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Michael Moore: posicionamento político sem meias palavras

Publicado em 30/07/04 às 19h59

imagem Pela aparência, Michael Moore não é um sujeito que as pessoas levariam a sério. Gordinho, com roupas desleixadas, cabelo mal cortado e um eterno boné, ele também não tem o protótipo de uma pessoa que inspire medo. Então por que os dirigentes e a direita americana o odeiam tanto? Talvez porque Moore queira tirá-los do poder e para isso está usando seu novo filme, o premiado documentário Fahrenheit - 11 de Setembro.

Pelo comportamento dos eleitores, registrado nas pesquisas eleitorais, a estratégia tem tudo para dar certo. O crítico Richard Goldenstein, do Village Voice, disse que o presidente George W. Bush, que concorre à reeleição, já é "carta fora do baralho", e Rupert Murdoch [dono do conglomerado FOX, que inclui um canal de notícias totalmente pró-Bush] "deveria começar a bajular a nova administração." A própria Fox News, de Murdoch, disse que o filme é "uma obra realmente brilhante, e um filme que membros de todos os partidos políticos deveriam assistir sem falta".

Em sua newsletter, Michael Moore disse estar surpreso com esse comentário vindo da Fox News, de Murdoch, e não é para menos. Afinal, logo no início do filme, o documentarista deixa bem claro como esse canal de TV ajudou Bush a fraudar as eleições de 2000.

Recentemente, o cineasta publicou um texto em seu website pessoal convidando o presidente a assistir ao filme, quando estreasse em Crawford, onde Bush está gozando as férias de verão. E, com muito ironia, Moore disse que aproveitará a sessão para agradecer a Bush por seu "trabalho" no filme. No final, nem o presidente, nem o documentarista compareceram à sessão. Moore alegou que sua presença causaria muitos tumultos e atrapalharia o verdadeiro objetivo do filme. Mas, mesmo sem as duas figuras importantes, Fahrenheit 11 - de Setembro estreou em Crawford quase um mês após o lançamento nacional e causou muitos protestos, contra e a favor. Algumas faixas xingavam Moore e diziam para ele deixar Bush em paz.

Mas o que muitos críticos são unânimes em admitir é que Fahrenheit - 11 de Setembro revolucionou o documentário. Foi o primeiro longa desse gênero a ganhar a Palma de Ouro em Cannes e é o maior sucesso de todos os tempos para um filme desse estilo nos Estados Unidos, arrecando mais de 100 milhões de dólares, batendo o recorde de Tiros em Columbine, também de Moore, que arrecadou pouco mais de 20 milhões.

Essa não é a primeira vez que Moore confronta diretamente um presidente. Seu primeiro documentário Roger e Eu, mostra o diretor numa cruzada procurando o presidente da General Motors, Roger Smith, para que ele explicasse o corte de funcionários da fábrica de Flint (Michigan), cidade natal do cineasta. O filme ganhou o prêmio de Melhor Documentário da Associação de Críticos de Cinema de Nova York. Com os lucros obtidos desse filme, Moore fundou o Centro de Mídia Alternativa, que patrocina cineastas independentes e grupos de ação social.

Moore começou sua "carreira de subversivo" cedo. Aos 18 anos concorreu ao conselho dos diretores de sua escola e ganhou, tornando-se um dos mais jovens conselheiros. Quatro anos mais tarde fundou A Voz de Flint, um jornal alternativo que durou mais de 10 anos. Mas, ele começou a ganhar mais repercussão quando, em meados dos anos 1980, chegou à TV com o programa TV Nation - uma ácida e bem humorada crítica às instituições norte-americanas.

Apontando sua metralhadora giratória para todos os lados, Moore também faz sucesso no mercado editorial. Seus dois livros mais recentes Stupid White Men - Uma Nação de Idiotas e Cara, Cadê Meu País? se tornaram best-seller, inclusive no Brasil, onde foram lançados pela W-11 Editores. O segundo está no ranking dos mais vendidos da revista Veja há 14 semanas. O primeiro foi lançado pouco depois dos ataques de 11 de setembro de 2001 e vendeu mais de 50 mil exemplares em um dia.

