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Jane Campion: uma provocadora voz feminina

Publicado em 23/04/04 às 17h47

imagem Desde sua estréia com curta-metragens até sua consagração em 1993, com a obra-prima O Piano - e mesmo depois - o cinema da neozelandesa Jane Campion nunca foi fácil. A primeira palavra que vem à cabeça de muitos cinéfilos quando pensam na filmografia da diretora é estranhamento. A obra de Campion é assim mesmo, diferente, estranha, e, acima de tudo, extremamente autoral. São poucos os cineastas que conseguem manter tanto domínio e, principalmente, integridade artística em sua obra. Campion consegue.

Uma das principais habilidades da diretora é retratar mulheres difíceis em situações limítrofes, que geralmente fazem escolhas erradas e sofrem as conseqüências. Basta uma rápida olhada em sua filmografia recente para comprovar. Em O Piano, Ada McGrath (Holly Hunter) envolve-se com o comprador de seu piano, mas não por amor, pelo menos não por ele, mas por causa do instrumento. Isabel Archer, interpretada por Nicole Kidman em O Retrato de uma Mulher, declina vários pedidos de homens ricos e apaixonados para casar-se com o frio Osmond (John Malkovich), um interesseiro que a levará à destruição. Kate Winslet também errou, no papel de Ruth Barron, em Fogo Sagrado!, ao deixar-se seduzir por seu 'desprogramador', e ambos sofreram as conseqüências, tanto físicas quanto emocionais, acabando devastados.

Mais recentemente foi a vez de Meg Ryan deixar de lado o estigma de boa moça e se entregar a um personagem dirigido por Jane Campion. Em Em Carne Viva, baseado no romance O Corte, de Susanna Moore, Ryan é uma professora universitária que acaba se envolvendo com o detetive que investiga uma série de assassinatos que estão ocorrendo nas redondezas. Ela pode ser uma vítima em potencial, mas ao mesmo tempo é a isca para agarrar o assassino. Novamente, perto do final, como várias outras personagens 'campionianas', a professora precipita-se e faz uma escolha indevida, e isso poderá custar-lhe a vida.

Com uma temática bem feminista, Campion mostrou não só o que as mulheres querem, mas como elas cumprem - ou não - os seus objetivos. Já em seu primeiro trabalho, ainda como estudante, o curta Peel, de 1982, mostra tendências, temáticas e estilos que a cineasta iria desenvolver ao longo da carreira. Tons quentes, principalmente laranja, dominam a fotografia, que mostra um casal e seu filho mimado em uma viagem de carro. O garoto, que descasca laranjas, insiste em jogar cascas pela janela, enfurecendo o pai. O filme de nove minutos acaba com a mãe colocando os dois para fora do carro e seguindo sozinha. Usando enquadramentos diferentes, uma edição cheia de elipses e uma história fragmentada, o curta acabaria definindo o caos familiar que se tornou um território tão bem explorado nos filmes da cineasta.

Fazendo curtas formadores de uma personalidade cinematográfica, o cinema de Campion chegou ao público internacional em 1989, com Sweetie. Um verdadeiro ato de bravura que poucos cineastas têm coragem de fazer, com um filme tão bizarro quanto tocante. Subvertendo conceitos de bom-mocismo, Campion fez um filme difícil e complexo que se torna mais admirável por suas opções de câmera e fotografia. O roteiro meio absurdo conta a história de Kay, uma moça que tem um bom relacionamento com seu namorado. Eles começam a enfrentar uma crise quando ela arranca do jardim a pequena árvore que ele plantara para comemorar o amor do casal. Para piorar, Sweetie, a irmã da moça, chega para passar uma temporada com eles.

Essa irmã revela-se uma pessoa difícil e complicada, que exige muita atenção e cuidados, além dos sonhos de fama que alimenta. O despreendimento da realidade de Sweetie permite a Campion criar excessos e quebrar convenções, o que só aumenta a qualidade do filme. A câmera explora ângulos quase absurdos, como debaixo de uma cama ou do canto de um cômodo. E embora exista o caos, ainda há esperanças para a família. Há a ruptura e a reconciliação.

Uma das maiores escritoras da Nova Zelândia, Janet Frame, foi o objeto de estudo da biografia ficcionalizada Um Anjo em Minha Mesa. Como Sweetie, Frame foi uma pessoa estranha, perdida numa família esquisita. Mas diferente do outro personagem, a escritora não pode dar vazão à sua excentricidade nem explorar o seu talento. Com imagens que remontam a Peel, a ruiva Frame é obrigada a passar a infância e adolescência no meio rural, com uma família que, embora carinhosa, estava presa demais às suas tragédias para poder dar a devida atenção à menina.

