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Robert Guédiguian, o cineasta do homem comum

Publicado em 03/08/04 às 12h35

imagem O "cinema de autor", que ganhou seu nome e sobrenome na França, tem hoje um de seus mais nítidos representantes em Robert Guédiguian, um cineasta sereno e politizado que marcou seu caminho de forma bem peculiar. Nasceu em 1953, num meio operário, multirracial e repleto de imigrantes, o bairro marselhês de l´Estaque, filho de um estivador de origem armênia e de mãe alemã. Estudou sociologia na Faculdade de Aix-en-Provence, onde conheceu Ariane Ascaride, que se tornaria sua mulher e atriz de todos os seus filmes. O interesse pela política foi cultivado bem cedo, a partir do ambiente operário de sua origem, onde a sazonalidade das principais atividades econômicas foi sempre fator de instabilidade, desemprego e subemprego crônicos, alimentando as lutas sociais.

Guédiguian mesmo militou nas fileiras do Partido Comunista Francês - entre 1968 e 1980 --, abandonando a política partidária justamente para aderir ao cinema, uma arte em que ele nunca deixou de mostrar-se engajado. Último Verão (1981) inicia a série de 13 filmes que compõe uma cinematografia debruçada sobre histórias miúdas, cotidianas, de homens e mulheres comuns empenhados numa feroz luta pela sobrevivência material mas que nunca desistem da busca da liberdade e de sonhos individuais quase sempre contrários ao molde uniformizante da globalização. Onze destes filmes, quase todos inéditos no circuito brasileiro, compõem a primeira grande retrospectiva da obra do cineasta no continente americano, entre 3 e 15 de agosto no CCBB de São Paulo, e de 17 a 22 de agosto, no CCBB do Rio de Janeiro, com curadoria e produção executiva de Jorge Roldan. O cineasta e sua mulher visitam o Brasil pela segunda vez (ele veio a Porto Alegre como convidado do Fórum Social Mundial, e depois a São Paulo, em 2002, e ela veio um ano depois, a São Paulo e ao Rio, para o lançamento do filme Marie-Jo e seus Dois Amores).

Curiosamente, Guédiguian foi descoberto pelo grande público no Brasil e na França simultaneamente. Foi no ano de 1997, quando seu sétimo filme, o drama romântico Marius e Jeannette, atingiu um inesperado sucesso popular na França e obteve duas indicações para o maior prêmio cinematográfico do país, o César, nas categorias de melhor filme e melhor diretor. Este foi também seu primeiro filme exibido no Brasil, ainda assim não comercialmente e sim dentro da programação da 21ª Mostra Internacional de Cinema.

Falando de sua aldeia, Guédiguian fala do mundo. Marselha é sempre o microcosmo de um universo que só tem de pequeno a aparência. Sempre urbanos, trabalhadores, contemporâneos, com a lente de aumento que cada filme lhes coloca, seus personagens tornam-se protótipos de pessoas do mundo inteiro. Outra singularidade é o fato de trabalhar sempre com o mesmo trio de atores, Ariane Ascaride, Gérard Meylan e, mais recentemente, Jean-Pierre Darroussin, que por esse motivo são chamados de "família Guédiguian". O tema da imigração, que lhe está próximo a partir de sua família, freqüenta quase todos os seus filmes, como o contundente A Cidade está Tranqüila (2000), em que um romance interracial, a luta de uma mãe para salvar a filha drogada e o sonho de um garoto de tornar-se pianista são algumas das histórias. Sul Vermelho (1984) acompanha as lutas e desencantos de três gerações de descendentes de italianos. Em Dinheiro Traz Felicidade (1992), os filhos de imigrantes formam a população de um bairro atormentado pela ação de gangues rivais de traficantes de drogas, enquanto uma associação de mães e o padre local procuram organizar a população.

Sonhos reencontrados estão no epicentro de Ki Lo Sa (1985), em que o vigia de um parque revê os amigos de infância e se defronta com o que cada um fez dos seus antigos projetos de vida. Em Deus Vomita os Mornos (1989), um escritor envergonhado das obras que lhe deram sucesso abandona tudo, volta à sua Marselha natal e revê a utopia de igualdade política que embalou sua juventude às vésperas do bicentenário da Revolução Francesa. O enredo de À Vida, à Morte (1995) gira em torno do decadente cabaré Le Perroquet Bleu, seus fragilizados freqüentadores e trabalhadores. No Lugar do Coração (1998) segue o drama do casal de namorados Clim e François depois que ele, um jovem negro, é acusado do estupro de uma mulher sérvia.

A comédia tempera outros títulos, como Ao Ataque!, instigante narrativa centrada em dois roteiristas, que armam uma trama em torno de uma oficina mecânica cujos donos, uma família de origem italiana, enfrentam um empresário fraudador e o assédio de banqueiros. Este enredo, aliás, foi transformado na primeira história em quadrinhos assinada por Guédiguian, que supervisionou pessoalmente sua execução.

A paixão desmedida freqüenta Marie-Jo e seus Dois Amores, filme que participou da competição oficial em Cannes em 2001, e que narra o dilema de uma mulher dividida entre o amor pelo marido e um homem de seu passado.

Cineasta com muito a dizer, Guédiguian transformou em estilo a aparente desvantagem de morar e trabalhar fora da capital Paris, fixando em Marselha seu centro de produção, o que não impediu seu trabalho de circular mais amplamente dentro e fora da França. Hoje, sua obra de vinco social e humanista, engajada sem ser partidária, é muitas vezes comparada à do inglês Ken Loach. O próprio Guédiguian, em entrevistas, assume as influências de outros cineastas do passado, caso de Pier Paolo Pasolini, Rainer Werner Fassbinder - de quem admira a liberdade artística - bem como John Ford, Robert Bresson, Luis Buñuel, Yasujiro Ozu, Satyajit Ray e dos contemporâneos Jane Campion, Abbas Kiarostami e Nanni Moretti.

Cineweb 2-8-2004

Neusa Barbosa


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