora os óculos e uma impiedosa autogozação sejam suas marcas registradas. A agilidade verbal de Allen é uma característica, aliás, que deve muito a Groucho, uma das admirações declaradas do diretor, como se vê na seqüência final de Todos Dizem Eu Te Amo.

Longe da escola

A metralhadora verbal tão típica de Allen foi calibrada pacientemente em décadas como redator de piadas para colunistas de jornais, bem como para programas de TV e, depois, como roteirista de seus próprios shows no teatro. Num deles, o Blue Angel, ele foi visto numa certa noite de 1964 pela atriz Shirley MacLaine e pelo produtor Charles Feldman. Aí começou sua carreira no cinema, quando Feldman encomendou-lhe o primeiro roteiro, para o filme O Que é Que Há, Gatinha ? - onde Allen também atuou.

Ironicamente, uma inteligência e uma cultura tão amplas quanto as do diretor não foram adquiridas em nenhuma escola - Woody nunca fez nenhuma faculdade, embora tenha até começado por duas vezes. Sua formação é basicamente autodidata, embora tenha recorrido a aulas em assuntos específicos, como literatura, com professores particulares, isto quando já era um cômico de sucesso e muito bem-pago.

Suas obsessões, fora o cinema, são esportes e o clarinete - que ele toca religiosamente nas noites de segunda-feira, no bar do Carlyle Hotel, a ponto de já ter até esnobado uma noite de Oscar, em 1978 (quando ainda tocava no Michael's Pub e nem se deu ao trabalho de ir buscar o Oscar de melhor diretor que venceria por Noivo Neurótico, Noiva Nervosa). Uma irreverência que a Academia de Ciências e Artes Cinematográficas só deve ter-lhe perdoado em 2002, quando ele compareceu pessoalmente à premiação, no seu melhor estilo, disparando uma piada por segundo.

Para quem acha que Allen é alienado, já que não costuma falar muito em política, é bom lembrar que em 1986 ele proibiu a circulação de seus filmes na África do Sul, que ainda vivia sob o regime do apartheid. A grande verdade é que Woody costuma sair a campo por causas que ele considera justas. Em 1990, uniu-se a Scorsese e a Stanley Kubrick para fundar a Film Foundation, organização dedicada à preservação da memória do cinema americano.

Ultimamente, este diretor que parece impermeável a mudanças no seu estilo, tem dado sinais de estar abandonando sua folclórica aversão a badalações. Começou em novembro de 2001, quando ele concordou em aparecer patinando no Rockfeller Center, num anúncio destinado a promover a volta dos turistas a Nova York, depois dos atentados de 11 de setembro. Mas, em se tratando de um novaiorquino de carteirinha como ele, até que não foi tanto sacrifício. Depois disso, ele compareceu pessoalmente tanto à cerimônia do Oscar quanto à abertura do Festival de Cannes 2002, aceitando um convite que os franceses lhe faziam há anos. Não deve ter sido tanto sacrifício. Afinal, muito pior foi a super-exposição de sua vida íntima durante o escândalo da separação de Mia Farrow, em 92, quando se apaixonou por sua enteada Soon-Yi, que fora adotada por Mia em seu casamento anterior, com o músico André Prévin. Woody casou-se com Soon-Yi, sobreviveu à turbulência e retomou o melhor de sua forma criativa, mais recentemente numa fase de comédias bem leves, com Poucas e Boas (1999), Trapaceiros (2000), O Escorpião de Jade (2001), Dirigindo no Escuro (2002) e Igual a Tudo na Vida, que abriu em 2003 o 60o. Festival de Veneza, pela primeira vez com a presença do próprio diretor. Depois disso, ele já completou Melinda and Melinda e finaliza novo filme, ainda sem título, que deve ser lançado em 2005. Quase chegando aos 70, ele nem pensa em parar.

Curiosidades:
Ocupação: Ator, diretor, roteirista, músico
Pais: Martin Konigsberg (morreu aos 100 anos, em janeiro de 2001) e Letty Konigsberg
Irmã: Letty Aronson (uma de suas produtoras)
Ex-mulheres: Harlene Rosen, Louise Lasser (atriz), Diane Keaton (atriz) e Mia Farrow (atriz)
Atual: Soon-Yi Prévin
Filhos: Satchel (hoje rebatizado como Seamus, com Mia Farrow); Moses e Dylan (hoje, Eliza), adotados com Mia; Bechet e Manzie Tio (adotadas com Soon-Yi)
Principais prêmios: Oscar de melhor roteiro original por Hannah e suas Irmãs (87); Oscar de melhor diretor e roteiro original por Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1978); Urso de Prata pelo conjunto da carreira no Festival de Berlim/75; Globo de Ouro de melhor roteiro para A Rosa Púrpura do Cairo (1985); Prêmio FIPRESCI no Festival de Cannes/85 para A Rosa Púrpura do Cairo; César de melhor filme estrangeiro em 1986 para A Rosa Púrpura do Cairo e em 1980 para Manhattan; Prêmio pelo conjunto da carreira do Director's Guild of America (1996); Leão de Ouro pelo conjunto de carreira no Festival de Veneza/95.

Neusa Barbosa


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