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O insubstituível Marlon Brando

Publicado em 06/07/12 às 19h19

Na manhã de 2 de julho de 2004, uma sexta-feira, o veterano cineasta franco-tunisiano Ridha Behi descobriu ter um grande problema nas mãos. O protagonista de seu próximo filme, que ele pretendia rodar ainda este mês, havia morrido no dia anterior. Qualquer diretor, após o choque inicial, faria uma simples pergunta: quem está disponível para o papel? No caso de Behi, o problema era mais grave. Ele não pode simplesmente substituir o seu protagonista, pois o ator faria o papel dele próprio. Mesmo que conseguissem um outro intérprete para o papel, não daria certo, porque o protagonista de Brando and Brando, era ninguém menos do que Marlon Brando, uma das maiores lendas do cinema de todos os tempos.

Behi já declarou a diversos órgãos da imprensa internacional que "ninguém vai tomar o seu lugar". A frase do diretor acaba tomando proporções maiores do que a de um cineasta falando de seu filme. Marlon Brando foi um furacão que passou pelo cinema e deixou marcas que jamais serão apagadas - tanto em sua carreira em papéis memoráveis, como em Uma Rua Chamada Pecado, Sindicato de Ladrões, O Poderoso Chefão ou Apocalypse Now, ou por sua vida pessoal, carregada de tragédias e escândalos.

As melhores performances de Brando no cinema hoje são estudadas em escolas de atuação e servem de base para muitos jovens atores. Atingir o nível de perfeição como ele conseguiu e extrair o máximo de seu personagem são sonhos que muitos almejam, mas raros o conseguem. O cineasta Bernardo Bertolucci, que trabalhou com o ator no polêmico O Último Tango em Paris (1972), uma vez disse que "Marlon estranhamente domina os espaços. Mesmo se ele estiver absolutamente parado, digamos, sentado numa poltrona, ele já tomou para si aquele espaço privilegiado." Para muitos, aliás, a última grande interpretação de Brando foi no filme de Bertolucci.

Nascido em Omaha (Nebraska), no dia 3 de abril de 1924, Marlon Brando Jr. era filho de um casal de alcóolatras. O rapaz freqüentou aulas de teatro entre 1943 e 1944 do New School, em Nova York, onde aprendeu o método Stanislavsky, no qual o ator busca uma identificação psicológica com o personagem. Depois foi estudar no famoso Actor's Studio, escola que também seguia o mesmo método, do qual Brando acabou se tornando um dos mais notórios representantes.

Marlon Brando ganhou dois Oscar, por Sindicato de Ladrões (1954) e O Poderoso Chefão (1972), e recebeu outras 6 indicações, por Uma Rua Chamada Pecado (1952), Viva Zapata! (1953), Júlio Cesar (1954), Sayonara (1957), O Último Tango em Paris (1974) e Assassinato Sob Custódia (1989). Além disso, o ator é protagonista de uma das histórias mais curiosas da cerimônia da Academia. Em 1973, quando ganhou o seu segundo prêmio, não foi recebê-lo e em seu lugar mandou uma suposta índia, chamada Sacheen Littlefeather. A moça, ao invés de proferir agradecimentos, fez um discurso sobre a discriminação contra os nativos. Descobriu-se depois que ela não era descendente de indígenas, mas uma atriz desconhecida.

Se esse é um escândalo ou uma polêmica menor na vida do astro, outros acontecimentos ganharam maiores proporções, além das páginas dos jornais. Em 1990, seu filho mais velho, Christian, assassinou o namorado de sua meia-irmã, Cheyenne, que acabou se suicidando em 1995. Na semana passada, pouco antes da morte de Brando, circularam rumores de que ele estava totalmente falido. As especulações vinham da biografia Brando in Twilight, de Patricia Ruiz, que será publicada no segundo semestre. A decadência financeira teria sido causada por hábitos de consumo extravagantes e dívidas contraídas para pagar os advogados do filho.

A vida amorosa de Marlon Brando também fez a festa de muitos jornais de fofocas. Ele teve filhos com quatro mulheres ao longo da vida. A primeira foi Anna Kashfi, com quem se envolveu numa complicada batalha pela custódia do filho Christian. Também se casou com Movita Castaneda, a atriz mexicana com quem teve um filho, e posteriormente com Tarita Teriipia, a mãe de Cheyenne e Teihoutu. Sua mais recente conquista foi sua ex-empregada Cristina Ruiz, por quem estava sendo processado em 100 milhões de dólares por pensões não pagas.

A conta bancária de Brando, aliás, sempre sofreu altos e baixos. Em 1978, ele recebeu o maior cachê da época, 14 milhões de dólares, para viver o pai de Superman. Nessa mesma época, fazia comentários paradoxais, dizendo que trabalhava pelo dinheiro, pois a profissão de ator era vazia e inútil - mas também dizia que Hollywood era um lugar dominado pelo medo e amor ao dinheiro.

Após conhecer o apogeu, Brando se exilou numa mansão na lendária Mulholland Drive, próxima à de seu amigo Jack Nicholson. Raramente saía de casa. Segundo Patricia Bosworth, autora da biografia Marlon Brando, editada pela Penguin, ocasionalmente ele saía para jantar com seu amigo Johnny Depp, com quem contracenou em Don Juan de Marco (1995). E se comunicava com o mundo pela internet. A escritora conta que ele passava boa parte do tempo visitando websites feitos em sua homenagem e enviava e-mails anônimos reportando erros e omissões, além de ligar para programas de rádio disfarçando sua voz, divertindo-se com essas atividades.

Bosworth também conta que uma fonte próxima a Brando uma vez lhe confidenciou que o ator comia para compensar suas frustrações. "Ele é muito paranóico, especialmente com as pessoas que sabem muito sobre ele. Ele pode ser incrivelmente cruel. Depois se sente culpado e começa a comer", confidenciou o amigo. Algumas pessoas tentaram explicar esse problema alimentar dizendo que Brando é filho de dois alcoólatras e, como não bebia, acabou viciando-se em comer. Uma vez ele declarou que "a comida sempre foi minha amiga. Quando quero me sentir melhor ou tenho uma crise, eu abro a geladeira". Outros filosofavam dizendo que Brando deixou seu corpo perder a forma porque não soube lidar com o fato de sua beleza, no auge da fama, atrair muitas atenções.

Nas últimas décadas Brando enfrentou uma série de fracassos no cinema. Filmes que nem mesmo seu talento conseguiam salvar, como A Ilha do Dr. Moreau (1996) e Loucos Por Dinheiro (1998). Seu último trabalho foi o policial A Cartada Final, de 2001, no qual contracenou com Robert De Niro e Edward Norton - que por coincidência são conhecidos como "Marlon Brando de suas gerações". Durante as filmagens desse longa, mais uma polêmica: o ator se recusava a trocar qualquer palavra com o diretor Frank Oz, criando uma certa tensão no set.

Uma das declarações mais polêmicas de Marlon Brando foi quando ele disse à revista Time que uma estrela de cinema não é nada importante. "Freud, Gandhi, Marx - essas pessoas são importantes. Atuar é tolo, chato e um trabalho infantilóide. Todo mundo representa - quando queremos algo, quando queremos que alguém faça algo; atuamos o tempo todo." Mas seguramente nunca ninguém atuou como Brando.

Cineweb-5/7/2004

Alysson Oliveira


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