Nos livros, como em seus filmes, Mike não poupa ninguém, mas seu alvo preferido é George W. Bush. Em seu mais novo livro, propõe algo um pouco mais inusitado: o fim do poder corporativo que domina o mundo e que a população tome o controle novamente. Novamente, sua "vítima" é Bush, que segundo o autor escorregou para a Casa Branca pelos trilhos azeitados com petróleo dos amigos de seu pai, sem ter sido eleito.

CARA, CADÊ MEU FILME? - Michael Moore ganhou seu primeiro Oscar em 2002 com Tiros em Columbine. Em seu discurso de agradecimento não poupou Bush, que havia invadido o Iraque há poucos dias. "Nós temos vergonha do senhor, Presidente Bush", disparou.

Não é nenhum segredo que ganhar um prêmio da Acadêmia facilita muito a carreira de qualquer um em Hollywood. Mas mesmo com um Oscar debaixo do braço, Moore enfrentou graves problemas para o lançamento de Fahrenheit - 11 de Setembro nos Estados Unidos. O documentário foi produzido pela Miramax, uma produtora ligada à Disney. Poucos dias após o filme ter sido selecionado para participar do Festival de Cannes, o estúdio decidiu não lançar o documentário nos Estados Unidos.

Moore, que nunca perde a oportunidade de criar polêmicas e se promover, não deixou essa censura passar batida. Ele foi a público e deu sua versão dos fatos. Conforme a matéria publicada na época no jornal The New York Times, o motivo de tal censura é o fato de o filme fazer ataques ao governo Bush, o que poderia acabar com os incentivos fiscais que o estúdio recebe da Flórida para os seus parques temáticos. O estado é governado por Jeb Bush, irmão do presidente George, e como o documentário faz claras referências às relações entre as famílias de Bush e de Bin Laden, isso poderia prejudicar os negócios da Disney.

A solução encontrada por Harvey Weinstein, dono da Miramax, foi comprar o filme de sua própria empresa e lançá-lo com uma outra companhia. Para isso ele fundou um novo selo e se aliou a outros pequenos distribuidores. Nesse mesmo tempo, o filme participou do Festival de Cannes, onde foi ovacionado por mais de dez minutos e arrebatou a Palma de Ouro - o prêmio máximo do festival, que, aliás, tinha um júri presidido por um americano, Quentin Tarantino.

Se, por um lado, Moore está fazendo escola, lançando um novo tipo de documentários, por outro ele tem criado mais desafetos. Carregado de um oportunismo, o estreante Michael Wilson está finalizando o seu documentário Michael Moore odeia a América. Nesse documentário, que estréia nos EUA ainda esse ano, ele se propõe a explicar os motivos porque Moore implica tanto com George W. Bush e todo o mal que o documentarista tem causado ao país..

Wilson conversou com diversas pessoas que se posicionam contra Moore, como o repórter da ABC John Stossel, o colunista David Horowitz e o escritor David Hardy, que publicou o livro Michael Moore Is a Big Fat Stupid White Man (Michael Moore é um homem branco gordo e estúpido).

Pouco antes de o filme ser lançado nos Estados Unidos, foi a vez do escritor Ray Bradbury reclamar. Ele disse que gostaria que Moore assumisse que baseou-se no título de seu livro Fahrenheit 451para criar a expressão Fahrenheit 9/11 (o título original do filme). O documentarista, como sempre, não se deu por vencido, e na coletiva de lançamento do filme nos Estados Unidos disse que leu a expressão em um e-mail que recebeu pouco depois dos atentados de 11 de setembro. E não deixa de alfinetar o escritor, dizendo que "Bradbury durante sua vida toda se apropriou de títulos e versos de Shakespeare (Something Wicked This Way Comes, que é uma fala de MacBeth), Yeats, Whitman. Ele entende que é perfeitamente legítimo fazer isso e, na verdade, às vezes é até uma coisa boa de se fazer".

Mas Moore não se deixa abalar. Continua firme em seu propósito de tirar Bush da Casa Branca, e em sua guerra contra, como ele mesmo diz, a plutocrática imprensa norte-americana. Ainda é cedo para saber se ele vai ganhar essa guerra. Mas se Bush se reeleger, é bom se preparar, porque Moore deve ter muito mais munição em sua metralhadora giratória.

Cineweb-30/7/2004

Alysson Oliveira


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