Quando adulta, Janet Frame foi diagnosticada como esquizofrênica e mandada para um hospital, onde recebeu mais de 200 choques elétricos. Como a própria escritora diz em sua autobiografia e é citada no filme: "Cada um é como se fosse uma execução". Nas mãos de um cineasta menos talentoso, um material tão poderoso e complexo cairia facilmente no melodrama. Mas Campion, com sua visão artística única e tato para criar ambientações, conseguiu traduzir em imagens uma história meditativa e sensível de um verdadeiro gênio.

Mas a grande obra-prima ainda estava por vir. De O Piano, um filme que começa com um off da protagonista-narradora Ada dizendo que "a voz que vocês estão ouvindo não é a minha voz, mas a voz da minha mente", é possível esperar qualquer coisa. E por meio dessa voz mental da personagem é que o espectator é arrastado para o interior de uma Nova Zelândia onde convivem colonizadores e maoris. Ada está muda desde a infância e é usando o seu piano, e mais tarde a filha, que ela se comunica com o mundo.

Jogando mãe e filha num ambiente inóspito e desconhecido - não só para elas, mas para a maior parte do público- Campion conta uma história de sedução, mas acima de tudo uma história feminista, em que as mulheres não são seres passivos, mas que fazem suas opções -embora às vezes erradas - e não medem esforços para concretizá-las. O filme se tornou um sucesso mundial. Campion foi a primeira mulher a receber a Palma de Ouro em Cannes, além de ser a segunda a ter uma indicação ao Oscar de direção. Holly Hunter e Anna Paquin ganharam os Oscars de melhor atriz e atriz coadjuvante e Campion, o de roteiro.

Tal qual uma personagem de seus filmes, Campion faz uma escolha arriscada para o seu trabalho seguinte, a adaptação do complexo romance O Retrato de uma Mulher, de Henry James. Para sua protagonista, escolhe Nicole Kidman, que na época ainda era creditada basicamente como a Sra. Tom Cruise. O resultado dividiu as críticas e principalmente o público. Figurando como um dos filmes mais incompreendidos e sub-valorizados da história recente do cinema, O Retrato de uma Mulher é, na verdade, como um bom vinho, que deve ser apreciado com o tempo e degustado aos poucos. Desde os créditos iniciais fotografado em preto-e-branco, que mostra moças contemporâneas falando de amor, até a opção de eliminar do roteiro o último capítulo do livro (aquele que condenava a protagonista a um final infeliz) Campion fez um filme altamente autoral, com suas próprias opções e imaginação, sem concessões. Talvez por isso o filme tenha sido tão mal recebido.

Ainda trabalhando nas adaptações literárias, no trabalho seguinte, Fogo Sagrado!, Jane adaptou com a irmã Anna Campion o romance homônimo escrito pelas duas. Kate Winslet é Ruth, uma moça que se envolve em rituais religiosos na Índia. Desesperados, os pais contratam um 'desprogramador' (Harvey Keitel), um especialista em reverter lavagem cerebral. A moça e o profissional acabam num casebre no deserto da Austrália, iniciando uma verdadeira guerra dos sexos, numa história cheia de erotismo e manipulação.

Enfrentando a mesma dificuldades de muitos cineastas autorais, Campion quase viu seu filme seguinte, Em Carne Viva, ir para o limbo dos projetos não realizados. Principalmente por diferenças artísticas. Enquanto Campion queria um filme mais sério e mesmo erótico, com sub-tons de suspense, algo como Klute, como ela mesma definiu, os estúdios produtores (Universal e Miramax) preferiam algo mais sanguinolento, que agradasse às platéias, como Seven. Campion só encontrou a liberdade que queria na Screen Gems (uma divisão da Sony), que além de lhe dar carta branca conseguiu aumentar o orçamento do filme, que ficou em US$ 12 milhões.

Nicole Kidman, que se tornara uma grande estrela desde O Retrato de uma Mulher, seria a protagonista. Mas acabou apenas como produtora executiva. O papel de Frannie ficou nas mãos de Meg Ryan, que surpreendeu a muitos por se distanciar tanto de seu métier, as comédias românticas, e por aparecer nua nas telas. Claro que o filme causou polêmica, principalmente nos Estados Unidos, onde acabou passando uma versão censurada, sem a explícita cena de sexo oral.

Recentemente, enquanto divulgava Em Carne Viva na Nova Zelândia, Campion declarou a jornais locais que pretende ficar afastada do cinema por pelo menos quatro anos, para se dedicar à família. "Trabalhei por quinze anos sem parar porque surgiu a oportunidade e estou agradecida por isso, principalmente porque há muito poucas de nós, diretoras", complementou. Mas uma mente artística e inquieta, como a de Campion, certamente estará arquitetando o seu novo filme - ou sua nova provocação - enquanto curte essas férias com a família. Ao seu público só resta aguardar para que estes quatro anos passem bem rápido.

Alysson Oliveira


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